Caminhos do romance 20/05/2010
Pense nos seus dez livros preferidos. Pensou? Ok, agora pense na forma de cada um deles. Talvez você tenha se lembrado de um ou dois livros de poesia, algum de contos ou crônicas, talvez um livro de arte, um de história (ou até física, matemática... nunca se sabe). Mas tenho certeza de que pelo menos metade da sua lista é feita de romances. O romance tende a ocupar um lugar preponderante nas nossas vidas de leitores. Mas, por mais familiar que esse formato nos pareça, seu destaque no universo literário é algo novo em termos históricos. Em curso oferecido pelo Centro Universitário Maria Antonia (CEUMA), Samuel Titan Jr., professor do Departamento de Teoria Literária da FFLCH, se propõe justamente a traçar uma trajetória do romance desde seu surgimento até a conquista de seu papel central como gênero literário. ![]() A saber, o primeiro romance Samuel destaca que o romance é o único entre os grandes gêneros que não tem origem na Antiguidade: “Não há nenhum gênero literário grego ou latino de ficção extensa em prosa, que é o que define o romance”. Afinal, a grande tradição narrativa antiga é composta em versos, tendo sua expressão máxima no poema épico, como a Ilíada, a Odisséia e a Eneida. O primeiro romance só vai surgir em 1554, ano da edição mais antiga de que se tem notícia do Lazarillo de Tormes, narrativa em prosa sobre as desventuras de um garoto pobre que tenta ganhar a vida. O Lazarillo é considerado um romance por unir prosa e ficção de forma até então inédita na literatura ocidental. Em primeira pessoa, o protagonista – “despido de qualquer valor ético digno de emulação”, nas palavras do professor – narra retrospectivamente o curso de sua própria vida. Nesta pequena descrição já se encontram duas diferenças importantes em relação ao poema épico: o personagem não encarna os valores fundamentais de uma comunidade, como Ulisses ou Aquiles; além disso, os poemas épicos eram sempre narrados em terceira pessoa, expondo a experiência de um grande herói não a partir da memória de quem conta, mas de um saber superior ditado pelas musas. ![]() Desencontro cômico de desejo e realidade Outro marco importante está nos anos de 1605 e 1615, quando foram publicadas as duas partes de D. Quixote de La Mancha. O herói aqui se apresenta como encarnação do ideal de outra época, num “divórcio completo entre os valores que gostaria de viver e a cartilha que o resto do mundo está seguindo”, segundo Samuel. Este conflito entre personagem e mundo acabaria se tornando uma característica definidora não apenas do Quixote, mas de todo o romance como gênero. Não só o espaço da narrativa, mas também o tempo se aproxima da experiência do leitor, sendo, de alguma forma, mais acessível do que a antiguidade remota de uma epopéia grega ou romana. O nome do gênero em outros idiomas já é revelador desta característica: novel em inglês, novela em espanhol, sempre remetendo ao fato de que o romance narra algo de novo, algo que aconteceu há pouco tempo. "No século XIX o romance chegou a competir com o próprio jornal", conta o palestrante. ![]() Tristram Shandy: inovação na forma É bom lembrar que a visão do Quixote como um clássico da literatura, para nós tão familiar, é relativamente recente. Cervantes escreveu esta obra por diversão, ao mesmo tempo em que trabalhava outros gêneros como a poesia, a tragédia e a comédia, por considerar que o romance não tinha valor, em consonância com a crítica de seu tempo. Já que a tragédia era vista como o mais nobre dos gêneros, as características peculiares do romance faziam dele um gênero menor. “Na época, se imaginava que só escrevia romance quem não tinha fôlego para escrever tragédias ou capacidade para ser historiador”. A visão do romance como gênero desprezível em termos morais e estéticos prevaleceu até o início do século XIX. Samuel explica a ascensão do romance em termos mercadológicos: “O romance é um dos únicos gêneros que nasceu depois da invenção da imprensa. A batalha contra os críticos começou a ser vencida no mercado literário: mais e mais leitores responderam ao apelo do romance”. ![]() Comédia Humana de Balzac: último tema O sucesso deste gênero se deu também pela forma como ele se constituiu dentro do contexto literário. “O romance não deu um golpe de Estado. Ele não se coroou como o mais nobre dos gêneros. Ele foi aos poucos canibalizando todos os outros gêneros, imitando, parodiando, incluindo em si mesmo traços dos gêneros vizinhos, minando o sistema de valores literários. É um gênero onívoro: se alimenta de tudo no mundo e também de todos os outros gêneros. Contra isso não há remédio”. A partir daí, o romance substituiu a hierarquia que colocava a tragédia como gênero mais nobre, no qual os demais se espelhavam, por um sistema horizontal, que prevalece até hoje. Esta nova relação pressupõe diálogos e trocas entre os gêneros, que passam a se metamorfosear continuamente uns nos outros. Se você gostou do tema, ainda dá tempo! Samuel já ofereceu três das quatro palestras do curso: a primeira, sobre o surgimento e expansão do romance; a segunda, sobre Cervantes; a terceira, sobre o romance inglês do século XVIII. A última acontece na próxima quarta, dia 26 de maio, e tem como tema o romance francês do século XIX. Se você prefere participar de um ciclo completo, o CEUMA ainda vai oferecer muitos ao longo do ano, como parte de um projeto maior sobre formas literárias. Em junho, o tema será o ensaio; em julho, os diários de viagem; em agosto, o conto; em setembro, vem a segunda parte do ciclo sobre o romance, que vai abordar este gênero desde o século XIX até hoje. 1 Comment Livros, filmes & borboletas pretas 05/05/2010
