Aos bibliomaníacos, EACH 21/04/2010
A feira de livros da FFLCH todo mundo já conhece. Mas e pra quem faz Marketing, Turismo e Lazer, ou algum outro curso na Escola de Artes e Ciências Humanas? Para que os alunos da conhecida USP Leste tenham acesso à mesma quantidade de livros com desconto que os que estudam na Cidade Universitária, aconteceu na semana passada a Feira de Livros da EACH. Pra quem não estuda por lá, nem mora por onde passa a linha Safira do trem, é meio complicado chegar – mas não impossível. Linha vermelha do metrô, estação Tatuapé ou Brás: basta pegar o trem Brás-Calmon Viana, sentido Calmon Viana, e descer na estação USP Leste. Não tem erro: só há duas saídas, uma para uma avenida e outra para o campus. Quando há Feira, é ainda mais fácil: basta fazer o caminho inverso ao das pessoas que saem com sacolas e mais sacolas de livros nas mãos. É uma aventura – o trem balança, a disposição dos lugares é diferente, as casas à beira da linha passam como que vizinhas aos vagões – mas vale a pena: dois prédios grandes abrigam as dezenas de editoras que oferecem publicações com descontos a partir de 50%. Não há muita gente comprando; mesmo os estandes mais badalados, como da Editora 34, Cosac Naify e Martins Fontes estão com pouca gente: é possível ver livro a livro, pegar nas mãos, sentir o papel, ler alguns trechos. Números que normalmente custam bem caro estão a preços acessíveis – as biografias de Clarice escritas por Nádia Battella são vendidas por, em média, 30 a 45 reais no estande da Edusp. A Editora Globo oferece uma coleção de Machado de Assis por 38 reais, ou os livros do cozinheiro Jamie Oliver por, em média, 35. Na Cosac, publicações sobre arte são o grande diferencial: design, cinema, literatura, acompanhados de acabamentos muito bem feitos. Há quem seja viciado em sapatos, roupas, comidas. Para os viciados em livros, a feira da EACH é um verdadeiro paraíso. Enquanto ela não volta, esperamos a feira da FFLCH para melhorar nossa crise de abstinência. Add Comment A hora de Clarice 21/04/2010
Clarice está em todo lugar. Nos corredores, no mural da vivência, na porta de vidro do prédio principal da ECA. Os olhos misteriosos, tão característicos, ou só o nome – que basta em si. Clarice. Os cartazes promovem eventos diferentes: um, palestra sobre sua biografia; outro, discussão de sua obra. No mesmo dia, (quase) no mesmo horário. Mas vida de repórter é mesmo assim e o jeito é se desdobrar. A noite começa às cinco da tarde na Casa de Cultura Japonesa. Um estande da Edusp vende livros sobre a escritora (que também podiam ser encontrados na feira de livros da EACH). Os mesmos olhos dos cartazes estão ali estampados, encarando a tudo como se de tudo soubessem. São o tema da noite. Quem fala para o auditório lotado – na falta de cadeiras vazias, o chão do corredor vira assento para os que vão chegando – é Nádia Battela Gotlib, a biógrafa brasileira de Clarice Lispector. Ela veio falar sobre a 6ª edição da biografia de Clarice que escreveu e da fotobiografia lançada em 2009, e com um sorriso no rosto começa a contar sua história. Formada em letras pela UnB, fez mestrado e doutorado na USP, em literatura brasileira e portuguesa, respectivamente. Em 1979, começou a dar na pós-graduação o único curso específico sobre Clarice na Universidade. Foi ali, diz, que surgiu o que seria Clarice -uma vida que se conta. O livro, sua tese de livre-docência, nasceu das conversas com os alunos. Do entusiasmo e das inquietações geradas por aquela “coisa” que Clarice queria dizer e que Nádia busca em seus trabalhos. Na tentativa de esclarecer como a escritora conquistava seus leitores antes mesmo que eles percebessem, Nádia foi fisgada: “O mal estava feito.” Ler Clarice não é fácil, e tudo começa aí. Não se pode olhar a obra procurando nada de antemão – ela trabalha sempre no território da intimidade, e há de se entregar por completo às palavras, sem racionalizar. E, de repente, no meio das histórias, começa-se a vislumbrar Clarice. Ela, que inventava dados e fatos e não falava muito sobre o passado, se ficcionaliza e torna-se personagem. O trabalho da biógrafa consistiu em unir crítica literária com dados biográficos – depoimentos, cartas, bilhetes, anotações -, para contextualizar obras