Branco à toa e arco-íris 22/09/2009
Por Lívia Furtado Nesse canto da casa bate um sol delícia a essa hora da manhã... (Fadas e copos num canto da casa - Mariana Salomão Carrara) Você chega, sem saber muito bem onde está. A fachada vitoriana rosa envelhecido, a escada larga, a varanda, o jardim incrivelmente calmo – tudo te lembra um filme de época. Você entra, se perde pelos cômodos errados (sem querer, invade a Sala de Restauro), pede informações, e de repente encontra o que estava procurando – muito mais do que imaginava estar procurando. Você foi até ali para ver uma exposição de literatura, mas encontrou fragmentos de si mesmo. Os painéis suspensos de vidro são iluminados pela luz fraca do sol, a qual se infiltra no corredor através das janelas e da porta aberta que leva ao solário da casa. Atrás dos vidros, letras. Crônicas, poemas, histórias. Reflexos de protagonistas reais em protagonistas imaginários. Os trabalhos fazem parte da 17ª Nascente – aquela mesma, cujo cartaz você via todo dia ao entrar na USP pela Portaria 1, no primeiro semestre. O concurso, realizado pela USP todo ano, reúne trabalhos artísticos de várias categorias feitos por alunos da universidade e se divide na Mostra Nascente (que abrange as apresentações de Música Popular, Erudita e as peças de Artes Cênicas) e na Visualidade Nascente (Artes Visuais, Audiovisual, Texto e Design). As exposições de cada área ocorrem em locais diferentes ligados à academia - esse ano (assim como na última edição) as de design e texto foram acolhidas pelo Centro de Preservação Cultural (CPC) da USP, mais conhecido como Casa de Dona Yayá. Quando morre o que você ama / só cabe morrer junto / pra colher o riso dos manicômios / e ver como ainda caminham / os resto, as sobras / dessa marionete insistente (O Eu-Cão que aprumo - Ivan Martucce Fornerón) Placas distribuídas pela propriedade contam um pouco de sua história. Dona Yayá era Sebastiana de Mello Freire. De família rica, única herdeira de propriedades, foi diagnosticada como doente mental aos 32 anos, em 1919, e levada para a casa da Rua Major Diogo (desce na Brigadeiro, no ponto logo depois de cruzar a Major, informa gentilmente uma senhora no ponto de ônibus), à época uma chácara afastada da cidade. A atual sede do CPC sofreu pelo menos três reformas desde que foi construída no século XIX - originalmente, um chalé de tijolos -, e atualmente passa por restaurações. Os azulejos do rodapé e as pinturas murais; os cantos arredondados das paredes; o piso não mais de madeira - elementos de uma narrativa que se constrói escondida por detrás dos murais e das obras. A história, que remete a clausura e políticas de "saneamento", ganha um pouco de leveza com o grande jardim e com o solário, construído em 1950. Esta cidade / diagonal / me atravessa o tempo / como um piano que se fingisse manco / eu me rendo, querida, / entre a necessidade / suas imagens / latendo sob outras paisagens / e o tédio e o tédio e coisas que acaso / brilham / nos desvãos a espera de mais dias / mesmos / na contraluz olhares trocados / a esmo e explode como em fruta açúcares e álacres prenúncios de morte em meio ao trânsito (laetitia, SP - Gabriel Pedrosa Pedro) Nos terrenos de trás, casas mais modernas. Rap que sai pelas janelas. Carros buzinando nas ruas. Presa no tempo, a antiga residência de Yayá convive com elementos do presente, numa mistura vezes conflituosa, vezes pacífica do antigo e do novo. A queda original não passou de um pretexto, a primeira grande cilada em que Deus meteu o homem p'ra eximir-se da culpa de ter criado também o mal - a necessidade de comer o outro. (A Condessa de Picaçurova - Júlio Cesar Pereira) Dentro da casa, passado e presente também se misturam. Desde agosto, ela abriga projetos de identidade visual, modelagens e histórias em quadrinho: a sala, o Quarto Verde e o Quarto Rosa dão espaço para os trabalhos de design. No corredor que une os quartos por fora, fica a literatura. Placas de vidro recobrem os fragmentos textuais pendurados ao teto por finas cordas de metal. São 9, ao todo, as obras de texto - escolhidas por uma comissão de