Seu livro preferido vai virar filme. As personagens, os cenários, as vozes, tudo tomará forma e você espera que seja do jeito que você imagina. Muitas vezes, isso não acontece, o que não é necessariamente ruim. Assim como pode acontecer e, exatamente por isso, pecar. “Taxativo” é uma palavra que não combina com arte. Quando gostamos demais de uma obra, é normal que se faça uma comparação “plana” entre o original canônico e a adaptação. É melhor, é pior, um “estragou” o outro. Não gostamos porque muitas cenas foram cortadas, adaptadas, as personagens não são como imaginávamos fisicamente. Mas o que é que Machado tem a ver com tudo isso? A história começa mesmo com um cartaz no ponto de ônibus. Festival de Cinema. Curioso. Alguns dias depois, pessoas se reúnem na porta da sala 266 da faculdade de Letras. As chaves chegam junto com a professora responsável pelo evento, Aparecida de Fátima Bueno, e os mais ou menos 15 presentes entram. Mirella Soares, aluna do 3º ano de Letras, conta que hoje vieram mais pessoas que o costume - a debatedora convidada, Cilaine Alves Cunha, atraiu parte do público. A professora dá aulas na faculdade e é especialista em Machado de Assis. O filme do dia é Memórias Póstumas (2001), de André Klotzel. A obra faz parte do projeto de cultura e extensão Literatura, Cinema e Cultura nos países de língua portuguesa, do qual Mirella é monitora. Nascido de discussões dentro de um grupo de pesquisa sobre literatura e cinema, tomou a forma de um festival. São passadas adaptações fílmicas de obras de Machado de Assis e Eça de Queirós, e o objetivo é fomentar o debate sobre as adaptações para tentar fugir daquele equívoco da comparação chapada. ![]() Último filme será em 23/6 É preciso ver o filme originado de livro como outra obra. Não só a linguagem, mas também a concepção do trabalho é diferente. A quem é destinado, em que contexto histórico e social é produzido. São pessoas diferentes em épocas diferentes com intenções enunciativas diferentes. O autor muda, e a autoria é o que dá força à obra. A jornalista Mariana Duccini, cujo doutorado em curso na ECA trata da autoria no cinema documentário, comenta: “O filme não vai ser igual o livro, e é bom que ele não seja. Isso quer dizer que há espaço para que o autor crie, deixe sua marca. Se fosse para copiar o que já existe, não precisava ser feito.” Ela cita como exemplo Robinson Crusoé, de Luis Buñuel: parece claro que a motivação não era ser fiel ao livro, mas sim partir dele para algo mais. Desse modo, a adaptação tem que ser vista sem preconceitos, de olhos abertos. ![]() Buñuel cria história mais 'latina' O sentido da arte é sempre reconstruído. No debate pós-exibição, percebe-se isso. A presença da debatedora ajuda: ela inicia a conversa após o filme e incentiva as outras pessoas a exporem sua opinião. Todas convergem para um ponto – Klotzel não ousou. O filme parece tentar ser bem fiel ao romance homônimo: mantém a estrutura narrativa do “defunto narrador”, as personagens, a ordem dos acontecimentos. Mas falha. O “eu” morto é separado do vivo, enquanto essencialmente, no romance, estão ligados. Personagens aparecem sem contexto, como o negro Prudêncio: no começo do filme, Brás Cubas criança aparece “montado” nele. Mas não há a cena essencial de crítica à escravidão, quando Prudêncio, liberto, aparece dono de escravos. A maior falta, porém, é da ironia machadiana, que critica e matiza - falta a essência da obra inspiradora. ![]() Filme é guiado pelos romances de B. Cubas Ouça o áudio novamente. A passagem sobre a morte de Eugênia é síntese dessa ironia, diz Mariana. Brás Cubas está dizendo, “Olha, Eugênia, você morreu tão miseravelmente quanto viveu.” Nuances como essa se perdem, e não há nada no lugar. É o caso da metáfora da borboleta preta. Na sequência de cenas do livro, Brás Cubas primeiro acha graça da superstição da mãe de Eugênia, do medo dela em relação ao animal, e depois fica ele próprio assustado e o mata. “Também por que diabo não era ela azul?” Ora, Eugênia, menina manca, mas bonita, de quem ele primeiro se aproveita mas depois descarta, porque é coxa – Eugênia é a borboleta preta. A adaptação cinematográfica não necessariamente precisaria conter essa cena. Há espaço para criação, releituras, captar o que se acredita ser a essência do romance e das personagens de outros modos. Júlio Bressane fez uma adaptação do romance, em 1985, naqual o lado filosófico é muito forte – é uma releitura própria, algo novo. Não cabe dizer como o filme deveria ser. Mas a impressão que fica de Memórias Póstumas é a de uma adaptação que se propõe a ser fiel e acaba vazia, como um resumo mal acabado. Há a borboleta sem sentido, e Brás Cubas repetindo sem parar em outro momento, “Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?” Poderia ser azul, mas não é. Aos bibliomaníacos, EACH 21/04/2010
A feira de livros da FFLCH todo mundo já conhece. Mas e pra quem faz Marketing, Turismo e Lazer, ou algum outro curso na Escola de Artes e Ciências Humanas? Para que os alunos da conhecida USP Leste tenham acesso à mesma quantidade de livros com desconto que os que estudam na Cidade Universitária, aconteceu na semana passada a Feira de Livros da EACH. Pra quem não estuda por lá, nem mora por onde passa a linha Safira do trem, é meio complicado chegar – mas não impossível. Linha vermelha do metrô, estação Tatuapé ou Brás: basta pegar o trem Brás-Calmon Viana, sentido Calmon Viana, e descer na estação USP Leste. Não tem erro: só há duas saídas, uma para uma avenida e outra para o campus. Quando há Feira, é ainda mais fácil: basta fazer o caminho inverso ao das pessoas que saem com sacolas e mais sacolas de livros nas mãos. É uma aventura – o trem balança, a disposição dos lugares é diferente, as casas à beira da