e escritora. “É um ato delicado, delimitar quando um fato biográfico ilumina ou não a obra”, confessa. Clarice: fotobiografia traz em suas páginas centenas de imagens que contam muito. “O que eu quis em cada página foi construir situações de vida e de literatura.” Vemos Nápoles e os militares, e entendemos porque não há crônicas dessa época. Vemos Berna, o “cemitério de sensações” e sentimos o sufocar da paisagem. Clarice esposa – olhares tortos, foto rasgada. Clarice sorrindo com Mafalda Veríssimo, sua grande amiga. Clarice jornalista, uma das pioneiras na profissão. Clarice mãe. Clarice filha. Clarice mulher. E é a Clarice mulher, assim como a mulher em Clarice, que está sendo discutida em frente à vivência da ECA em uma roda de estudantes. O Núcleo de Gêneros do CALC (Centro Acadêmico Lupe Cotrim), que se reúne quinzenalmente, às quartas-feiras, usa "Amor" como gancho para discutir as relações de gênero na sociedade. No conto, Ana, personagem que vive para sua funcionalidade, se desconcerta e entra em choque ao ver um cego mascando chicletes. O olho do cego não tem função – ele não a vê. Quem é ela se não é algo para alguém? No Jardim Botânico, onde vai para refletir, ela tem medo da natureza, da liberdade, da “coisa”. Volta para casa e seu marido a engloba novamente no mundo tranqüilo do lar. A discussão passa pela história da mulher, pela evolução de seu “papel social” e de suas oportunidades. Talvez Ana não tivesse escolhido aquela vida, como pensa – apenas não tinha para onde ir, e, quando descobre que pode mudar, se assusta. A liberdade assusta. A vida da própria Clarice entra na roda: quando casada, se identificava com Ana, mas, diferente desta, largou tudo e enfrentou preconceitos para seguir sua carreira, sem nunca deixar de lado seu papel de mãe ou mulher. E assim a via dupla de Nádia aparece ali, e aquelas inquietações. Clarice está em todo lugar. Saiba mais sobre o Núcleo de Gêneros do CALC: Embora o foco do núcleo não seja a literatura, ela ainda será usada em outros encontros, nos quais algo de Caio Fernando Abreu deve aparecer. O próximo acontece no dia 28 e fechará a questão da mulher, iniciando uma discussão mais ampla, sobre o movimento GLBTS. Começa às 18h e termina por volta das 19h30. Todas as imagens foram retiradas do livro Clarice: fotobiografia. Leia mais:As (inquietantes e autobiográficas) crônicas de Clarice Lispector, trabalho escrito pela autora desta matéria em 2009.
Poetisa quem? Meu ser é poeta 24/03/2010
“Lupe Cotrim? Ah, ela era... alguém ligada à ECA. Não era?” Centro Acadêmico Lupe Cotrim. No primeiro dia da semana de recepção, os bixos da ECA conhecem todas as entidades da Escola – e é com estranheza que ouvem o nome do seu centro acadêmico. Nome de auditório, como tantos outros espalhados. Professora, aluna, funcionária, atriz, cantora, quem foi Lupe ninguém sabe e o nome vai passando de boca em boca, de ano em ano, perdendo seu significado. Pra quem viveu a ECA no final da década de 60, quando foi formada a Escola de Comunicações e Artes, é difícil entender essa situação. Como não saber quem era aquela mulher diferente, vinda da Faculdade de Filosofia, jovem, corajosa... poeta? “Os alunos queriam que todos os professores fossem como ela.” Quem conta e rememora são antigos colegas, alunos, marido - a fala é de Eduardo Peñuela Canizal, que trabalhou com ela na ECA. Todos se reúnem para prestigiar obra e vida da poeta em seminários organizados pela pesquisadora Leila Gouvêa – ela mesma antiga aluna de Lupe. O motivo é a abertura no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB USP) da exposição Ser Poeta - Lupe Cotrim, 40 anos depois, que, junto aos debates e conversas, serve para que se possa adentrar nessa história tão importante da literatura brasileira. Dizer que é importante talvez não signifique muita coisa. Mas veja: quem nunca ouviu falar de Hilda Hilst? Hilda, Renata Pallottini e Lupe Cotrim eram os três nomes mais promissores da cena literária brasileira nas décadas de 60 e 70. O que aconteceu para que a história de uma delas se perdesse no meio do caminho? Talvez não haja uma explicação única, mas a morte da escritora aos 36 anos, em 1970, foi um fator decisivo – ela faleceu de câncer em seu auge poético, e como reconta seu