A hora de Clarice 21/04/2010
Clarice está em todo lugar. Nos corredores, no mural da vivência, na porta de vidro do prédio principal da ECA. Os olhos misteriosos, tão característicos, ou só o nome – que basta em si. Clarice. Os cartazes promovem eventos diferentes: um, palestra sobre sua biografia; outro, discussão de sua obra. No mesmo dia, (quase) no mesmo horário. Mas vida de repórter é mesmo assim e o jeito é se desdobrar. A noite começa às cinco da tarde na Casa de Cultura Japonesa. Um estande da Edusp vende livros sobre a escritora (que também podiam ser encontrados na feira de livros da EACH). Os mesmos olhos dos cartazes estão ali estampados, encarando a tudo como se de tudo soubessem. São o tema da noite. Quem fala para o auditório lotado – na falta de cadeiras vazias, o chão do corredor vira assento para os que vão chegando – é Nádia Battela Gotlib, a biógrafa brasileira de Clarice Lispector. Ela veio falar sobre a 6ª edição da biografia de Clarice que escreveu e da fotobiografia lançada em 2009, e com um sorriso no rosto começa a contar sua história. Formada em letras pela UnB, fez mestrado e doutorado na USP, em literatura brasileira e portuguesa, respectivamente. Em 1979, começou a dar na pós-graduação o único curso específico sobre Clarice na Universidade. Foi ali, diz, que surgiu o que seria Clarice -uma vida que se conta. O livro, sua tese de livre-docência, nasceu das conversas com os alunos. Do entusiasmo e das inquietações geradas por aquela “coisa” que Clarice queria dizer e que Nádia busca em seus trabalhos. Na tentativa de esclarecer como a escritora conquistava seus leitores antes mesmo que eles percebessem, Nádia foi fisgada: “O mal estava feito.” Ler Clarice não é fácil, e tudo começa aí. Não se pode olhar a obra procurando nada de antemão – ela trabalha sempre no território da intimidade, e há de se entregar por completo às palavras, sem racionalizar. E, de repente, no meio das histórias, começa-se a vislumbrar Clarice. Ela, que inventava dados e fatos e não falava muito sobre o passado, se ficcionaliza e torna-se personagem. O trabalho da biógrafa consistiu em unir crítica literária com dados biográficos – depoimentos, cartas, bilhetes, anotações -, para contextualizar obras e escritora. “É um ato delicado, delimitar quando um fato biográfico ilumina ou não a obra”, confessa. Clarice: fotobiografia traz em suas páginas centenas de imagens que contam muito. “O que eu quis em cada página foi construir situações de vida e de literatura.” Vemos Nápoles e os militares, e entendemos porque não há crônicas dessa época. Vemos Berna, o “cemitério de sensações” e sentimos o sufocar da paisagem. Clarice esposa – olhares tortos, foto rasgada. Clarice sorrindo com Mafalda Veríssimo, sua grande amiga. Clarice jornalista, uma das pioneiras na profissão. Clarice mãe. Clarice filha. Clarice mulher. E é a Clarice mulher, assim como a mulher em Clarice, que está sendo discutida em frente à vivência da ECA em uma roda de estudantes. O Núcleo de Gêneros do CALC (Centro Acadêmico Lupe Cotrim), que se reúne quinzenalmente, às quartas-feiras, usa "Amor" como gancho para discutir as relações de gênero na sociedade. No conto, Ana, personagem que vive para sua funcionalidade, se desconcerta e entra em choque ao ver um cego mascando chicletes. O olho do cego não tem função – ele não a vê. Quem é ela se não é algo para alguém? No Jardim Botânico, onde vai para refletir, ela tem medo da natureza, da liberdade, da “coisa”. Volta para casa e seu marido a engloba novamente no mundo tranqüilo do lar. A discussão passa pela história da mulher, pela evolução de seu “papel social” e de suas oportunidades. Talvez Ana não tivesse escolhido aquela vida, como pensa – apenas não tinha para onde ir, e, quando descobre que pode mudar, se assusta. A liberdade assusta. A vida da própria Clarice entra na roda: quando casada, se identificava com Ana, mas, diferente desta, largou tudo e enfrentou preconceitos para seguir sua carreira, sem nunca deixar de lado seu papel de mãe ou mulher. E assim a via dupla de Nádia aparece ali, e aquelas inquietações. Clarice está em todo lugar. Saiba mais sobre o Núcleo de Gêneros do CALC: Embora o foco do núcleo não seja a literatura, ela ainda será usada em outros encontros, nos quais algo de Caio Fernando Abreu deve aparecer. O próximo acontece no dia 28 e fechará a questão da mulher, iniciando uma discussão mais ampla, sobre o movimento GLBTS. Começa às 18h e termina por volta das 19h30. Todas as imagens foram retiradas do livro Clarice: fotobiografia. Leia mais:As (inquietantes e autobiográficas) crônicas de Clarice Lispector, trabalho escrito pela autora desta matéria em 2009.
Add Comment Aos bibliomaníacos, EACH 21/04/2010
A feira de livros da FFLCH todo mundo já conhece. Mas e pra quem faz Marketing, Turismo e Lazer, ou algum outro curso na Escola de Artes e Ciências Humanas? Para que os alunos da conhecida USP Leste tenham acesso à mesma quantidade de livros com desconto que os que estudam na Cidade Universitária, aconteceu na semana passada a Feira de Livros da EACH. Pra quem não estuda por lá, nem mora por onde passa a linha Safira do trem, é meio complicado chegar – mas não impossível. Linha vermelha do metrô, estação Tatuapé ou Brás: basta pegar o trem Brás-Calmon Viana, sentido Calmon Viana, e descer na estação USP Leste. Não tem erro: só há duas saídas, uma para uma avenida e outra para o campus. Quando há Feira, é ainda mais fácil: basta fazer o caminho inverso ao das pessoas que saem com sacolas e mais sacolas de livros nas mãos. É uma aventura – o trem balança, a disposição dos lugares é diferente, as casas à beira da linha passam como que vizinhas aos vagões – mas vale a pena: dois prédios grandes abrigam as dezenas de editoras que oferecem publicações com descontos a partir de 50%. Não há muita gente comprando; mesmo os estandes mais badalados, como da Editora 34, Cosac Naify e Martins Fontes estão com pouca gente: é possível ver livro a livro, pegar nas mãos, sentir o papel, ler alguns trechos. Números que normalmente custam bem caro estão a preços acessíveis – as biografias de Clarice escritas por Nádia Battella são vendidas por, em média, 30 a 45 reais no estande da Edusp. A Editora Globo oferece uma coleção de Machado de Assis por 38 reais, ou os livros do cozinheiro Jamie Oliver por, em média, 35. Na Cosac, publicações sobre arte são o grande diferencial: design, cinema, literatura, acompanhados de acabamentos muito bem feitos. Há quem seja viciado em sapatos, roupas, comidas. Para os viciados em livros, a feira da EACH é um verdadeiro paraíso. Enquanto ela não volta, esperamos a feira da FFLCH para melhorar nossa crise de abstinência. | "Mas afinal, quem era eu realmente? A essa pergunta quero responder com toda honestidade: eu era aquele que tinha muitas caras."
- Milan Kundera em "A brincadeira" Gostou?Já passou
May 2010 CategoriasAll | ||||||