linha passam como que vizinhas aos vagões – mas vale a pena: dois prédios grandes abrigam as dezenas de editoras que oferecem publicações com descontos a partir de 50%. Não há muita gente comprando; mesmo os estandes mais badalados, como da Editora 34, Cosac Naify e Martins Fontes estão com pouca gente: é possível ver livro a livro, pegar nas mãos, sentir o papel, ler alguns trechos. Números que normalmente custam bem caro estão a preços acessíveis – as biografias de Clarice escritas por Nádia Battella são vendidas por, em média, 30 a 45 reais no estande da Edusp. A Editora Globo oferece uma coleção de Machado de Assis por 38 reais, ou os livros do cozinheiro Jamie Oliver por, em média, 35. Na Cosac, publicações sobre arte são o grande diferencial: design, cinema, literatura, acompanhados de acabamentos muito bem feitos. Há quem seja viciado em sapatos, roupas, comidas. Para os viciados em livros, a feira da EACH é um verdadeiro paraíso. Enquanto ela não volta, esperamos a feira da FFLCH para melhorar nossa crise de abstinência. A hora de Clarice 21/04/2010
Clarice está em todo lugar. Nos corredores, no mural da vivência, na porta de vidro do prédio principal da ECA. Os olhos misteriosos, tão característicos, ou só o nome – que basta em si. Clarice. Os cartazes promovem eventos diferentes: um, palestra sobre sua biografia; outro, discussão de sua obra. No mesmo dia, (quase) no mesmo horário. Mas vida de repórter é mesmo assim e o jeito é se desdobrar. A noite começa às cinco da tarde na Casa de Cultura Japonesa. Um estande da Edusp vende livros sobre a escritora (que também podiam ser encontrados na feira de livros da EACH). Os mesmos olhos dos cartazes estão ali estampados, encarando a tudo como se de tudo soubessem. São o tema da noite. Quem fala para o auditório lotado – na falta de cadeiras vazias, o chão do corredor vira assento para os que vão chegando – é Nádia Battela Gotlib, a biógrafa brasileira de Clarice Lispector. Ela veio falar sobre a 6ª edição da biografia de Clarice que escreveu e da fotobiografia lançada em 2009, e com um sorriso no rosto começa a contar sua história. Formada em letras pela UnB, fez mestrado e doutorado na USP, em literatura brasileira e portuguesa, respectivamente. Em 1979, começou a dar na pós-graduação o único curso específico sobre Clarice na Universidade. Foi ali, diz, que surgiu o que seria Clarice -uma vida que se conta. O livro, sua tese de livre-docência, nasceu das conversas com os alunos. Do entusiasmo e das inquietações geradas por aquela “coisa” que Clarice queria dizer e que Nádia busca em seus trabalhos. Na tentativa de esclarecer como a escritora conquistava seus leitores antes mesmo que eles percebessem, Nádia foi fisgada: “O mal estava feito.” Ler Clarice não é fácil, e tudo começa aí. Não se pode olhar a obra procurando nada de antemão – ela trabalha sempre no território da intimidade, e há de se entregar por completo às palavras, sem racionalizar. E, de repente, no meio das histórias, começa-se a vislumbrar Clarice. Ela, que inventava dados e fatos e não falava muito sobre o passado, se ficcionaliza e torna-se personagem. O trabalho da biógrafa consistiu em unir crítica literária com dados biográficos – depoimentos, cartas, bilhetes, anotações -, para contextualizar obras e escritora. “É um ato delicado, delimitar quando um fato biográfico ilumina ou não a obra”, confessa. Clarice: fotobiografia traz em suas páginas centenas de imagens que contam muito. “O que eu quis em cada página foi construir situações de vida e de literatura.” Vemos Nápoles e os militares, e entendemos porque não há crônicas dessa época. Vemos Berna, o “cemitério de sensações” e sentimos o sufocar da paisagem. Clarice esposa – olhares tortos, foto rasgada. Clarice sorrindo com Mafalda Veríssimo, sua grande amiga. Clarice jornalista, uma das pioneiras na profissão. Clarice mãe. Clarice filha. Clarice mulher. E é a Clarice mulher, assim como a mulher em Clarice, que está sendo discutida em frente à vivência da ECA em uma roda de estudantes. O Núcleo de Gêneros do CALC (Centro Acadêmico Lupe Cotrim), que se reúne quinzenalmente, às quartas-feiras, usa "Amor" como gancho para discutir as relações de gênero na sociedade. No conto, Ana, personagem que vive para sua funcionalidade, se desconcerta e entra em choque ao ver um cego mascando chicletes. O olho do cego não tem função – ele não a vê. Quem é ela se não é algo para alguém? No Jardim Botânico, onde vai para refletir, ela tem medo da natureza, da liberdade, da “coisa”. Volta para casa e seu marido a engloba novamente no mundo tranqüilo do lar. A discussão passa pela história da mulher, pela evolução de seu “papel social” e de suas oportunidades. Talvez Ana não tivesse escolhido aquela vida, como pensa – apenas não tinha para onde ir, e, quando descobre que pode mudar, se assusta. A liberdade assusta. A vida da própria Clarice entra na roda: quando casada, se identificava com Ana, mas, diferente desta, largou tudo e enfrentou preconceitos para seguir sua carreira, sem nunca deixar de lado seu papel de mãe ou mulher. E assim a via dupla de Nádia aparece ali, e aquelas inquietações. Clarice está em todo lugar. Saiba mais sobre o Núcleo de Gêneros do CALC: Embora o foco do núcleo não seja a literatura, ela ainda será usada em outros encontros, nos quais algo de Caio Fernando Abreu deve aparecer. O próximo acontece no dia 28 e fechará a questão da mulher, iniciando uma discussão mais ampla, sobre o movimento GLBTS. Começa às 18h e termina por volta das 19h30. Todas as imagens foram retiradas do livro Clarice: fotobiografia. Leia mais:As (inquietantes e autobiográficas) crônicas de Clarice Lispector, trabalho escrito pela autora desta matéria em 2009.