marido José Arthur Giannotti, “para nós era muito duro recordar sobre a Lupe.” “Quando não se conhece a vida da pessoa, se apressa o esquecimento da obra,” comenta o escritor Fábio Lucas, um dos participantes do seminário Uma intelectual na travessia dos anos 60. Para resgatar essa obra que não pode ser esquecida, Leila Gouvêa, jornalista formada na ECA e bolsista da FAPESP, decidiu fazer em seu pós-doutorado uma biografia da poeta. Mas os dados básicos – Maria José Cotrim Garaude Giannotti, nasceu em 16 de março, paulistana, morou em Araçatuba, pais se separaram, morou no Rio, teve dois filhos, foi professora – não satisfazem. Leila frisa que seu trabalho é uma biografia literária: parte da obra para a vida. Além disso, inúmeros depoimentos enriquecem e vão dando luz aos contornos meio borrados da Lupe pessoa, indissociável da Lupe poeta. Ajudou Leila a família de Lupe ter doado ao IEB, à época, um acervo pessoal de cartas, cartões, rascunhos, fotos, mais de mil recordações da escritora. Assim, num trabalho interdisciplinar que misturou arquivologia com pesquisa literária e biográfica, ela organizou a atual exposição, que conta com mais ou menos cem objetos. O livro, Estrela breve: uma biografia da poeta Lupe Cotrim, deve ser lançado ainda no segundo semestre desse ano. Para enriquecer a exposição, Leila organizou seminários com poetas modernos, críticos, amigos, familiares. A idéia era “incentivar a renovação da fortuna crítica à obra de Lupe,” explica. Além disso, lembrar-se da poeta mulher, descobri-la novamente. Ex-alunos, como o professor Ismail Xavier, recordaram a Lupe professora, jovem, engajada, consciente de sua época, dos problemas político-sociais do país. Contemporânea. Leila conta que, na greve dos estudantes de 68 pela reformulação do currículo – a ECA foi criada em 67 e se dizia que os currículos haviam sido feitos às pressas e de qualquer jeito -, foi Lupe quem convenceu os estudantes a desocuparem um dos barracões nos quais aconteceria o Congresso Internacional de Novas Mídias (ao qual compareceram, por exemplo, Glauber Rocha e Roberto Rossellini). Mais tarde, Fábio Lucas analisa alguns poemas de “Cânticos da Terra”, enquanto Telê Ancona Lopez fala da obra em geral. Ana Maria Fadul recorda os três momentos em que conheceu Lupe – o primeiro deles na Faculdade de Filosofia da Maria Antônia. “Éramos todos recém saídos do ensino médio, novos. De repente, entra na sala de aula aquela mulher já feita, bem vestida, elegante. Ficamos sabendo que era famosa,” conta. “Era corajosa e não aceitava desaforo – uma vez um professor deu nota baixa em um trabalho pra todo mundo, e a dela foi a mais alta: 3,5. ‘Como você faz isso, isso vai pro meu currículo, você vai ferrar com seus alunos’. O professor era o Giannotti – eles se casaram no final do ano.” Esses tantos prismas tecem uma histórica rica, uma tela colorida: independência, feminismo, insegurança, ciúme, vitalidade, contradições. Rasgava cartas que o marido recebia, viajava sozinha. Recebia prêmios, às vezes não se achava tudo isso. Lutava pela vida com unhas e dentes, mas tratava da morte obsessivamente em seus textos. Trocava cartas com Carlos Drummond, era amiga de Lygia Fagundes Telles, fez uma ponta no primeiro curta-metragem de Eduardo Leone, sabia que seria escritora desde os 12 anos. Ela não viveu para ver seu último livro – Poemas ao outro (1970) – receber o maior prêmio de poesia da época, “Governador do Estado”, além de outros dois. Não viu ser publicada Obra Consentida (1973), a antologia que ela havia preparado antes de morrer, com alguns poemas retrabalhados de seus 5 primeiros livros e os 2 últimos na íntegra, nem a antologia preparada por seu filho, Marco Giannotti, em 1984. Mas continua surpreendendo e encantando com alguns textos inéditos, e mesmo com os antigos – as releituras constroem novos sentidos e a obra faz-se eterna. Surpreende com as cartas, os retratos, a força, a leveza, a seriedade. Poesia viva em sorriso - sempre coordenado com o olhar, completa o professor Eduardo. | "Mas afinal, quem era eu realmente? A essa pergunta quero responder com toda honestidade: eu era aquele que tinha muitas caras."
- Milan Kundera em "A brincadeira" Gostou?Já passou
May 2010 CategoriasAll | ||||||








