Livros, filmes & borboletas pretas 05/05/2010
Seu livro preferido vai virar filme. As personagens, os cenários, as vozes, tudo tomará forma e você espera que seja do jeito que você imagina. Muitas vezes, isso não acontece, o que não é necessariamente ruim. Assim como pode acontecer e, exatamente por isso, pecar. “Taxativo” é uma palavra que não combina com arte. Quando gostamos demais de uma obra, é normal que se faça uma comparação “plana” entre o original canônico e a adaptação. É melhor, é pior, um “estragou” o outro. Não gostamos porque muitas cenas foram cortadas, adaptadas, as personagens não são como imaginávamos fisicamente. Mas o que é que Machado tem a ver com tudo isso? A história começa mesmo com um cartaz no ponto de ônibus. Festival de Cinema. Curioso. Alguns dias depois, pessoas se reúnem na porta da sala 266 da faculdade de Letras. As chaves chegam junto com a professora responsável pelo evento, Aparecida de Fátima Bueno, e os mais ou menos 15 presentes entram. Mirella Soares, aluna do 3º ano de Letras, conta que hoje vieram mais pessoas que o costume - a debatedora convidada, Cilaine Alves Cunha, atraiu parte do público. A professora dá aulas na faculdade e é especialista em Machado de Assis. O filme do dia é Memórias Póstumas (2001), de André Klotzel. A obra faz parte do projeto de cultura e extensão Literatura, Cinema e Cultura nos países de língua portuguesa, do qual Mirella é monitora. Nascido de discussões dentro de um grupo de pesquisa sobre literatura e cinema, tomou a forma de um festival. São passadas adaptações fílmicas de obras de Machado de Assis e Eça de Queirós, e o objetivo é fomentar o debate sobre as adaptações para tentar fugir daquele equívoco da comparação chapada. ![]() Último filme será em 23/6 É preciso ver o filme originado de livro como outra obra. Não só a linguagem, mas também a concepção do trabalho é diferente. A quem é destinado, em que contexto histórico e social é produzido. São pessoas diferentes em épocas diferentes com intenções enunciativas diferentes. O autor muda, e a autoria é o que dá força à obra. A jornalista Mariana Duccini, cujo doutorado em curso na ECA trata da autoria no cinema documentário, comenta: “O filme não vai ser igual o livro, e é bom que ele não seja. Isso quer dizer que há espaço para que o autor crie, deixe sua marca. Se fosse para copiar o que já existe, não precisava ser feito.” Ela cita como exemplo Robinson Crusoé, de Luis Buñuel: parece claro que a motivação não era ser fiel ao livro, mas sim partir dele para algo mais. Desse modo, a adaptação tem que ser vista sem preconceitos, de olhos abertos. ![]() Buñuel cria história mais 'latina' O sentido da arte é sempre reconstruído. No debate pós-exibição, percebe-se isso. A presença da debatedora ajuda: ela inicia a conversa após o filme e incentiva as outras pessoas a exporem sua opinião. Todas convergem para um ponto – Klotzel não ousou. O filme parece tentar ser bem fiel ao romance homônimo: mantém a estrutura narrativa do “defunto narrador”, as personagens, a ordem dos acontecimentos. Mas falha. O “eu” morto é separado do vivo, enquanto essencialmente, no romance, estão ligados. Personagens aparecem sem contexto, como o negro Prudêncio: no começo do filme, Brás Cubas criança aparece “montado” nele. Mas não há a cena essencial de crítica à escravidão, quando Prudêncio, liberto, aparece dono de escravos. A maior falta, porém, é da ironia machadiana, que critica e matiza - falta a essência da obra inspiradora. ![]() Filme é guiado pelos romances de B. Cubas Ouça o áudio novamente. A passagem sobre a morte de Eugênia é síntese dessa ironia, diz Mariana. Brás Cubas está dizendo, “Olha, Eugênia, você morreu tão miseravelmente quanto viveu.” Nuances como essa se perdem, e não há nada no lugar. É o caso da metáfora da borboleta preta. Na sequência de cenas do livro, Brás Cubas primeiro acha graça da superstição da mãe de Eugênia, do medo dela em relação ao animal, e depois fica ele próprio assustado e o mata. “Também por que diabo não era ela azul?” Ora, Eugênia, menina manca, mas bonita, de quem ele primeiro se aproveita mas depois descarta, porque é coxa – Eugênia é a borboleta preta. A adaptação cinematográfica não necessariamente precisaria conter essa cena. Há espaço para criação, releituras, captar o que se acredita ser a essência do romance e das personagens de outros modos. Júlio Bressane fez uma adaptação do romance, em 1985, naqual o lado filosófico é muito forte – é uma releitura própria, algo novo. Não cabe dizer como o filme deveria ser. Mas a impressão que fica de Memórias Póstumas é a de uma adaptação que se propõe a ser fiel e acaba vazia, como um resumo mal acabado. Há a borboleta sem sentido, e Brás Cubas repetindo sem parar em outro momento, “Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?” Poderia ser azul, mas não é. | "Mas afinal, quem era eu realmente? A essa pergunta quero responder com toda honestidade: eu era aquele que tinha muitas caras."
- Milan Kundera em "A brincadeira" Gostou?Já passou
May 2010 CategoriasAll |