Poetisa quem? Meu ser é poeta 24/03/2010
“Lupe Cotrim? Ah, ela era... alguém ligada à ECA. Não era?” Centro Acadêmico Lupe Cotrim. No primeiro dia da semana de recepção, os bixos da ECA conhecem todas as entidades da Escola – e é com estranheza que ouvem o nome do seu centro acadêmico. Nome de auditório, como tantos outros espalhados. Professora, aluna, funcionária, atriz, cantora, quem foi Lupe ninguém sabe e o nome vai passando de boca em boca, de ano em ano, perdendo seu significado. Pra quem viveu a ECA no final da década de 60, quando foi formada a Escola de Comunicações e Artes, é difícil entender essa situação. Como não saber quem era aquela mulher diferente, vinda da Faculdade de Filosofia, jovem, corajosa... poeta? “Os alunos queriam que todos os professores fossem como ela.” Quem conta e rememora são antigos colegas, alunos, marido - a fala é de Eduardo Peñuela Canizal, que trabalhou com ela na ECA. Todos se reúnem para prestigiar obra e vida da poeta em seminários organizados pela pesquisadora Leila Gouvêa – ela mesma antiga aluna de Lupe. O motivo é a abertura no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB USP) da exposição Ser Poeta - Lupe Cotrim, 40 anos depois, que, junto aos debates e conversas, serve para que se possa adentrar nessa história tão importante da literatura brasileira. Dizer que é importante talvez não signifique muita coisa. Mas veja: quem nunca ouviu falar de Hilda Hilst? Hilda, Renata Pallottini e Lupe Cotrim eram os três nomes mais promissores da cena literária brasileira nas décadas de 60 e 70. O que aconteceu para que a história de uma delas se perdesse no meio do caminho? Talvez não haja uma explicação única, mas a morte da escritora aos 36 anos, em 1970, foi um fator decisivo – ela faleceu de câncer em seu auge poético, e como reconta seu marido José Arthur Giannotti, “para nós era muito duro recordar sobre a Lupe.” “Quando não se conhece a vida da pessoa, se apressa o esquecimento da obra,” comenta o escritor Fábio Lucas, um dos participantes do seminário Uma intelectual na travessia dos anos 60. Para resgatar essa obra que não pode ser esquecida, Leila Gouvêa, jornalista formada na ECA e bolsista da FAPESP, decidiu fazer em seu pós-doutorado uma biografia da poeta. Mas os dados básicos – Maria José Cotrim Garaude Giannotti, nasceu em 16 de março, paulistana, morou em Araçatuba, pais se separaram, morou no Rio, teve dois filhos, foi professora – não satisfazem. Leila frisa que seu trabalho é uma biografia literária: parte da obra para a vida. Além disso, inúmeros depoimentos enriquecem e vão dando luz aos contornos meio borrados da Lupe pessoa, indissociável da Lupe poeta. Ajudou Leila a família de Lupe ter doado ao IEB, à época, um acervo pessoal de cartas, cartões, rascunhos, fotos, mais de mil recordações da escritora. Assim, num trabalho interdisciplinar que misturou arquivologia com pesquisa literária e biográfica, ela organizou a atual exposição, que conta com mais ou menos cem objetos. O livro, Estrela breve: uma biografia da poeta Lupe Cotrim, deve ser lançado ainda no segundo semestre desse ano. Para enriquecer a exposição, Leila organizou seminários com poetas modernos, críticos, amigos, familiares. A idéia era “incentivar a renovação da fortuna crítica à obra de Lupe,” explica. Além disso, lembrar-se da poeta mulher, descobri-la novamente. Ex-alunos, como o professor Ismail Xavier, recordaram a Lupe professora, jovem, engajada, consciente de sua época, dos problemas político-sociais do país. Contemporânea. Leila conta que, na greve dos estudantes de 68 pela reformulação do currículo – a ECA foi criada em 67 e se dizia que os currículos haviam sido feitos às pressas e de qualquer jeito -, foi Lupe quem convenceu os estudantes a desocuparem um dos barracões nos quais aconteceria o Congresso Internacional de Novas Mídias (ao qual compareceram, por exemplo, Glauber Rocha e Roberto Rossellini). Mais tarde, Fábio Lucas analisa alguns poemas de “Cânticos da Terra”, enquanto Telê Ancona Lopez fala da obra em geral. Ana Maria Fadul recorda os três momentos em que conheceu Lupe – o primeiro deles na Faculdade de Filosofia da Maria Antônia. “Éramos todos recém saídos do ensino médio, novos. De repente, entra na sala de aula aquela mulher já feita, bem vestida, elegante. Ficamos sabendo que era famosa,” conta. “Era corajosa e não aceitava desaforo – uma vez um professor deu nota baixa em um trabalho pra todo mundo, e a dela foi a mais alta: 3,5. ‘Como você faz isso, isso vai pro meu currículo, você vai ferrar com seus alunos’. O professor era o Giannotti – eles se casaram no final do ano.” Esses tantos prismas tecem uma histórica rica, uma tela colorida: independência, feminismo, insegurança, ciúme, vitalidade, contradições. Rasgava cartas que o marido recebia, viajava sozinha. Recebia prêmios, às vezes não se achava tudo isso. Lutava pela vida com unhas e dentes, mas tratava da morte obsessivamente em seus textos. Trocava cartas com Carlos Drummond, era amiga de Lygia Fagundes Telles, fez uma ponta no primeiro curta-metragem de Eduardo Leone, sabia que seria escritora desde os 12 anos. Ela não viveu para ver seu último livro – Poemas ao outro (1970) – receber o maior prêmio de poesia da época, “Governador do Estado”, além de outros dois. Não viu ser publicada Obra Consentida (1973), a antologia que ela havia preparado antes de morrer, com alguns poemas retrabalhados de seus 5 primeiros livros e os 2 últimos na íntegra, nem a antologia preparada por seu filho, Marco Giannotti, em 1984. Mas continua surpreendendo e encantando com alguns textos inéditos, e mesmo com os antigos – as releituras constroem novos sentidos e a obra faz-se eterna. Surpreende com as cartas, os retratos, a força, a leveza, a seriedade. Poesia viva em sorriso - sempre coordenado com o olhar, completa o professor Eduardo. Pra tirar da gaveta 22/02/2010
