por Alexandre Dall'ara ![]() Para aqueles pobres mortais, como eu, que não podem folhear prazerosamente os livros da “Shakespeare&Co” (lendária livraria parisiense) ou, mais realista, gastar os créditos do seu bilhete único de estudante e/ou o tempo de uma leitura obrigatória indo até uma das belas livrarias da Av. Paulista, surge, na cidade universitária, uma promissora alternativa. O espaço desenhado pelo arquiteto Paulo Bruna se destaca em meio aos arredores uspianos e ao próprio prédio da antiga reitoria - um tanto quanto, digamos...saudoso da última pintura? -, cujo primeiro andar a livraria ocupa. Entre o estacionamento da praça dos bancos, a praça do relógio e o CTR (departamento de televisão, rádio e cinema da ECA), a nova instalação abrigará ainda um café - sem previção de inauguração. A livraria João Alexandre Barbosa, inaugurada pela Edusp no último dia 8, leva o nome do professor aposentado da FFLCH, de origem pernambucana, falecido no dia 3 de agosto de 2006, que ocupou a presidência da Edusp. O espaço foi todo reformado para abrigar a loja com um acervo de mais de oito mil e quinhentos títulos da área de humanas. Esses títulos, de acordo com uma funcionária, privilegiam publicações de docentes da universidade e editoras pequenas, sem excluir as maiores, entretanto. Edições de outras áreas, como ciências exatas, por exemplo, serão adicionados futuramente. ![]() A área externa ganhou uma nova praça, com agradáveis bancos e jardim, que servirá para exposições. Já está prevista, de acordo com o professor Plínio Martins Filho, presidente da Edusp, uma mostra sobre os “Fundadores da USP” com imagens e biografia dos professores fundadores da universidade e dos primeiros alunos formados. A livraria ocupava anteriormente o centro de vivência, junto com a farmácia, em frente à reitoria. Esse espaço, hoje fechado, também tem previsão de reforma para voltar a funcionar e agregar-se às outras quatro lojas na cidade universitária (Biomédicas, Educação, Geografia/História e Politécnica). Todas elas, porém, são de tamanho menor se comparadas à João Alexandre Barbosa e classificadas como pontos de venda pelo presidente da editora. A Edusp conta também com uma livraria no centro (no espaço Maria Antônia), com três mil títulos, e outras cinco distribuídas pelos outros campi da USP, cada uma delas com um acervo em torno de mil títulos. Add Comment Através do espelho: Guimarães Rosa 07/10/2009
por Lívia Furtado Guimarães Rosa era leitor de Plotino. Essa foi apenas uma das descobertas que o estudante da Poli, Henrique Primon, fez ao frequentar pela primeira vez a roda de leitura no IEB da qual ouvira falar através de uma amiga. Ele não sabia muito bem o que esperar, e foi sem muito jeito que chegou ao saguão do Instituto, onde encontrou um aglomerado de pessoas e decidiu que devia estar no lugar certo. O acaso pode ter muita influência no curso de uma matéria. Essa foi apenas uma das descobertas que a jornalista Lívia Furtado fez ao escrever sobre a roda de leitura no IEB da qual ouvira falar através de um amigo. Entrei na história muito assim por acaso - Henrique comentou sobre as leituras comigo porque não havia visto na agenda da Escarlate. Literatura? Guimarães? Vou com você. Mas não poderia, de fato, ter sido de outro modo - não há história do autor de Sagarana que não envolva um mínimo de mítico, tendo o destino grande papel em suas obras. ![]() Tema da vez na roda. Não sabíamos muito bem o que esperar, mas logo ficamos à vontade - é impossível ficar retraído quando alguém lhe oferece doce e cachaça, lá de Minas, vamos, experimentem. É toda terça à noite, das 18 às 20 horas, que as reuniões acontecem em uma sala do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, explica Rosa Haruco