História escrita em tinta 04/07/2010
Quem entra na sala de exposições do Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP) se vê frente a frente com um pesado legado histórico. Pulsos algemados, rostos cadavéricos e gestos intensos marcam as obras produzidas durante a ditadura militar, que despertam uma sensação um pouco indefinida – sufocamento, indignação, um medo vago, mas ainda presente - até em quem não sentiu na pele a violência do período. A exposição “Entre Atos: 1964-1968” estabelece dois marcos fortes, o golpe militar e o AI-5, para discutir este momento delicado da nossa história, com o qual ainda não conseguimos lidar – como prova a polêmica sobre a abertura dos arquivos do regime ou a relutância em discutir a Lei de Anistia de 1979. Mais do que isso, a mostra faz parte de um projeto sobre a constituição do acervo do MAC, fundado justamente um ano antes do golpe de 64. Ana Magalhães, curadora da exposição, explica que “o Museu representou um espaço de experimentação ativo, de livre pensamento e intercâmbio entre os artistas”, mesmo num contexto de duras restrições à produção cultural, e assim conseguiu reunir um acervo importante de arte contemporânea. ![]() Limite, 1967, Avatar da Silva Moraes A parte do acervo que está exposta foi dividida em três grandes blocos: Forma, Gesto e Plano, que possibilitam uma interpretação mais aberta, libertando as obras e o público das categorias tradicionais estabelecidas pela história da arte. O primeiro módulo, Figura, é, à primeira vista, o de conteúdo mais explicitamente político. A caveira ou o rosto magro e sofrido é recorrente, assim como a referência direta ou metafórica a situações de tortura e o uso de tons sombrios, em especial o preto e o vermelho. As obras “Caixa 5” e “Caixa 6”, de Avatar da Silva Moraes, dão ao espectador uma ideia do que a classe artística sentia no período: cabeças presas em caixas. A da “Caixa 5” é comprimida por duas prensas. A da “Caixa 6” está escondida por trás de teias e é acompanhada de um espelho – poderia ser você. Já na “Série do Futebol”, de José Roberto Aguilar, jogadores sem rosto e bandeiras do Brasil manchadas de preto e vermelho contrapõem a alegria típica do futebol ao momento negro da vida social e política. Bem apropriada para esta semana pré-Copa. Já o módulo Gesto lida com obras mais abstratas, mas que não deixam de refletir de forma bastante clara o momento crítico vivido pelo país. Waldemar da Costa, por exemplo, representa na tela “Estático Semovente XIII” uma bandeira do Brasil formada por retângulos que parecem prestes a ser engolidos por uma grande mancha negra. O gesto brusco, intenso, carregado, o traço rápido, a mancha, a desordem, as camadas espessas de cor despertam a sensação do caos tanto quanto as figuras da sala anterior. O último bloco, Plano, pode parecer um contraste brusco em relação aos dois primeiros. As telas de Arnaldo Ferrari e Mira Schendel são mais geométricas e organizadas, com cores mais vibrantes em espaços nitidamente delimitados. Ana explica, entretanto, que não se deve ver nesse tipo de experimentação com a forma uma alienação em relação à política: “esse tipo de linguagem artística foi associada à ideia de um campo totalmente autônomo da arte, que nada tem a ver com a vida. Mas o debate não é só estético. É um projeto maior, um projeto utópico, de transformação da vida”. Projeto este que não teve seu espaço nem com o final do regime. Muitas das questões abordadas por estes artistas ainda ficam sem resolução. “O Brasil ainda está por constituir melhor este debate”, diz Ana; “me parece que nós vivemos, do ponto de vista social, político, econômico, uma situação que nos remete ao ambiente das décadas de 60 e 70. Há uma tendência a estruturas mais conservadoras, a métodos cada vez mais rígidos de controle social. Ao mesmo tempo em que vivemos um processo de globalização, as fronteiras se erguem de forma mais evidente do que nunca”. Mais do que uma reflexão histórica, o contato com estas obras nos remete ao nosso próprio momento. Talvez seja este o motivo daquela sensação estranha que se tem ao entrar na sala. É um pouco assustador, mas necessário. Add Comment "Quando crescer vou fazer artes plásticas!" 05/05/2010
