Muito além do texto 11/11/2009
por Lívia Furtado livia@revistaescarlate.com Todo colegial deve se lembrar de sua primeira experiência com Macunaíma. Seja por ter achado a história muito doida quando aprendeu sobre ela nas aulas de literatura, seja por ter achado o livro uma obra-prima, seja por não ter conseguido sair do primeiro capítulo - que texto mais sem pé nem cabeça! Mas, de um jeito ou de outro, é difícil passar por ele sem que ele cause impressão forte. É difícil passar por Mário de Andrade sem que ele cause uma impressão forte. As paredes brancas da Sala Martha Rossetti Batista são preenchidas por essas impressões. Ali, na mostra Paisagens Colecionadas: acervo Mário de Andrade, mergulha-se no mundo do modernismo brasileiro – mas não só nele – através do olhar do consagrado escritor. Não são textos que estão ali: são quadros. Uma coleção de quadros e outros objetos que faziam parte do acervo pessoal de Andrade e que o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP traz aos olhos do público até janeiro de 2010. Um dos principais articuladores da Semana de Arte Moderna de São Paulo (símbolo de rompimento e quebra de padrões artísticos, através principalmente do advento do modernismo, em 1922) Mário de Andrade reunia em sua vida - pessoal e profissional - diversos tipos de arte. Música, literatura, pintura. Professor de piano, poeta, romancista, crítico de arte. Apaixonado pelo folclore e cultura brasileiros. Apaixonado por São Paulo. “Não tem arte que eu não ame e não me preocupe com os problemas estéticos dela.” Palavras do próprio poeta a certa ocasião. A exposição nos mostra relances desse Mário diverso e fragmentado ao expor obras cujo tema central é “paisagens”, indo de retratos do escritor a barcos ancorados em um cais de Recife e imagens de santos gravadas em madeira. Entrar ali é mergulhar um pouco naquele mundo que os livros restringem ao nosso imaginário - as paisagens que permeiam os textos de Andrade. Quadros como Macunaíma desce por este mundo afora, de Cícero Dias, dão rosto a certas situações e personagens, pintam cenários com cores fortes, lápis de cor e nanquim. Mas poucos são assim específicos e se ligam diretamente ao legado literário do autor. O professor de “Gêneros Híbridos” do IEB e poeta Fernando Paixão aponta ser difícil e até perigoso fazer relações “mecânicas, automáticas, entre um quadro e uma obra” do escritor - ou seja, dizer que Andrade escreveu um certo conto porque possuía um determinado quadro. Mas o que se pode fazer, e justamente o que encanta na exposição, é poder buscar associações livres, elementos comuns, ligar de alguma maneira subjetiva e própria cada um os textos às outras artes - a São Paulo urbana de Paulicéia Desvairada (cuja capa, feita por Di Cavalcanti, também está exposta) com a cidade que aparece ao fundo do retrato do autor feito por Zina Aita, ou a natureza presente em Macunaíma com artefatos rústicos, místicos. Além disso, vários quadros nos revelam pequenos segredos de Mário, além da amizade que ele tinha com outros artistas. Mário de Andrade na Rede, por Lasar Segall, lembra a "lenda" da criação de Macunaíma - deitado em uma rede, teria criado o romance em apenas seis dias. Obras de George Biddle e Cândido Portinari contêm dedicatórias ao autor: em Paisagem com barco e veleiros, Portinari grava: "Para o Mário amigo." Mais gostoso ainda é ler a carta datilografada e cheia de desenhos de Cícero Dias ao amigo, na qual lhe faz elogios, cria e cita versos, e nos deixa vislumbrar uma intimidade que os livros de história muitas vezes não mostram. Mário era conhecido por suas missivas, que vieram aos olhos do público após sua morte – Manuel Bandeira, Fernando Sabino e outros publicaram coleções de cartas que contêm milhares de Mários diferentes e complementares. Há paisagens - mas não só elas - de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Lasar Segall, Ismael Nery e Cícero Dias. Todos aqueles nomes que se ouve na escola quando se estuda a Semana de 22 reunidos ali, nas paredes brancas do Espaço Martha Rossetti. O modernismo brasileiro atravessando as páginas de Mário de Andrade e sendo refletido nos quadros de seu acervo pessoal. O Mário na rede, estampado em linhas pretas em uma das paredes da Sala, parece apreciar as obras de seus contemporâneos e amigos. "Ai, que preguiça!" Add Comment Através do espelho: Guimarães Rosa 07/10/2009