Todo mundo tem um pouco de louco - e de poeta. Quem é que nunca tentou expressar seus sentimentos colocando no papel o que sentia? Com a ascensão dos blogs, aumentaram em muito as chances de algum estranho ler aquele seu texto antes só conhecido por amigos e familiares - querida, lê pra sua vó seu poema novo! Mas para os aspirantes a escritores, poucas coisas superam a emoção de ver seu texto em alguma publicação impressa. Além de todo ritual envolvido - a espera, a notícia de que alguém gostou o suficiente do seu texto para publicá-lo, a revisão, a edição, a diagramação -, há ainda aquela sensação indescritível ao se ver um desconhecido lendo seu texto na rua. É fato que metade dos bixos de jornalismo, letras e direito, por exemplo, entram na faculdade com esse sonho - não adianta negar. Mas há também muitos talentos escondidos entre os físicos, politénicos, biólogos, psicólogos. E, há cinco anos, os alunos de Editoração decidiram fazer mudar um pouco essa realidade de textos juntando pó nas gavetas. Primeiro: sim, Editoração existe e é um curso de graduação (e várias outras coisas muito engraçadas, segundo o que os próprios alunos escrevem e publicam no manual dos bixos de edit). Segundo: os edits são raros - quinze por ano, dividem um departamento com os jornalistas lá na ECA - mas muito criativos e, graças a eles, a Originais Reprovados existe. Criada em 2005, essa revista toda diferente, pequena e cheia de desenhos aceita textos de qualquer bixo, veterano ou pós-graduando da USP. É só enviar seu trabalho e, se for escolhido pela equipe da revista, ser publicado (a OR6 ainda não tem data pra sair, mas no site da Originais você pode se inscrever para receber notificados de quando começa a seleção). Quando surgiu, ela era uma publicação própria da Com-Arte Júnior - CAJu, para os íntimos -, a empresa júnior do curso; ano passado, se transformou em um Projeto de Cultura e Extensão. Espera, extensão? Exatamente. Sabe aquela história de tripé universitário de que todo mundo parece falar nas palestras e aulas magnas e sobre a qual você, recém-chegado à USP, nunca tinha ouvido falar? Extensão é isso: devolver à sociedade algo do que nos foi possibilitado por ela. A OR passou a ser distribuída gratuitamente e a ser levada para fora do campus - passou a ter por obrigação acrescentar algo à vida das pessoas fora da USP, "já que a ideia de um projeto de cultura e extensão é devolver à sociedade o que é gasto com a universidade pública", explica a editoranda do segundo ano Nathália Dimambro, que participou da criação da OR número 5, em 2009. A ideia é incentivar a leitura e a redação dos jovens dessas escolas, além de mostrar a eles que ter seus textos publicados por alguém não é algo assim tão fora de seu alcance. Para os uspianos, o que muda de verdade é que, por não ser mais paga, a revista passou a ter um público muito maior. Bárbara Prince, coordenadora da última edição, contou que os pontos escolhidos para distribuição foram os bandejões. Como não quiseram privilegiar nenhuma unidade, membros da equipe deixavam exemplares da revista nos restaurantes e depois iam ver o resultado. "Deu super certo, os exemplares sumiam," comemora Bárbara. Sobre a mudança, a garota explica que antes, apesar da revista dar certo para a CAJu - por causa de todo aprendizado envolvido -, ela não alcançava muitos leitores e, portanto, não cumpria seu papel comunicador. Agora, as chances do seu texto ser lido por colegas da faculdade inteira são muito maiores - não há quem não fique atraído pelas capas coloridas e bonitas da Originais. Ou, no caso da primeira edição, não fique curioso pra saber o que há dentro daquele envelopezinho pardo. Arte e texto estão totalmente interligados nas páginas da Originais - não há arte isolada, afinal. Desenhos, ilustrações feitas pela equipe e a diagramação às vezes diferenciada trazem mais vida às palavras. "Setembro", do aluno de publicidade Lucas Nascimento, tem o formato das torres gêmeas - ele enviou o texto à OR já desse modo, e gostou do fato da equipe ter sido fiel aos desejos do autor. No caso de José Muniz Jr., ex-aluno que participou da equipe da primeira OR e anos depois teve um texto publicado na revista, a forma poderia ter sido trágica não fosse uma coincidência: "Tem uma história engraçada. Um dia eu tava passando lá pela sala 10 [uma das salas da Com-Arte Jr.] e vi alguém diagramando justamente o meu poema. Fiquei feliz com a coincidência e fui dar uma olhadinha. Aí eu vi que a pessoa tava fazendo um lance na diagramação que ia basicamente destruir metade do sentido do poema. Por sorte eu estava lá e indiquei o engano." É como lembrou Bárbara: a OR é uma publicação estudantil, um lugar de aprendizado e, consequentemente, erros (os jornalistas ecanos bem sabem que "todo São Remo é o pior São Remo da história", por exemplo). "A gente manda os textos revisados pros autores para eles aprovarem a revisão. Se a diagramação for mudar o sentido do texto, também fazemos isso. O problema é quando o autor não colabora e nos trata mal se tem alguma coisa errada." Mas a ideia é justamente essa: aprendizado. Ter seu texto publicado também é aprender - a lidar com editores, a controlar a ansiedade, a abrir mão de algo que até então era tão seu. Se não na Universidade, aprenderemos onde? Por isso, fique de olho: além da Originais, você pode enviar seus trabalhos também para Mostras como a Nascente, que acontece no começo do ano, ou para concursos como o Concurso