Caminhos do romance 20/05/2010
Pense nos seus dez livros preferidos. Pensou? Ok, agora pense na forma de cada um deles. Talvez você tenha se lembrado de um ou dois livros de poesia, algum de contos ou crônicas, talvez um livro de arte, um de história (ou até física, matemática... nunca se sabe). Mas tenho certeza de que pelo menos metade da sua lista é feita de romances. O romance tende a ocupar um lugar preponderante nas nossas vidas de leitores. Mas, por mais familiar que esse formato nos pareça, seu destaque no universo literário é algo novo em termos históricos. Em curso oferecido pelo Centro Universitário Maria Antonia (CEUMA), Samuel Titan Jr., professor do Departamento de Teoria Literária da FFLCH, se propõe justamente a traçar uma trajetória do romance desde seu surgimento até a conquista de seu papel central como gênero literário. ![]() A saber, o primeiro romance Samuel destaca que o romance é o único entre os grandes gêneros que não tem origem na Antiguidade: “Não há nenhum gênero literário grego ou latino de ficção extensa em prosa, que é o que define o romance”. Afinal, a grande tradição narrativa antiga é composta em versos, tendo sua expressão máxima no poema épico, como a Ilíada, a Odisséia e a Eneida. O primeiro romance só vai surgir em 1554, ano da edição mais antiga de que se tem notícia do Lazarillo de Tormes, narrativa em prosa sobre as desventuras de um garoto pobre que tenta ganhar a vida. O Lazarillo é considerado um romance por unir prosa e ficção de forma até então inédita na literatura ocidental. Em primeira pessoa, o protagonista – “despido de qualquer valor ético digno de emulação”, nas palavras do professor – narra retrospectivamente o curso de sua própria vida. Nesta pequena descrição já se encontram duas diferenças importantes em relação ao poema épico: o personagem não encarna os valores fundamentais de uma comunidade, como Ulisses ou Aquiles; além disso, os poemas épicos eram sempre narrados em terceira pessoa, expondo a experiência de um grande herói não a partir da memória de quem conta, mas de um saber superior ditado pelas musas. ![]() Desencontro cômico de desejo e realidade Outro marco importante está nos anos de 1605 e 1615, quando foram publicadas as duas partes de D. Quixote de La Mancha. O herói aqui se apresenta como encarnação do ideal de outra época, num “divórcio completo entre os valores que gostaria de viver e a cartilha que o resto do mundo está seguindo”, segundo Samuel. Este conflito entre personagem e mundo acabaria se tornando uma característica definidora não apenas do Quixote, mas de todo o romance como gênero. Não só o espaço da narrativa, mas também o tempo se aproxima da experiência do leitor, sendo, de alguma forma, mais acessível do que a antiguidade remota de uma epopéia grega ou romana. O nome do gênero em outros idiomas já é revelador desta característica: novel em inglês, novela em espanhol, sempre remetendo ao fato de que o romance narra algo de novo, algo que aconteceu há pouco tempo. "No século XIX o romance chegou a competir com o próprio jornal", conta o palestrante. ![]() Tristram Shandy: inovação na forma É bom lembrar que a visão do Quixote como um clássico da literatura, para nós tão familiar, é relativamente recente. Cervantes escreveu esta obra por diversão, ao mesmo tempo em que trabalhava outros gêneros como a poesia, a tragédia e a comédia, por considerar que o romance não tinha valor, em consonância com a crítica de seu tempo. Já que a tragédia era vista como o mais nobre dos gêneros, as características peculiares do romance faziam dele um gênero menor. “Na época, se imaginava que só escrevia romance quem não tinha fôlego para escrever tragédias ou capacidade para ser historiador”. A visão do romance como gênero desprezível em termos morais e estéticos prevaleceu até o início do século XIX. Samuel explica a ascensão do romance em termos mercadológicos: “O romance é um dos únicos gêneros que nasceu depois da invenção da imprensa. A batalha contra os críticos começou a ser vencida no mercado literário: mais e mais leitores responderam ao apelo do romance”. ![]() Comédia Humana de Balzac: último tema O sucesso deste gênero se deu também pela forma como ele se constituiu dentro do contexto literário. “O romance não deu um golpe de Estado. Ele não se coroou como o mais nobre dos gêneros. Ele foi aos poucos canibalizando todos os outros gêneros, imitando, parodiando, incluindo em si mesmo traços dos gêneros vizinhos, minando o sistema de valores literários. É um gênero onívoro: se alimenta de tudo no mundo e também de todos os outros gêneros. Contra isso não há remédio”. A partir daí, o romance substituiu a hierarquia que colocava a tragédia como gênero mais nobre, no qual os demais se espelhavam, por um sistema horizontal, que prevalece até hoje. Esta nova relação pressupõe diálogos e trocas entre os gêneros, que passam a se metamorfosear continuamente uns nos outros. Se você gostou do tema, ainda dá tempo! Samuel já ofereceu três das quatro palestras do curso: a primeira, sobre o surgimento e expansão do romance; a segunda, sobre Cervantes; a terceira, sobre o romance inglês do século XVIII. A última acontece na próxima quarta, dia 26 de maio, e tem como tema o romance francês do século XIX. Se você prefere participar de um ciclo completo, o CEUMA ainda vai oferecer muitos ao longo do ano, como parte de um projeto maior sobre formas literárias. Em junho, o tema será o ensaio; em julho, os diários de viagem; em agosto, o conto; em setembro, vem a segunda parte do ciclo sobre o romance, que vai abordar este gênero desde o século XIX até hoje. 1 Comment Livros, filmes & borboletas pretas 05/05/2010