por Camila Camilo com colaboração de Alexandre Dall'ara Mais dia menos dia, é preciso tomar um rumo na vida. Aqueles que após concluírem o Ensino Médio têm oportunidade de continuar seus estudos vivem isso na pele quando precisam escolher entre uma gama imensa de cursos de graduação, muitos criados com exclusivo fim mercadológico, aquilo que querem fazer pro resto da vida. Advogado, jornalista, engenheiro, médico, psicólogo...e, por que não, artista? É comum não pensar em arte como profissão, ou achar que este não é um profissional com agenda, responsabilidades e rotina. Representado como um personagem alegórico seria alguém com sotaque francês, bigodinho, boina e cachecol carregando uma paleta na mão. Esqueça tudo isso. Arte é coisa séria e muitos profissionais vivem dela fazendo coisas bem mais interessantes do que o estereótipo que podemos ter em mente. Suzana da Costa, estudante do 4º ano de Artes Plásticas da USP e estagiária do Museu de Artes Sacras de Embu das Artes, diz que no início buscou referências no Guia do Estudante e escolheu Artes Plásticas porque envolvia coisas que a interessavam como as outras artes, psicologia e sociologia. Depois, na faculdade, viu que não havia esta ligação, que o curso é mais específico e não é, ao contrário do que pensava, um “mescladão” das outras artes. Suzana explica que na USP o curso tem quatro bacharéis: pintura, escultura, multimídia e gravura; além da licenciatura, para quem quer se habilitar a dar aulas ou trabalhar em monitorias. Priscila Arantes, diretora técnica do Paço das Artes, é formada em filosofia pela USP e toda sua trajetória profissional é relacionada à arte. Ainda na faculdade, começou a trabalhar na coordenação de oficinas e projetos culturais da Secretaria de Cultura do Estado. Fez mestrado na PUC sobre História da Arte e Curadoria e diz que a vida acadêmica foi muito importante na sua formação. "Eu vim da área acadêmica... fui entrando na arte a partir dessa minha inserção." Por volta de 2005, começou a receber convites para ser curadora e no mesmo ano começou a trabalhar no Paço das Artes. Em 2007, o Paço foi convidado pela Secretaria da Cultura para gerir o MIS (Museu da Imagem e do Som), e Priscila assumiu o cargo de diretora técnica nas duas instituições. E o que faz uma curadora? A função de Priscila é pensar o projeto curatorial geral da instituição e eventualmente fazer curadoria de alguma exposição. Eventualmente porque no Paço e no MIS as diretoras técnicas são também curadoras e além delas, outros curadores são convidados para exposições em cartaz. Ela também acompanha o fluxo do trabalho, a montagem das exposições, convida profissionais e supervisiona a produção e a divulgação. Entre as exposições das quais participou está “I/Legítimo: dentro e fora do circuito”, sobre grafiteiros e arte de rua. Mercado Embora a formação seja importante, não é necessário fazer artes plásticas para se tornar artista. Suzana conta que as influências que a pessoa teve e os contatos que tem também contam na hora de apresentar um trabalho ou conseguir oportunidades. A estudante diz que o curso é bom e há mercado. Seu tio foi o pioneiro na restauração no Brasil, isso há aproximadamente 30 anos. E esta é uma área com demanda elevada e pouca mão de obra especializada. Faltam cursos do tipo, inclusive em São Paulo. O Paço pode ser uma opção para os iniciantes, pois se propõe a trabalhar com artistas e curadores emergentes. "Trabalhamos com novos artistas para a construção de uma nova agenda dentro do circuito da arte", diz Priscila. Anualmente o museu produz um edital para todo o país, no qual novos artistas e curadores inscrevem seus trabalhos. Dez projetos são selecionados todos os anos. Além disso, críticos novatos também são convidados a produzir textos sobre as mostras. A sugestão da curadora para quem está começando é que procure galerias, críticos interessados e participem de editais como o do Paço. A dica para quem tem um trabalho consistente e que busque ficar conhecido no meio. “A arte contemporânea é um circuito, um circuito de pessoas, de museus, de galerias ...é preciso se fazer visto nesse circuito", explica. "De um povo heróico o brado retumbante" 23/03/2010
