A Solidão entre os Ecanos 22/09/2009
Por Camila Camilo ![]() Edward Hopper faleceu em 1967 e deixou para o mundo uma obra carregada de sentimento. Nela retratou a vida cotidiana, os costumes e a sensação nostálgica, introspectiva e sensibilizada com a Segunda Guerra. ”Todas as retratações de figuras humanas, trazem sempre situações cotidianas da vida americana. Como cafés, bares, restaurantes, bistrôs, teatros, sem esquecer das residências e ruas. Hopper retratou desde mulheres da alta sociedade até agricultores dos campos de trigo”, diz Carol Strickland, em Arte Comentada: da pré-história ao pós moderno. Fora de sincronia com o lema dos “homens bravos e fortes” da época, seus quadros expressam, sobretudo, a SOLIDÃO. E esta triste senhora não o abandonou, nem a seus quadros. Pelo menos em ambiente ecano, onde sete réplicas, incluindo algumas das obras favoritas do autor, como Cape Cod Morning (1950) e Nightawks (1942) estão disponíveis à admiração coletiva. Em um corredor iluminado (eu falei que a luz era o principal componente das obras do Hopper? Ah, não? Então, mas era. Em uma entrevista para a The artist’s voice em 1965, ele disse considerar “a luz uma força expressiva importante, mas não de forma demasiado consciente. Penso que para mim ela é uma expressão natural”) no CCA – Departamento de Comunicação e Artes. Fica no segundo andar do prédio principal da ECA, aquele maior de todos, com um totem charmosão na frente. Lá, as mulheres criadas pelo pintor, muitas delas tendo a própria esposa como modelo, olham para o nada. Ninguém as admira. Ninguém as nota. Ninguém repara que se debruçam no parapeito da janela, não para fofocar ou comentar o maior babado da última festa ou a vestimenta dos professores doutores que têm sala no local, mas porque este é um momento de pausa, quando se olha pro chão lá embaixo e nada se vê, somente a própria combustão interna. Você já deve ter se sentido assim em algum momento. Parado, olhando, mas não necessariamente vendo o que acontecia na rua à sua frente, e necessariamente sentindo o seu invisível particular. Dezenas de pessoas passam por lá, algumas trabalham por perto, e ninguém pára para olhar, sentir e sair diferente. Os personagens de Hopper, característicos homens e mulheres da vida urbana, estão como muitos dos que não os vêem, sem notar o quanto tem em comum: sozinhos, ainda que em posição privilegiada. E não é um típico discurso das mulheres ecanas reclamar da solidão? Pois é garotas, vocês não são as únicas nessa. Mas as mulheres de Hopper sofrem por amor? E aquele papo de que ele retratava a angústia e a nostalgia de quem vive nas grandes cidades?Elementar minha cara, mas quem sabe de onde vem tanto sentimento? E emoção é sempre emoção, ainda que impulsionada por razões diferentes, não?! Você até pode me dizer: -Mas, peraí é só uma réplica. Ninguém se mexe para ver uma réplica. Pois eu me apaixonei por Hopper há um tempo atrás, justamente porque parei para olhar uma réplica neste mesmo corredor. E “Morning Sun” estava lá, cheia de coisas pra me contar. Cara pessoa que me lê neste momento, tudo a favor do seu ócio. Tudo a favor do seu entretenimento banal. Mas nadica a favor do desperdício de vida que é ter tão perto coisas tão bonitas e não ver. Mesmo que sejam cópias. Vai lá, dá uma passada. Pára. Sente. Quem sabe você não se empolga, se apaixona e corre atrás da original? Quem sabe você não se identifica, repensa algumas coisas e vence a própria solidão? Sim porque se você acha que arte não pode mudar sua vida, espere até os próximos posts desta editoria. *E experimente. Sempre. Add Comment | "A arte saiu da caverna e caminha em direção ao divino. É o Deus que há em nós, a grande mola que propulsiona o homem para a frente e para cima."
(Olga Savary) Gostou?Já passou
July 2010 Categorias |



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