Pra tirar da gaveta 22/02/2010
Todo mundo tem um pouco de louco - e de poeta. Quem é que nunca tentou expressar seus sentimentos colocando no papel o que sentia? Com a ascensão dos blogs, aumentaram em muito as chances de algum estranho ler aquele seu texto antes só conhecido por amigos e familiares - querida, lê pra sua vó seu poema novo! Mas para os aspirantes a escritores, poucas coisas superam a emoção de ver seu texto em alguma publicação impressa. Além de todo ritual envolvido - a espera, a notícia de que alguém gostou o suficiente do seu texto para publicá-lo, a revisão, a edição, a diagramação -, há ainda aquela sensação indescritível ao se ver um desconhecido lendo seu texto na rua. É fato que metade dos bixos de jornalismo, letras e direito, por exemplo, entram na faculdade com esse sonho - não adianta negar. Mas há também muitos talentos escondidos entre os físicos, politénicos, biólogos, psicólogos. E, há cinco anos, os alunos de Editoração decidiram fazer mudar um pouco essa realidade de textos juntando pó nas gavetas. Primeiro: sim, Editoração existe e é um curso de graduação (e várias outras coisas muito engraçadas, segundo o que os próprios alunos escrevem e publicam no manual dos bixos de edit). Segundo: os edits são raros - quinze por ano, dividem um departamento com os jornalistas lá na ECA - mas muito criativos e, graças a eles, a Originais Reprovados existe. Criada em 2005, essa revista toda diferente, pequena e cheia de desenhos aceita textos de qualquer bixo, veterano ou pós-graduando da USP. É só enviar seu trabalho e, se for escolhido pela equipe da revista, ser publicado (a OR6 ainda não tem data pra sair, mas no site da Originais você pode se inscrever para receber notificados de quando começa a seleção). Quando surgiu, ela era uma publicação própria da Com-Arte Júnior - CAJu, para os íntimos -, a empresa júnior do curso; ano passado, se transformou em um Projeto de Cultura e Extensão. Espera, extensão? Exatamente. Sabe aquela história de tripé universitário de que todo mundo parece falar nas palestras e aulas magnas e sobre a qual você, recém-chegado à USP, nunca tinha ouvido falar? Extensão é isso: devolver à sociedade algo do que nos foi possibilitado por ela. A OR passou a ser distribuída gratuitamente e a ser levada para fora do campus - passou a ter por obrigação acrescentar algo à vida das pessoas fora da USP, "já que a ideia de um projeto de cultura e extensão é devolver à sociedade o que é gasto com a universidade pública", explica a editoranda do segundo ano Nathália Dimambro, que participou da criação da OR número 5, em 2009. A ideia é incentivar a leitura e a redação dos jovens dessas escolas, além de mostrar a eles que ter seus textos publicados por alguém não é algo assim tão fora de seu alcance. Para os uspianos, o que muda de verdade é que, por não ser mais paga, a revista passou a ter um público muito maior. Bárbara Prince, coordenadora da última edição, contou que os pontos escolhidos para distribuição foram os bandejões. Como não quiseram privilegiar nenhuma unidade, membros da equipe deixavam exemplares da revista nos restaurantes e depois iam ver o resultado. "Deu super certo, os exemplares sumiam," comemora Bárbara. Sobre a mudança, a garota explica que antes, apesar da revista dar certo para a CAJu - por causa de todo aprendizado envolvido -, ela não alcançava muitos leitores e, portanto, não cumpria seu papel comunicador. Agora, as chances do seu texto ser lido por colegas da faculdade inteira são muito maiores - não há quem não fique atraído pelas capas coloridas e bonitas da Originais. Ou, no caso da primeira edição, não fique curioso pra saber o que há dentro daquele envelopezinho pardo. Arte e texto estão totalmente interligados nas páginas da Originais - não há arte isolada, afinal. Desenhos, ilustrações feitas pela equipe e a diagramação às vezes diferenciada trazem mais vida às palavras. "Setembro", do aluno de publicidade Lucas Nascimento, tem o formato das torres gêmeas - ele enviou o texto à OR já desse modo, e gostou do fato da equipe ter sido fiel aos desejos do autor. No caso de José Muniz Jr., ex-aluno que participou da equipe da primeira OR e anos depois teve um texto publicado na revista, a forma poderia ter sido trágica não fosse uma coincidência: "Tem uma história engraçada. Um dia eu tava passando lá pela sala 10 [uma das salas da Com-Arte Jr.] e vi alguém diagramando justamente o meu poema. Fiquei feliz com a coincidência e fui dar uma olhadinha. Aí eu vi que a pessoa tava fazendo um lance na diagramação que ia basicamente destruir metade do sentido do poema. Por sorte eu estava lá e indiquei o engano." É como lembrou Bárbara: a OR é uma publicação