de Talentos da FEA. Eles não serão publicados, mas ficarão expostos ao público. É hora de tirar os originais da gaveta e deixá-los respirar. E se depois de ler tudo isso você pensar "Mas o meu negócio mesmo é jornalismo", tá esperando o que? Envie sua pauta pra gente! * Lívia Furtado é Diretora de Projetos da Com-Arte Jr., mas nunca participou da equipe da Originais Reprovados. por Isadora Sinay A tradicional feira (ou festa) de livros da FFLCH acontece todo ano, normalmente no mês de novembro. Estudantes da USP - mas não só eles - esperam o ano todo, ansiosamente, a chance de poder comprar todos aqueles títulos desejados por metade do preço - literalmente. Adultos, adolescentes, crianças, todos lotam os corredores e rampas do prédio de história e geografia. A estudante de cinema da FAAP Isadora Sinay conta sua experiência durante o segundo dia do evento. Às 7 da noite da última quinta-feira (29), depois de mais de uma hora de viagem em um ônibus abafado e cheio, eu cheguei na festa do livro perseguida por uma chuva irritante (a responsável por me deixar uma hora no tal ônibus) e com um mau-humor considerável. Então eu vi a multidão. Parecia que eu não tinha saído do ônibus e pensei “não vai dar, vou embora”, mas eu não podia deixar de pensar “livros com desconto, livros com desconto, livros com desconto” então respirei fundo e fui. A primeira parada foi a Editora 34, reconhecível tanto pelo cartaz quanto pelo amontoado de pessoas. Chegar de fato ao balcão não parecia viável, mas com alguma cara-de-pau e sorte por não ser muito alta eu consegui sutilmente passar na frente de algumas pessoas e alcançar os livros. Estavam todos lá, tudo que você poderia esperar da 34, aquelas edições enormes e ilustradas com xilogravuras de Dostoievski (traduzidas direto do russo!), outros russos como Tostoi e Lekov (sempre traduzidos direto do russo) e as edições de luxo de alguns outros clássicos como “A Divina Comédia”, que eu confesso não ter dado atenção. Tudo que eu queria era Dostoievski, e eles estavam todos lá, todos os livros do autor que eu poderia lembrar de cabeça, desde a edição dupla de “Os irmão Karamazov” até textos desconhecidos como “Gente Pobre”. E sim, os preços estavam todos com 50% de desconto e havia etiquetas nos livros. Agarrei um exemplar de “Os Demônios”, outro de “O Jogador” e fui enfrentar a longa fila de pagamento. Foi longa, mas foi organizada. Ponto para a 34, que tinha o catálogo quase completo, preços realmente reduzidos e organização, se você tivesse paciência. A partir daí eu saí em peregrinação, levando um Sade e uma edição bilingue de poemas da Emily Dickinson na Iluminuras, um Adorno na publifolha. Foi tudo organizado, mas os livros estavam com o preço sem o desconto (também de 50%), o que não causava problemas porque ambas estavam relativamente vazias, mas não iria funcionar se tivesse mais público. E foi o que aconteceu na Martins Fontes, impossível de ver os livros expostos e impossível ser atendido para descobrir o preço real dos livros. O desconto de 50% criava presentes como “Toda Mafalda” por 50 reais, mas era claro que apenas uma seleção muito reduzida do catálogo da editora estava lá. Com bastante esforço, pesquei um “Entre os Muros da Escola” e saí meio insatisfeita. Para mim, e imagino que para muitas outras pessoas, o stande mais desejado era o da Cosac Naify, cujos livros não costumam ser compráveis em situações comum. Eu não sei se foi porque cheguei na quinta a noite, ou se a editora levou apenas uma parcela muito pequena de suas obras, mas não tinha nada. Eu perguntei pelo último lançamento da coleção “Mulheres Modernistas”, a “A Autobiografia de Alice B. Toklas”, de Gertrude Stein, não tinha, apesar de alguns títulos da coleção estarem lá. Perguntei por “Conversas com Woody Allen”, não tinha. Perguntei pela coleção Glauber Rocha, não tinha. Tudo bem, saí com “Zazie no Metrô” de Raymond Quenau e “Pais e Filhos” de Turguêniev, e “Sertão Mar” do Ismail Xavier (na falta do Glauber). Todos por metade do preço e a organização era boa, alguém para te atender, não era difícil ver os livros e um esquema hiper-organizado de pagamento. A essa altura eu já tinha muitos livros muito pesados, e um namorado com mais livros ainda e decidi que era hora de encerrar o prejuízo. O balanço final? Eu acho realmente que poderiam ter mais editoras de literatura, as únicas com força nessa área eram a 34, a Martins Fontes (daquele jeito que eu já disse), a Cosac Naify e a Iluminuras, que na verdade não tem poucos títulos, apesar de bons. Eu até entendo que uma feira em uma universidade dê preferência aos teóricos, mas a literatura é fundamental para qualquer formação. A Companhia das Letras, por exemplo, teria sido uma presença bem vida. Nem todas as editoras primam pela organização, mas os preços são realmente bons. Para mim, o que mais incomodou foi o desfalque dos catálogos e a impossibilidade de visualisa-los em standes como o da Martins Fontes e da Anna Blume. Mas no final das contas, e eu imagino que essa sensação seja comum, sair de lá com duas edições de Dostoievski traduzidas direto do russo e ilustradas com xilogravuras por 50 reais valeu qualquer porém. Muito além do texto 11/11/2009