Tane, a “rosiana” quem organiza as discussões. O espaço foi conseguido graças ao ex vice-diretor do IEB, Dieter Heidemann, o qual participa do grupo, mas Rosa deixa claro desde o início que “a gente não tem nenhum intuito acadêmico. É só um encontro de amigos apaixonados por Guimarães,” e que, infelizmente, não é toda semana que tem tanta comida assim não (algumas mulheres entram na sala trazendo salgados e doces, que serão devorados mais tarde). A história começou há cinco anos, como forma de manter contato entre um grupo de amigos, e continua até hoje, “faça chuva ou faça sol.” Rosa dá voz ao palestrante do dia, André Cordeiro. Simpático, o doutor em literatura, que fez sua tese baseada na comparação das obras do pintor paraense Ismael Nery com o poeta Murilo Mendes, nos traz “Narciso refletido: sobre um conto de Guimarães Rosa e um desenho de Ismael Nery”, análise de “O espelho” com base nas pinturas de Nery e na obra do filósofo Plotino. Este, neoplatônico, trata do Uno – que equivale, no cristianismo, a Deus -, relacionado ao “mundo das ideias” de Platão. “O espelho” narra, justamente, a história de um homem que um dia vê em seu reflexo um monstro e, assustado, começa a se procurar em todo espelho pelo qual passa. Ele analisa sua própria imagem e vai desfazendo suas “máscaras” uma a uma, a procura de seu verdadeiro “eu”. Até que, um dia, não vê mais nada, nem seus olhos. Mais tarde, aparece “o tênue começo de um quanto como uma luz, que se nublava” (p. 120). Como se o homem da caverna de Platão de repente visse a ideia de homem, a “homidade”, como se a personagem atingisse o Uno. As imagens de nós mesmos são tema central também das obras de Nery. Em “Croqui para o retrato da Sra. Adalgisa Nery”, a mulher do pintor se olha no espelho e vê ali a imagem do marido. Os auto-retratos de Nery, reflexos de um narcisismo exacerbado, mostram o pintor sob óticas diferentes, como máscaras distintas sob as quais ele poderia ser visto. Sentados lado a lado, todos podiam falar e cada um via nas obras algo próprio. Os quadros de Nery, por exemplo: nós vemos em nós os outros, nos vemos nos outros? A mulher vê sua relação com o marido como parte mais importante dela – teria “Croqui” um lado machista? Qual seria o pintor de fato – o anjo, o demônio, a mulher, o homem? Nenhum – ou todos? A personagem, o pintor, os homens, todos com diversas facetas e podendo ser representados de inúmeras maneiras. O mais interessante da roda é ver, justamente, as interpretações que cada participante faz das obras analisadas – começam a ser percebidas novas relações, como com Fernando Pessoa e seus diversos heterônimos. Poesia, prosa, artes plásticas. A comparação de diferentes tipos de manifestações artísticas mostra que anseios parecidos podem ser demonstrados de maneiras diferentes. O poder da arte, entretanto, é justamente fazer esse algo tão íntimo, “meu”, ressonar nos outros e comunicar-se com eles, em um processo contínuo de construção de significados. As obras não têm um sentido fixo, fechado - a cada leitor, a cada um que as vê, esse sentido se refaz, se reconstrói, se modifica. Nos modifica – ninguém sai igual depois da roda de leitura. A arte é um espelho no qual nos procuramos e acabamos perturbados com o que encontramos. O conto de Guimarães termina com uma pergunta, fica em aberto, esperando nossas próprias respostas. Perturbe-se – vale a pena. As imagens das obras de Ismael Nery foram retiradas do catálogo da exposição: Ismael Nery 100 anos: a poética de um mito. São Paulo / Rio de Janeiro, 2000. | "Mas afinal, quem era eu realmente? A essa pergunta quero responder com toda honestidade: eu era aquele que tinha muitas caras."
- Milan Kundera em "A brincadeira" Gostou?Já passou
May 2010 CategoriasAll |