estudantil, um lugar de aprendizado e, consequentemente, erros (os jornalistas ecanos bem sabem que "todo São Remo é o pior São Remo da história", por exemplo). "A gente manda os textos revisados pros autores para eles aprovarem a revisão. Se a diagramação for mudar o sentido do texto, também fazemos isso. O problema é quando o autor não colabora e nos trata mal se tem alguma coisa errada." Mas a ideia é justamente essa: aprendizado. Ter seu texto publicado também é aprender - a lidar com editores, a controlar a ansiedade, a abrir mão de algo que até então era tão seu. Se não na Universidade, aprenderemos onde? Por isso, fique de olho: além da Originais, você pode enviar seus trabalhos também para Mostras como a Nascente, que acontece no começo do ano, ou para concursos como o Concurso de Talentos da FEA. Eles não serão publicados, mas ficarão expostos ao público. É hora de tirar os originais da gaveta e deixá-los respirar. E se depois de ler tudo isso você pensar "Mas o meu negócio mesmo é jornalismo", tá esperando o que? Envie sua pauta pra gente! * Lívia Furtado é Diretora de Projetos da Com-Arte Jr., mas nunca participou da equipe da Originais Reprovados. 2 Comments Branco à toa e arco-íris 22/09/2009
Por Lívia Furtado Nesse canto da casa bate um sol delícia a essa hora da manhã... (Fadas e copos num canto da casa - Mariana Salomão Carrara) Você chega, sem saber muito bem onde está. A fachada vitoriana rosa envelhecido, a escada larga, a varanda, o jardim incrivelmente calmo – tudo te lembra um filme de época. Você entra, se perde pelos cômodos errados (sem querer, invade a Sala de Restauro), pede informações, e de repente encontra o que estava procurando – muito mais do que imaginava estar procurando. Você foi até ali para ver uma exposição de literatura, mas encontrou fragmentos de si mesmo. Os painéis suspensos de vidro são iluminados pela luz fraca do sol, a qual se infiltra no corredor através das janelas e da porta aberta que leva ao solário da casa. Atrás dos vidros, letras. Crônicas, poemas, histórias. Reflexos de protagonistas reais em protagonistas imaginários. Os trabalhos fazem parte da 17ª Nascente – aquela mesma, cujo cartaz você via todo dia ao entrar na USP pela Portaria 1, no primeiro semestre. O concurso, realizado pela USP todo ano, reúne trabalhos artísticos de várias categorias feitos por alunos da universidade e se divide na Mostra Nascente (que abrange as apresentações de Música Popular, Erudita e as peças de Artes Cênicas) e na Visualidade Nascente (Artes Visuais, Audiovisual, Texto e Design). As exposições de cada área ocorrem em locais diferentes ligados à academia - esse ano (assim como na última edição) as de design e texto foram acolhidas pelo Centro de Preservação Cultural (CPC) da USP, mais conhecido como Casa de Dona Yayá. Quando morre o que você ama / só cabe morrer junto / pra colher o riso dos manicômios / e ver como ainda caminham / os resto, as sobras / dessa marionete insistente (O Eu-Cão que aprumo - Ivan Martucce Fornerón) Placas distribuídas pela propriedade contam um pouco de sua história. Dona Yayá era Sebastiana de Mello Freire. De família rica, única herdeira de propriedades, foi diagnosticada como doente mental aos 32 anos, em 1919, e levada para a casa da Rua Major Diogo (desce na Brigadeiro, no ponto logo depois de cruzar a Major, informa gentilmente uma senhora no ponto de ônibus), à época uma chácara afastada da cidade. A atual sede do CPC sofreu pelo menos três reformas desde que foi construída no século XIX - originalmente, um chalé de tijolos -, e atualmente passa por restaurações. Os azulejos do rodapé e as pinturas murais; os cantos arredondados das paredes; o piso não mais de madeira - elementos de uma narrativa que se constrói escondida por detrás dos murais e das obras. A história, que remete a clausura e políticas de "saneamento", ganha um pouco de leveza com o grande jardim e com o solário, construído em 1950. Esta cidade / diagonal / me atravessa o tempo / como um piano que se fingisse manco / eu me rendo, querida, / entre a necessidade / suas imagens / latendo sob outras paisagens / e o tédio e o tédio e coisas que acaso / brilham / nos desvãos a espera de mais dias / mesmos / na contraluz olhares trocados / a esmo e explode como em fruta açúcares e álacres prenúncios de morte em meio ao trânsito (laetitia, SP - Gabriel Pedrosa Pedro) Nos terrenos de trás, casas mais modernas. Rap que sai pelas janelas. Carros buzinando nas ruas. Presa no tempo, a antiga residência de Yayá convive com elementos do presente, numa mistura vezes conflituosa, vezes pacífica do antigo e do novo. A queda original não passou de um pretexto, a primeira grande cilada em que