por Lívia Furtado livia@revistaescarlate.com Todo colegial deve se lembrar de sua primeira experiência com Macunaíma. Seja por ter achado a história muito doida quando aprendeu sobre ela nas aulas de literatura, seja por ter achado o livro uma obra-prima, seja por não ter conseguido sair do primeiro capítulo - que texto mais sem pé nem cabeça! Mas, de um jeito ou de outro, é difícil passar por ele sem que ele cause impressão forte. É difícil passar por Mário de Andrade sem que ele cause uma impressão forte. As paredes brancas da Sala Martha Rossetti Batista são preenchidas por essas impressões. Ali, na mostra Paisagens Colecionadas: acervo Mário de Andrade, mergulha-se no mundo do modernismo brasileiro – mas não só nele – através do olhar do consagrado escritor. Não são textos que estão ali: são quadros. Uma coleção de quadros e outros objetos que faziam parte do acervo pessoal de Andrade e que o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP traz aos olhos do público até janeiro de 2010. Um dos principais articuladores da Semana de Arte Moderna de São Paulo (símbolo de rompimento e quebra de padrões artísticos, através principalmente do advento do modernismo, em 1922) Mário de Andrade reunia em sua vida - pessoal e profissional - diversos tipos de arte. Música, literatura, pintura. Professor de piano, poeta, romancista, crítico de arte. Apaixonado pelo folclore e cultura brasileiros. Apaixonado por São Paulo. “Não tem arte que eu não ame e não me preocupe com os problemas estéticos dela.” Palavras do próprio poeta a certa ocasião. A exposição nos mostra relances desse Mário diverso e fragmentado ao expor obras cujo tema central é “paisagens”, indo de retratos do escritor a barcos ancorados em um cais de Recife e imagens de santos gravadas em madeira. Entrar ali é mergulhar um pouco naquele mundo que os livros restringem ao nosso imaginário - as paisagens que permeiam os textos de Andrade. Quadros como Macunaíma desce por este mundo afora, de Cícero Dias, dão rosto a certas situações e personagens, pintam cenários com cores fortes, lápis de cor e nanquim. Mas poucos são assim específicos e se ligam diretamente ao legado literário do autor. O professor de “Gêneros Híbridos” do IEB e poeta Fernando Paixão aponta ser difícil e até perigoso fazer relações “mecânicas, automáticas, entre um quadro e uma obra” do escritor - ou seja, dizer que Andrade escreveu um certo conto porque possuía um determinado quadro. Mas o que se pode fazer, e justamente o que encanta na exposição, é poder buscar associações livres, elementos comuns, ligar de alguma maneira subjetiva e própria cada um os textos às outras artes - a São Paulo urbana de Paulicéia Desvairada (cuja capa, feita por Di Cavalcanti, também está exposta) com a cidade que aparece ao fundo do retrato do autor feito por Zina Aita, ou a natureza presente em Macunaíma com artefatos rústicos, místicos. Além disso, vários quadros nos revelam pequenos segredos de Mário, além da amizade que ele tinha com outros artistas. Mário de Andrade na Rede, por Lasar Segall, lembra a "lenda" da criação de Macunaíma - deitado em uma rede, teria criado o romance em apenas seis dias. Obras de George Biddle e Cândido Portinari contêm dedicatórias ao autor: em Paisagem com barco e veleiros, Portinari grava: "Para o Mário amigo." Mais gostoso ainda é ler a carta datilografada e cheia de desenhos de Cícero Dias ao amigo, na qual lhe faz elogios, cria e cita versos, e nos deixa vislumbrar uma intimidade que os livros de história muitas vezes não mostram. Mário era conhecido por suas missivas, que vieram aos olhos do público após sua morte – Manuel Bandeira, Fernando Sabino e outros publicaram coleções de cartas que contêm milhares de Mários diferentes e complementares. Há paisagens - mas não só elas - de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Lasar Segall, Ismael Nery e Cícero Dias. Todos aqueles nomes que se ouve na escola quando se estuda a Semana de 22 reunidos ali, nas paredes brancas do Espaço Martha Rossetti. O modernismo brasileiro atravessando as páginas de Mário de Andrade e sendo refletido nos quadros de seu acervo pessoal. O Mário na rede, estampado em linhas pretas em uma das paredes da Sala, parece apreciar as obras de seus contemporâneos e amigos. "Ai, que preguiça!" por Alexandre Dall'ara ![]() Para aqueles pobres mortais, como eu, que não podem folhear prazerosamente os livros da “Shakespeare&Co” (lendária livraria parisiense) ou, mais realista, gastar os créditos do seu bilhete único de estudante e/ou o tempo de uma leitura obrigatória indo até uma das belas livrarias da Av. Paulista, surge, na cidade universitária, uma promissora alternativa. O espaço desenhado pelo arquiteto Paulo Bruna se destaca em meio aos arredores uspianos e ao próprio prédio da antiga reitoria - um tanto quanto, digamos...saudoso da última pintura? -, cujo primeiro andar a livraria ocupa. Entre o estacionamento da praça dos bancos, a praça do relógio e o CTR (departamento de televisão, rádio e cinema da ECA), a nova instalação abrigará ainda um café - sem previção de inauguração. A livraria João Alexandre Barbosa, inaugurada pela Edusp no último dia 8, leva o nome do professor aposentado da FFLCH, de origem pernambucana, falecido no dia 3 de agosto de 2006, que ocupou a presidência da Edusp. O espaço foi todo reformado para abrigar a loja com um acervo de mais de oito mil e quinhentos títulos da área de humanas. Esses títulos, de acordo com uma funcionária, privilegiam publicações de docentes da universidade e editoras pequenas, sem excluir as maiores, entretanto. Edições de outras áreas, como ciências exatas, por exemplo, serão adicionados futuramente. ![]() A área externa ganhou uma nova praça, com agradáveis bancos e jardim, que servirá para exposições. Já está prevista, de acordo com o professor Plínio Martins Filho, presidente da Edusp, uma mostra sobre os “Fundadores da USP” com imagens e biografia dos professores fundadores da universidade e dos primeiros alunos formados. A livraria ocupava anteriormente o centro de vivência, junto com a farmácia, em frente à reitoria. Esse espaço, hoje fechado, também tem previsão de reforma para voltar a funcionar e agregar-se às outras quatro lojas na cidade universitária (Biomédicas, Educação, Geografia/História e Politécnica). Todas elas, porém, são de tamanho menor se comparadas à João Alexandre Barbosa e classificadas como pontos de venda pelo presidente da editora. A Edusp conta também com uma livraria no centro (no espaço Maria Antônia), com três mil títulos, e outras cinco distribuídas pelos outros campi da USP, cada uma delas com um acervo em torno de mil títulos. Através do espelho: Guimarães Rosa 07/10/2009
