Poetisa quem? Meu ser é poeta 24/03/2010
“Lupe Cotrim? Ah, ela era... alguém ligada à ECA. Não era?” Centro Acadêmico Lupe Cotrim. No primeiro dia da semana de recepção, os bixos da ECA conhecem todas as entidades da Escola – e é com estranheza que ouvem o nome do seu centro acadêmico. Nome de auditório, como tantos outros espalhados. Professora, aluna, funcionária, atriz, cantora, quem foi Lupe ninguém sabe e o nome vai passando de boca em boca, de ano em ano, perdendo seu significado. Pra quem viveu a ECA no final da década de 60, quando foi formada a Escola de Comunicações e Artes, é difícil entender essa situação. Como não saber quem era aquela mulher diferente, vinda da Faculdade de Filosofia, jovem, corajosa... poeta? “Os alunos queriam que todos os professores fossem como ela.” Quem conta e rememora são antigos colegas, alunos, marido - a fala é de Eduardo Peñuela Canizal, que trabalhou com ela na ECA. Todos se reúnem para prestigiar obra e vida da poeta em seminários organizados pela pesquisadora Leila Gouvêa – ela mesma antiga aluna de Lupe. O motivo é a abertura no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB USP) da exposição Ser Poeta - Lupe Cotrim, 40 anos depois, que, junto aos debates e conversas, serve para que se possa adentrar nessa história tão importante da literatura brasileira. Dizer que é importante talvez não signifique muita coisa. Mas veja: quem nunca ouviu falar de Hilda Hilst? Hilda, Renata Pallottini e Lupe Cotrim eram os três nomes mais promissores da cena literária brasileira nas décadas de 60 e 70. O que aconteceu para que a história de uma delas se perdesse no meio do caminho? Talvez não haja uma explicação única, mas a morte da escritora aos 36 anos, em 1970, foi um fator decisivo – ela faleceu de câncer em seu auge poético, e como reconta seu marido José Arthur Giannotti, “para nós era muito duro recordar sobre a Lupe.” “Quando não se conhece a vida da pessoa, se apressa o esquecimento da obra,” comenta o escritor Fábio Lucas, um dos participantes do seminário Uma intelectual na travessia dos anos 60. Para resgatar essa obra que não pode ser esquecida, Leila Gouvêa, jornalista formada na ECA e bolsista da FAPESP, decidiu fazer em seu pós-doutorado uma biografia da poeta. Mas os dados básicos – Maria José Cotrim Garaude Giannotti, nasceu em 16 de março, paulistana, morou em Araçatuba, pais se separaram, morou no Rio, teve dois filhos, foi professora – não satisfazem. Leila frisa que seu trabalho é uma biografia literária: parte da obra para a vida. Além disso, inúmeros depoimentos enriquecem e vão dando luz aos contornos meio borrados da Lupe pessoa, indissociável da Lupe poeta. Ajudou Leila a família de Lupe ter doado ao IEB, à época, um acervo pessoal de cartas, cartões, rascunhos, fotos, mais de mil recordações da escritora. Assim, num trabalho interdisciplinar que misturou arquivologia com pesquisa literária e biográfica, ela organizou a atual exposição, que conta com mais ou menos cem objetos. O livro, Estrela breve: uma biografia da poeta Lupe Cotrim, deve ser lançado ainda no segundo semestre desse ano. Para enriquecer a exposição, Leila organizou seminários com poetas modernos, críticos, amigos, familiares. A idéia era “incentivar a renovação da fortuna crítica à obra de Lupe,” explica. Além disso, lembrar-se da poeta mulher, descobri-la novamente. Ex-alunos, como o professor Ismail Xavier, recordaram a Lupe professora, jovem, engajada, consciente de sua época, dos problemas político-sociais do país. Contemporânea. Leila conta que, na greve dos estudantes de 68 pela reformulação do currículo – a ECA foi criada em 67 e se dizia que os currículos haviam sido feitos às pressas e de qualquer jeito -, foi Lupe quem convenceu os estudantes a desocuparem um dos barracões nos quais aconteceria o Congresso Internacional de Novas Mídias (ao qual compareceram, por exemplo, Glauber Rocha e Roberto Rossellini). Mais tarde, Fábio Lucas analisa alguns poemas de “Cânticos da Terra”, enquanto Telê Ancona Lopez fala da obra em geral. Ana Maria Fadul recorda os três momentos em que conheceu Lupe – o primeiro deles na Faculdade de Filosofia da Maria Antônia. “Éramos todos recém saídos do ensino médio, novos. De repente, entra na sala de aula aquela mulher já feita, bem vestida, elegante. Ficamos sabendo que era famosa,” conta. “Era corajosa e não aceitava desaforo – uma vez um professor deu nota baixa em um trabalho pra todo mundo, e a dela foi a mais alta: 3,5. ‘Como você faz isso, isso vai pro meu currículo, você vai ferrar com seus alunos’. O professor era o Giannotti – eles se casaram no final do ano.” Esses tantos prismas tecem uma histórica rica, uma tela colorida: independência, feminismo, insegurança, ciúme, vitalidade, contradições. Rasgava cartas que o marido recebia, viajava sozinha. Recebia prêmios, às vezes não se achava tudo isso. Lutava pela vida com unhas e dentes, mas tratava da morte obsessivamente em seus textos. Trocava cartas com Carlos Drummond, era amiga de Lygia Fagundes Telles, fez uma ponta no primeiro curta-metragem de Eduardo Leone, sabia que seria escritora desde os 12 anos. Ela não viveu para ver seu último livro – Poemas ao outro (1970) – receber o maior prêmio de poesia da época, “Governador do Estado”, além de outros dois. Não viu ser publicada Obra Consentida (1973), a antologia que ela havia preparado antes de morrer, com alguns poemas retrabalhados de seus 5 primeiros livros e os 2 últimos na íntegra, nem a antologia preparada por seu filho, Marco Giannotti, em 1984. Mas continua surpreendendo e encantando com alguns textos inéditos, e mesmo com os antigos – as releituras constroem novos sentidos e a obra faz-se eterna. Surpreende com as cartas, os retratos, a força, a leveza, a seriedade. Poesia viva em sorriso - sempre coordenado com o olhar, completa o professor Eduardo. Add Comment | "Mas afinal, quem era eu realmente? A essa pergunta quero responder com toda honestidade: eu era aquele que tinha muitas caras."
- Milan Kundera em "A brincadeira" Gostou?Já passou
May 2010 CategoriasAll |