Deus meteu o homem p'ra eximir-se da culpa de ter criado também o mal - a necessidade de comer o outro. (A Condessa de Picaçurova - Júlio Cesar Pereira) Dentro da casa, passado e presente também se misturam. Desde agosto, ela abriga projetos de identidade visual, modelagens e histórias em quadrinho: a sala, o Quarto Verde e o Quarto Rosa dão espaço para os trabalhos de design. No corredor que une os quartos por fora, fica a literatura. Placas de vidro recobrem os fragmentos textuais pendurados ao teto por finas cordas de metal. São 9, ao todo, as obras de texto - escolhidas por uma comissão de especialistas dentre os 97 trabalhos inscritos, informa Sandra Lara, diretora técnica de ação cultural da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão. Percebem-se nelas temas correlacionados: vida, morte, tempo, relacionamentos. Seja em forma de poesia, crônica ou ficção, são todas “respostas humanas diante do caos”. Segundo a jornalista Cremilda Medina, as narrativas são uma forma encontrada pelo homem de transformar o caos em que vive em um cosmos. Os fragmentos expostos exemplificam esse conceito apresentado no livro “A Arte de Tecer o Presente,” pois tentam organizar questões desse universo confuso. Santos rebate: “Se alguém rasgou algo, foi Safo que rasgou-se.” (Os Telégrafos - Eraldo Souza dos Santos) As palavras vão tentando colocar em ordem uma confusão interna, é o que parece. A sensação, ao ler algumas das obras, é de que se está invadindo um universo muito particular, espectador curioso e não convidado. Mas os problemas são também nossos: refletem-se ali, naquela obra tão particular do artista, as inquietações de cada indivíduo do público. É o casal e a família, as reflexões aleatórias, a dor da perda, a humanidade, o tédio, o tempo. a palavra está gasta todos os sentidos dizem / somos os homens ocos na terra desolada (Sem título - Josoaldo Lima Rego) Numa primeira leitura, feita em silêncio, muito do que ali está parece sem sentido. Parte porque não são as obras completas (na estréia da exposição, houve um sarau no qual os autores discutiram seus textos, mas agora encontramos apenas os fragmentos). Parte vem do fato de que tudo parece abstrato demais. Entretanto, uma leitura (ou releitura) mais atenciosa, mais humana, leva à compreensão. Uma compreensão própria, subjetiva e um tanto quanto reveladora. A iluminação começa a revelar vários buracos no teto. (Zurique - Roberta Carbone) Talvez as pessoas visitando a Mostra achassem estranho ver uma mulher parada à frente dos painéis lendo em voz alta, com emoção na voz, as narrativas. Como nos dois dias de visita não havia ninguém, exceto os funcionários do lugar, não foi preciso se preocupar com isso. A voz encontrou apenas o silêncio – entrecortado pelos jatos de água com que Dona Delza, faxineira, limpava o chão de pedra do solário. Aparentemente, sexta-feira é dia de faxina. Uma conversa com o guarda Francisco Batista Rocha revelou que a maioria das visitas ocorre no fim de semana. “Trabalho aqui há 10 anos. A maioria é estudante ou professor, e vem nos domingos, porque de sábado aqui fica fechado.” Está explicado. Além disso, é provável que a maioria das pessoas tenha ido nos primeiros dias – a exposição acaba já agora no dia 23, quarta feira. Os presságios estão onde as pessoas se lavam. (...) Escuta a respiração da manhã nascendo, mais um dia que nasce, com ele a antiga ciência de virar a página do calendário.(Wonderland - Tadeu de Melo Sarmento) No domingo, vozes. Estão visitando a mostra? “Não, a gente está ensaiando.” Teatro? “Somos do grupo História do Brasil em Cena, estamos apresentando o ‘Olhares sobre Dona Yayá’. Nossa, se você tivesse chegado meia hora antes, tinha um grupo de umas dez pessoas por aqui visitando.” É uma pena, mas no fundo a solidão faz bem. Às vezes a nossa subjetividade precisa de um pouco de paz. Na imaginação, um grupo de pessoas lendo em voz alta seu próprio caos organizado. Desgraçada seja a literatura, que não salva ninguém. (Bela literatura de província - Tiago Guilherme Pinheiro) ___________________________________________________________ Perdeu a exposição? Veja aqui fotos e todos os textos expostos na Nascente. Na próxima terça, 29, ocorre a premiação da 17ª Nascente. Confira mais informações aqui. A peça “Olhares sobre Dona Yayá” é apresentada na Casa todo último final de semana do mês, até outubro. As próximas apresentações serão no dia 26 (às 15 horas) e 27 de setembro (às 11 horas). A entrada é franca. | "Mas afinal, quem era eu realmente? A essa pergunta quero responder com toda honestidade: eu era aquele que tinha muitas caras."
- Milan Kundera em "A brincadeira" Gostou?Já passou
May 2010 CategoriasAll |