por Lívia Furtado Guimarães Rosa era leitor de Plotino. Essa foi apenas uma das descobertas que o estudante da Poli, Henrique Primon, fez ao frequentar pela primeira vez a roda de leitura no IEB da qual ouvira falar através de uma amiga. Ele não sabia muito bem o que esperar, e foi sem muito jeito que chegou ao saguão do Instituto, onde encontrou um aglomerado de pessoas e decidiu que devia estar no lugar certo. O acaso pode ter muita influência no curso de uma matéria. Essa foi apenas uma das descobertas que a jornalista Lívia Furtado fez ao escrever sobre a roda de leitura no IEB da qual ouvira falar através de um amigo. Entrei na história muito assim por acaso - Henrique comentou sobre as leituras comigo porque não havia visto na agenda da Escarlate. Literatura? Guimarães? Vou com você. Mas não poderia, de fato, ter sido de outro modo - não há história do autor de Sagarana que não envolva um mínimo de mítico, tendo o destino grande papel em suas obras. ![]() Tema da vez na roda. Não sabíamos muito bem o que esperar, mas logo ficamos à vontade - é impossível ficar retraído quando alguém lhe oferece doce e cachaça, lá de Minas, vamos, experimentem. É toda terça à noite, das 18 às 20 horas, que as reuniões acontecem em uma sala do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, explica Rosa Haruco Tane, a “rosiana” quem organiza as discussões. O espaço foi conseguido graças ao ex vice-diretor do IEB, Dieter Heidemann, o qual participa do grupo, mas Rosa deixa claro desde o início que “a gente não tem nenhum intuito acadêmico. É só um encontro de amigos apaixonados por Guimarães,” e que, infelizmente, não é toda semana que tem tanta comida assim não (algumas mulheres entram na sala trazendo salgados e doces, que serão devorados mais tarde). A história começou há cinco anos, como forma de manter contato entre um grupo de amigos, e continua até hoje, “faça chuva ou faça sol.” Rosa dá voz ao palestrante do dia, André Cordeiro. Simpático, o doutor em literatura, que fez sua tese baseada na comparação das obras do pintor paraense Ismael Nery com o poeta Murilo Mendes, nos traz “Narciso refletido: sobre um conto de Guimarães Rosa e um desenho de Ismael Nery”, análise de “O espelho” com base nas pinturas de Nery e na obra do filósofo Plotino. Este, neoplatônico, trata do Uno – que equivale, no cristianismo, a Deus -, relacionado ao “mundo das ideias” de Platão. “O espelho” narra, justamente, a história de um homem que um dia vê em seu reflexo um monstro e, assustado, começa a se procurar em todo espelho pelo qual passa. Ele analisa sua própria imagem e vai desfazendo suas “máscaras” uma a uma, a procura de seu verdadeiro “eu”. Até que, um dia, não vê mais nada, nem seus olhos. Mais tarde, aparece “o tênue começo de um quanto como uma luz, que se nublava” (p. 120). Como se o homem da caverna de Platão de repente visse a ideia de homem, a “homidade”, como se a personagem atingisse o Uno. As imagens de nós mesmos são tema central também das obras de Nery. Em “Croqui para o retrato da Sra. Adalgisa Nery”, a mulher do pintor se olha no espelho e vê ali a imagem do marido. Os auto-retratos de Nery, reflexos de um narcisismo exacerbado, mostram o pintor sob óticas diferentes, como máscaras distintas sob as quais ele poderia ser visto. Sentados lado a lado, todos podiam falar e cada um via nas obras algo próprio. Os quadros de Nery, por exemplo: nós vemos em nós os outros, nos vemos nos outros? A mulher vê sua relação com o marido como parte mais importante dela – teria “Croqui” um lado machista? Qual seria o pintor de fato – o anjo, o demônio, a mulher, o homem? Nenhum – ou todos? A personagem, o pintor, os homens, todos com diversas facetas e podendo ser representados de inúmeras maneiras. O mais interessante da roda é ver, justamente, as interpretações que cada participante faz das obras analisadas – começam a ser percebidas novas relações, como com Fernando Pessoa e seus diversos heterônimos. Poesia, prosa, artes plásticas. A comparação de diferentes tipos de manifestações artísticas mostra que anseios parecidos podem ser demonstrados de maneiras diferentes. O poder da arte, entretanto, é justamente fazer esse algo tão íntimo, “meu”, ressonar nos outros e comunicar-se com eles, em um processo contínuo de construção de significados. As obras não têm um sentido fixo, fechado - a cada leitor, a cada um que as vê, esse sentido se refaz, se reconstrói, se modifica. Nos modifica – ninguém sai igual depois da roda de leitura. A arte é um espelho no qual nos procuramos e acabamos perturbados com o que encontramos. O conto de Guimarães termina com uma pergunta, fica em aberto, esperando nossas próprias respostas. Perturbe-se – vale a pena. As imagens das obras de Ismael Nery foram retiradas do catálogo da exposição: Ismael Nery 100 anos: a poética de um mito. São Paulo / Rio de Janeiro, 2000. | "Mas afinal, quem era eu realmente? A essa pergunta quero responder com toda honestidade: eu era aquele que tinha muitas caras."
- Milan Kundera em "A brincadeira" Gostou?Já passou
May 2010 CategoriasAll | ||||||




