por Lívia Furtado Guimarães Rosa era leitor de Plotino. Essa foi apenas uma das descobertas que o estudante da Poli, Henrique Primon, fez ao frequentar pela primeira vez a roda de leitura no IEB da qual ouvira falar através de uma amiga. Ele não sabia muito bem o que esperar, e foi sem muito jeito que chegou ao saguão do Instituto, onde encontrou um aglomerado de pessoas e decidiu que devia estar no lugar certo. O acaso pode ter muita influência no curso de uma matéria. Essa foi apenas uma das descobertas que a jornalista Lívia Furtado fez ao escrever sobre a roda de leitura no IEB da qual ouvira falar através de um amigo. Entrei na história muito assim por acaso - Henrique comentou sobre as leituras comigo porque não havia visto na agenda da Escarlate. Literatura? Guimarães? Vou com você. Mas não poderia, de fato, ter sido de outro modo - não há história do autor de Sagarana que não envolva um mínimo de mítico, tendo o destino grande papel em suas obras. ![]() Tema da vez na roda. Não sabíamos muito bem o que esperar, mas logo ficamos à vontade - é impossível ficar retraído quando alguém lhe oferece doce e cachaça, lá de Minas, vamos, experimentem. É toda terça à noite, das 18 às 20 horas, que as reuniões acontecem em uma sala do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, explica Rosa Haruco Tane, a “rosiana” quem organiza as discussões. O espaço foi conseguido graças ao ex vice-diretor do IEB, Dieter Heidemann, o qual participa do grupo, mas Rosa deixa claro desde o início que “a gente não tem nenhum intuito acadêmico. É só um encontro de amigos apaixonados por Guimarães,” e que, infelizmente, não é toda semana que tem tanta comida assim não (algumas mulheres entram na sala trazendo salgados e doces, que serão devorados mais tarde). A história começou há cinco anos, como forma de manter contato entre um grupo de amigos, e continua até hoje, “faça chuva ou faça sol.” Rosa dá voz ao palestrante do dia, André Cordeiro. Simpático, o doutor em literatura, que fez sua tese baseada na comparação das obras do pintor paraense Ismael Nery com o poeta Murilo Mendes, nos traz “Narciso refletido: sobre um conto de Guimarães Rosa e um desenho de Ismael Nery”, análise de “O espelho” com base nas pinturas de Nery e na obra do filósofo Plotino. Este, neoplatônico, trata do Uno – que equivale, no cristianismo, a Deus -, relacionado ao “mundo das ideias” de Platão. “O espelho” narra, justamente, a história de um homem que um dia vê em seu reflexo um monstro e, assustado, começa a se procurar em todo espelho pelo qual passa. Ele analisa sua própria imagem e vai desfazendo suas “máscaras” uma a uma, a procura de seu verdadeiro “eu”. Até que, um dia, não vê mais nada, nem seus olhos. Mais tarde, aparece “o tênue começo de um quanto como uma luz, que se nublava” (p. 120). Como se o homem da caverna de Platão de repente visse a ideia de homem, a “homidade”, como se a personagem atingisse o Uno. As imagens de nós mesmos são tema central também das obras de Nery. Em “Croqui para o retrato da Sra. Adalgisa Nery”, a mulher do pintor se olha no espelho e vê ali a imagem do marido. Os auto-retratos de Nery, reflexos de um narcisismo exacerbado, mostram o pintor sob óticas diferentes, como máscaras distintas sob as quais ele poderia ser visto. Sentados lado a lado, todos podiam falar e cada um via nas obras algo próprio. Os quadros de Nery, por exemplo: nós vemos em nós os outros, nos vemos nos outros? A mulher vê sua relação com o marido como parte mais importante dela – teria “Croqui” um lado machista? Qual seria o pintor de fato – o anjo, o demônio, a mulher, o homem? Nenhum – ou todos? A personagem, o pintor, os homens, todos com diversas facetas e podendo ser representados de inúmeras maneiras. O mais interessante da roda é ver, justamente, as interpretações que cada participante faz das obras analisadas – começam a ser percebidas novas relações, como com Fernando Pessoa e seus diversos heterônimos. Poesia, prosa, artes plásticas. A comparação de diferentes tipos de manifestações artísticas mostra que anseios parecidos podem ser demonstrados de maneiras diferentes. O poder da arte, entretanto, é justamente fazer esse algo tão íntimo, “meu”, ressonar nos outros e comunicar-se com eles, em um processo contínuo de construção de significados. As obras não têm um sentido fixo, fechado - a cada leitor, a cada um que as vê, esse sentido se refaz, se reconstrói, se modifica. Nos modifica – ninguém sai igual depois da roda de leitura. A arte é um espelho no qual nos procuramos e acabamos perturbados com o que encontramos. O conto de Guimarães termina com uma pergunta, fica em aberto, esperando nossas próprias respostas. Perturbe-se – vale a pena. As imagens das obras de Ismael Nery foram retiradas do catálogo da exposição: Ismael Nery 100 anos: a poética de um mito. São Paulo / Rio de Janeiro, 2000. | "Mas afinal, quem era eu realmente? A essa pergunta quero responder com toda honestidade: eu era aquele que tinha muitas caras."
- Milan Kundera em "A brincadeira" Gostou?Já passou
May 2010 CategoriasAll |









