por Isadora Sinay A tradicional feira (ou festa) de livros da FFLCH acontece todo ano, normalmente no mês de novembro. Estudantes da USP - mas não só eles - esperam o ano todo, ansiosamente, a chance de poder comprar todos aqueles títulos desejados por metade do preço - literalmente. Adultos, adolescentes, crianças, todos lotam os corredores e rampas do prédio de história e geografia. A estudante de cinema da FAAP Isadora Sinay conta sua experiência durante o segundo dia do evento. Às 7 da noite da última quinta-feira (29), depois de mais de uma hora de viagem em um ônibus abafado e cheio, eu cheguei na festa do livro perseguida por uma chuva irritante (a responsável por me deixar uma hora no tal ônibus) e com um mau-humor considerável. Então eu vi a multidão. Parecia que eu não tinha saído do ônibus e pensei “não vai dar, vou embora”, mas eu não podia deixar de pensar “livros com desconto, livros com desconto, livros com desconto” então respirei fundo e fui. A primeira parada foi a Editora 34, reconhecível tanto pelo cartaz quanto pelo amontoado de pessoas. Chegar de fato ao balcão não parecia viável, mas com alguma cara-de-pau e sorte por não ser muito alta eu consegui sutilmente passar na frente de algumas pessoas e alcançar os livros. Estavam todos lá, tudo que você poderia esperar da 34, aquelas edições enormes e ilustradas com xilogravuras de Dostoievski (traduzidas direto do russo!), outros russos como Tostoi e Lekov (sempre traduzidos direto do russo) e as edições de luxo de alguns outros clássicos como “A Divina Comédia”, que eu confesso não ter dado atenção. Tudo que eu queria era Dostoievski, e eles estavam todos lá, todos os livros do autor que eu poderia lembrar de cabeça, desde a edição dupla de “Os irmão Karamazov” até textos desconhecidos como “Gente Pobre”. E sim, os preços estavam todos com 50% de desconto e havia etiquetas nos livros. Agarrei um exemplar de “Os Demônios”, outro de “O Jogador” e fui enfrentar a longa fila de pagamento. Foi longa, mas foi organizada. Ponto para a 34, que tinha o catálogo quase completo, preços realmente reduzidos e organização, se você tivesse paciência. A partir daí eu saí em peregrinação, levando um Sade e uma edição bilingue de poemas da Emily Dickinson na Iluminuras, um Adorno na publifolha. Foi tudo organizado, mas os livros estavam com o preço sem o desconto (também de 50%), o que não causava problemas porque ambas estavam relativamente vazias, mas não iria funcionar se tivesse mais público. E foi o que aconteceu na Martins Fontes, impossível de ver os livros expostos e impossível ser atendido para descobrir o preço real dos livros. O desconto de 50% criava presentes como “Toda Mafalda” por 50 reais, mas era claro que apenas uma seleção muito reduzida do catálogo da editora estava lá. Com bastante esforço, pesquei um “Entre os Muros da Escola” e saí meio insatisfeita. Para mim, e imagino que para muitas outras pessoas, o stande mais desejado era o da Cosac Naify, cujos livros não costumam ser compráveis em situações comum. Eu não sei se foi porque cheguei na quinta a noite, ou se a editora levou apenas uma parcela muito pequena de suas obras, mas não tinha nada. Eu perguntei pelo último lançamento da coleção “Mulheres Modernistas”, a “A Autobiografia de Alice B. Toklas”, de Gertrude Stein, não tinha, apesar de alguns títulos da coleção estarem lá. Perguntei por “Conversas com Woody Allen”, não tinha. Perguntei pela coleção Glauber Rocha, não tinha. Tudo bem, saí com “Zazie no Metrô” de Raymond Quenau e “Pais e Filhos” de Turguêniev, e “Sertão Mar” do Ismail Xavier (na falta do Glauber). Todos por metade do preço e a organização era boa, alguém para te atender, não era difícil ver os livros e um esquema hiper-organizado de pagamento. A essa altura eu já tinha muitos livros muito pesados, e um namorado com mais livros ainda e decidi que era hora de encerrar o prejuízo. O balanço final? Eu acho realmente que poderiam ter mais editoras de literatura, as únicas com força nessa área eram a 34, a Martins Fontes (daquele jeito que eu já disse), a Cosac Naify e a Iluminuras, que na verdade não tem poucos títulos, apesar de bons. Eu até entendo que uma feira em uma universidade dê preferência aos teóricos, mas a literatura é fundamental para qualquer formação. A Companhia das Letras, por exemplo, teria sido uma presença bem vida. Nem todas as editoras primam pela organização, mas os preços são realmente bons. Para mim, o que mais incomodou foi o desfalque dos catálogos e a impossibilidade de visualisa-los em standes como o da Martins Fontes e da Anna Blume. Mas no final das contas, e eu imagino que essa sensação seja comum, sair de lá com duas edições de Dostoievski traduzidas direto do russo e ilustradas com xilogravuras por 50 reais valeu qualquer porém. Commentsgiba. 23/02/2010 7:36pm
Lendo e comentando algum tempo depois de publicado, mas estou aqui.
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Leave a Reply | "Mas afinal, quem era eu realmente? A essa pergunta quero responder com toda honestidade: eu era aquele que tinha muitas caras."
- Milan Kundera em "A brincadeira" Gostou?Já passou
May 2010 CategoriasAll |