por Camila Camilo O Museu Paulista da Universidade de São Paulo, popularmente conhecido como Museu do Ipiranga, guarda um segredo. Qual?! Pois vamos lá. Contando com um importante acervo permanente e com exposições temporárias, o museu foi fundando em 07 de setembro de 1895. Isso porque D. Pedro havia autorizado a construção de um monumento em comemoração à Independência do Brasil. Aliás, por causa de sua família, há dragões por todos os lados: nas molduras, nas paredes, nas colunas. Esquisito?! Nada disso, o dragão era o símbolo da Casa de Bragança. No centenário da independência o museu passou por mudanças importantes: o aspecto histórico da instituição foi reforçado, novos acervos foram incorporados e uma reforma foi conduzida pelo então diretor, Afonso de Escragnolle Taunay. A partir daí, São Paulo ganha enfoque como crucial para a história do Brasil. Falando em história do Brasil, assim que se entra no museu a colonização e seus protagonistas índios e homens brancos são apresentados. Há ânforas na imponente escada com águas dos principais rios brasileiros, guardada por pássaros sentinelas. Assim como as esculturas, vão reforçar a ideia presente no famoso painel de Pedro Américo, no salão nobre. Nas laterais da escada, há placas de bronze lembrando aqueles que não receberam retratos. Retratos? Sim, basta olhar para o vão principal. Você encontrará dezesseis pares de olhos, daqueles que pensaram antes de todo mundo, e por motivos distintos do oficial, em um Brasil independente. São os protagonistas da Revolta de Filipe dos Santos (1720), Inconfidência Mineira (1789), Revolução Pernambucana (18717) e da Independência propriamente dita, em 1822. E no salão nobre, há restos mortais. É que naquela época guardar mexas de cabelo era uma demonstração de estima e de manutenção das virtudes que a pessoa tinha. E ainda falavam dos índios... No fim da escada, dois imensos bandeirantes já deixam claro que este é um museu Paulista, com P maiúsculo, refletindo a mentalidade muito presente na déc. de 20 do séc. passado, de que o destino do Brasil se confundia com o destino de São Paulo e que foi a partir da ação desbravadora dos bandeirantes paulistas que o Brasil se expandiu.Os bravos conterrâneos seriam assim pilares da unificação territorial brasileira. Não pensem que tudo era coragem. No térreo há um painel sobre as monções do conhecido Almeida Júnior, em que todos os rostos denotam o que sente alguém que está partindo rumo ao desconhecido, misto de desespero e vontade, e o abandono e tristeza de quem fica. Mas também ele já pintou saudade, acho que entende do assunto. E então, o café. Nobre, saboroso, principal produto de exportação, capaz de superar o açúcar no cenário econômico brasileiro. Uma delícia. Plantada por mãos escravas. E o museu não deixa você ir sem reparar em um painel com documentos e anúncios da época, no qual, por exemplo, uma mãe procura o filho perdido ou escravos fugidos são procurados como animais, e em instrumentos de tortura caprichosamente relacionados com fotos da época. Fotos inclusive, nas quais os escravos nunca saíam trabalhando, já reparou nisso?! E este café era exportado em navios que traziam industrializados. Meninos dos olhos da burguesia brasileira, que comprava em ruas como a Quinze de Novembro ou a Direita, o aparente luxo parisiense, numa época em que a publicidade ganhava força para reforçar o consumo dos artigos agora produzidos em escala. Outro grande painel mostra uma típica família burguesa da época. Em sua sala de jantar, louças finas decoradas com brasões e iniciais e todo o cerimonial