Seu livro preferido vai virar filme. As personagens, os cenários, as vozes, tudo tomará forma e você espera que seja do jeito que você imagina. Muitas vezes, isso não acontece, o que não é necessariamente ruim. Assim como pode acontecer e, exatamente por isso, pecar. “Taxativo” é uma palavra que não combina com arte. Quando gostamos demais de uma obra, é normal que se faça uma comparação “plana” entre o original canônico e a adaptação. É melhor, é pior, um “estragou” o outro. Não gostamos porque muitas cenas foram cortadas, adaptadas, as personagens não são como imaginávamos fisicamente. Mas o que é que Machado tem a ver com tudo isso? A história começa mesmo com um cartaz no ponto de ônibus. Festival de Cinema. Curioso. Alguns dias depois, pessoas se reúnem na porta da sala 266 da faculdade de Letras. As chaves chegam junto com a professora responsável pelo evento, Aparecida de Fátima Bueno, e os mais ou menos 15 presentes entram. Mirella Soares, aluna do 3º ano de Letras, conta que hoje vieram mais pessoas que o costume - a debatedora convidada, Cilaine Alves Cunha, atraiu parte do público. A professora dá aulas na faculdade e é especialista em Machado de Assis. O filme do dia é Memórias Póstumas (2001), de André Klotzel. A obra faz parte do projeto de cultura e extensão Literatura, Cinema e Cultura nos países de língua portuguesa, do qual Mirella é monitora. Nascido de discussões dentro de um grupo de pesquisa sobre literatura e cinema, tomou a forma de um festival. São passadas adaptações fílmicas de obras de Machado de Assis e Eça de Queirós, e o objetivo é fomentar o debate sobre as adaptações para tentar fugir daquele equívoco da comparação chapada. ![]() Último filme será em 23/6 É preciso ver o filme originado de livro como outra obra. Não só a linguagem, mas também a concepção do trabalho é diferente. A quem é destinado, em que contexto histórico e social é produzido. São pessoas diferentes em épocas diferentes com intenções enunciativas diferentes. O autor muda, e a autoria é o que dá força à obra. A jornalista Mariana Duccini, cujo doutorado em curso na ECA trata da autoria no cinema documentário, comenta: “O filme não vai ser igual o livro, e é bom que ele não seja. Isso quer dizer que há espaço para que o autor crie, deixe sua marca. Se fosse para copiar o que já existe, não precisava ser feito.” Ela cita como exemplo Robinson Crusoé, de Luis Buñuel: parece claro que a motivação não era ser fiel ao livro, mas sim partir dele para algo mais. Desse modo, a adaptação tem que ser vista sem preconceitos, de olhos abertos. ![]() Buñuel cria história mais 'latina' O sentido da arte é sempre reconstruído. No debate pós-exibição, percebe-se isso. A presença da debatedora ajuda: ela inicia a conversa após o filme e incentiva as outras pessoas a exporem sua opinião. Todas convergem para um ponto – Klotzel não ousou. O filme parece tentar ser bem fiel ao romance homônimo: mantém a estrutura narrativa do “defunto narrador”, as personagens, a ordem dos acontecimentos. Mas falha. O “eu” morto é separado do vivo, enquanto essencialmente, no romance, estão ligados. Personagens aparecem sem contexto, como o negro Prudêncio: no começo do filme, Brás Cubas criança aparece “montado” nele. Mas não há a cena essencial de crítica à escravidão, quando Prudêncio, liberto, aparece dono de escravos. A maior falta, porém, é da ironia machadiana, que critica e matiza - falta a essência da obra inspiradora. ![]() Filme é guiado pelos romances de B. Cubas Ouça o áudio novamente. A passagem sobre a morte de Eugênia é síntese dessa ironia, diz Mariana. Brás Cubas está dizendo, “Olha, Eugênia, você morreu tão miseravelmente quanto viveu.” Nuances como essa se perdem, e não há nada no lugar. É o caso da metáfora da borboleta preta. Na sequência de cenas do livro, Brás Cubas primeiro acha graça da superstição da mãe de Eugênia, do medo dela em relação ao animal, e depois fica ele próprio assustado e o mata. “Também por que diabo não era ela azul?” Ora, Eugênia, menina manca, mas bonita, de quem ele primeiro se aproveita mas depois descarta, porque é coxa – Eugênia é a borboleta preta. A adaptação cinematográfica não necessariamente precisaria conter essa cena. Há espaço para criação, releituras, captar o que se acredita ser a essência do romance e das personagens de outros modos. Júlio Bressane fez uma adaptação do romance, em 1985, naqual o lado filosófico é muito forte – é uma releitura própria, algo novo. Não cabe dizer como o filme deveria ser. Mas a impressão que fica de Memórias Póstumas é a de uma adaptação que se propõe a ser fiel e acaba vazia, como um resumo mal acabado. Há a borboleta sem sentido, e Brás Cubas repetindo sem parar em outro momento, “Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?” Poderia ser azul, mas não é. | "Mas afinal, quem era eu realmente? A essa pergunta quero responder com toda honestidade: eu era aquele que tinha muitas caras."
- Milan Kundera em "A brincadeira" Gostou?Já passou
May 2010 CategoriasAll |