especialistas dentre os 97 trabalhos inscritos, informa Sandra Lara, diretora técnica de ação cultural da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão. Percebem-se nelas temas correlacionados: vida, morte, tempo, relacionamentos. Seja em forma de poesia, crônica ou ficção, são todas “respostas humanas diante do caos”. Segundo a jornalista Cremilda Medina, as narrativas são uma forma encontrada pelo homem de transformar o caos em que vive em um cosmos. Os fragmentos expostos exemplificam esse conceito apresentado no livro “A Arte de Tecer o Presente,” pois tentam organizar questões desse universo confuso. Santos rebate: “Se alguém rasgou algo, foi Safo que rasgou-se.” (Os Telégrafos - Eraldo Souza dos Santos) As palavras vão tentando colocar em ordem uma confusão interna, é o que parece. A sensação, ao ler algumas das obras, é de que se está invadindo um universo muito particular, espectador curioso e não convidado. Mas os problemas são também nossos: refletem-se ali, naquela obra tão particular do artista, as inquietações de cada indivíduo do público. É o casal e a família, as reflexões aleatórias, a dor da perda, a humanidade, o tédio, o tempo. a palavra está gasta todos os sentidos dizem / somos os homens ocos na terra desolada (Sem título - Josoaldo Lima Rego) Numa primeira leitura, feita em silêncio, muito do que ali está parece sem sentido. Parte porque não são as obras completas (na estréia da exposição, houve um sarau no qual os autores discutiram seus textos, mas agora encontramos apenas os fragmentos). Parte vem do fato de que tudo parece abstrato demais. Entretanto, uma leitura (ou releitura) mais atenciosa, mais humana, leva à compreensão. Uma compreensão própria, subjetiva e um tanto quanto reveladora. A iluminação começa a revelar vários buracos no teto. (Zurique - Roberta Carbone) Talvez as pessoas visitando a Mostra achassem estranho ver uma mulher parada à frente dos painéis lendo em voz alta, com emoção na voz, as narrativas. Como nos dois dias de visita não havia ninguém, exceto os funcionários do lugar, não foi preciso se preocupar com isso. A voz encontrou apenas o silêncio – entrecortado pelos jatos de água com que Dona Delza, faxineira, limpava o chão de pedra do solário. Aparentemente, sexta-feira é dia de faxina. Uma conversa com o guarda Francisco Batista Rocha revelou que a maioria das visitas ocorre no fim de semana. “Trabalho aqui há 10 anos. A maioria é estudante ou professor, e vem nos domingos, porque de sábado aqui fica fechado.” Está explicado. Além disso, é provável que a maioria das pessoas tenha ido nos primeiros dias – a exposição acaba já agora no dia 23, quarta feira. Os presságios estão onde as pessoas se lavam. (...) Escuta a respiração da manhã nascendo, mais um dia que nasce, com ele a antiga ciência de virar a página do calendário.(Wonderland - Tadeu de Melo Sarmento) No domingo, vozes. Estão visitando a mostra? “Não, a gente está ensaiando.” Teatro? “Somos do grupo História do Brasil em Cena, estamos apresentando o ‘Olhares sobre Dona Yayá’. Nossa, se você tivesse chegado meia hora antes, tinha um grupo de umas dez pessoas por aqui visitando.” É uma pena, mas no fundo a solidão faz bem. Às vezes a nossa subjetividade precisa de um pouco de paz. Na imaginação, um grupo de pessoas lendo em voz alta seu próprio caos organizado. Desgraçada seja a literatura, que não salva ninguém. (Bela literatura de província - Tiago Guilherme Pinheiro) ___________________________________________________________ Perdeu a exposição? Veja aqui fotos e todos os textos expostos na Nascente. Na próxima terça, 29, ocorre a premiação da 17ª Nascente. Confira mais informações aqui. A peça “Olhares sobre Dona Yayá” é apresentada na Casa todo último final de semana do mês, até outubro. As próximas apresentações serão no dia 26 (às 15 horas) e 27 de setembro (às 11 horas). A entrada é franca. Add Comment | "Mas afinal, quem era eu realmente? A essa pergunta quero responder com toda honestidade: eu era aquele que tinha muitas caras."
- Milan Kundera em "A brincadeira" Gostou?Já passou
May 2010 CategoriasAll |