necessário para demonstrar refinamento. Antes, era o dono da casa, símbolo da sociedade patriarcal, quem servia os convidados. Uma mudança de hábito atribuiu esta função à mulher e aos criados. Mas tanto refinamento se restringia ao lugar onde visitas eram recebidas. A cozinha, espaço feminino, era simples e utilitária. Para ilustrar esta sociedade patriarcal, o cômodo feminino ficava justamente na parte de trás da casa. A parte que a história reservou às mulheres por tanto tempo. Desça as escadarias. Vire à esquerda. Para quem achava impossível, fotografias inspiraram pinturas da São Paulo do séc. XIX. Seu instinto de investigador vai caçar diferenças entre elas, expostas lado a lado. Em seguida, uma maquete gigante da São Paulo do fim do séc. XIX. E que São Paulo era essa? O atual centro velho, outrora glamouroso e requintado, hoje abandonado e sujo, ainda que igualmente importante. Por curiosidade, alguns prédios daquela época permanecem, mas são poucos, como a Faculdade de Direito do Largo São Francisco e a Igreja do Carmo. Aquela cidade parece bonita e tranqüila, apesar da sujeira que causava doenças e problemas sanitários à população que convivia com outra população, a de ratos. Esta maquete me causou saudade e orgulho do segredo. Qual segredo? Este que se repete seis vezes neste texto. A cor da música 09/03/2010
Orquestra sinfônica. O que essas duas palavras evocam na sua cabeça? Salões enormes sustentados por enormes colunas de mármore. Paredes preenchidas por grandes figuras clássicas decoradas com filetes de ouro. Senhoras com coques brancos e vestidos longos. Senhores com bigodes grisalhos e ternos pretos. Poltronas vermelhas estofadas com braços de mogno. Anéis de ouro segurando taças de champanhe. Solenidade. Som de violinos e cheiro de roupa guardada há meses no armário. Certo? Não para o designer gráfico Kiko Farkas, criador dos cartazes para apresentações da OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) que estão em exposição no Centro Universitário Maria Antônia (CEUMA). Sua missão era justamente desvincular a música erudita da sensação de antiguidade, mostrar que um concerto não é algo tão pomposo e distante da realidade dos pobres mortais desacostumados a lustres de cristal e tapetes vermelhos. ![]() Nas obras, tipografia é importante 45 dos quase 300 cartazes criados por Farkas para a OSESP podem ser vistos no CEUMA até o dia 11 de abril. A abertura da mostra, no último dia 9, foi acompanhada do lançamento do livro “Cartazes Musicais”, que reúne todas as obras desta série. Esta iniciativa proporciona uma visão inédita do conjunto, já que os cartazes originalmente foram vistos um a um pelos frequentadores da orquestra. Mesmo em meio à diversidade que marca a obra de Farkas, influências da música, como o ritmo, a proporção e a harmonia, perpassam a exposição inteira. Para projetar uma imagem da OSESP como instituição moderna e geradora de cultura, estes elementos musicais deveriam ser associados a movimento, inovação, alegria. É aí que entra a linguagem moderna de Farkas. Nada de pedaços de violino, claves de sol nem retratos de Chopin e Mozart. O clichê é justamente o único elemento impossível de se encontrar num cartaz desta série, produzida entre 2003 e 2007: do geométrico ao fotográfico, do minimalista ao psicodélico, do preto e branco ao colorido, da transparência à opacidade, da linha à forma, da mancha à figura, todos os elementos da linguagem visual são usados para fazer referência à linguagem musical de forma ousada e nova. ![]() O sucesso do trabalho de Farkas é prova de que vale a pena correr o risco de sair do comum. “Cada vez mais acredito que projetos criativos dependem de pessoas”, disse o designer; “pessoas que têm opinião, idéias, e que assumem o risco de levar em frente uma experiência transformadora”. O artista cita como exemplo o conflito com alguns clientes, que queriam que suas marcas ocupassem uma parte maior do cartaz do que o planejado: a coragem de defender a integridade das peças agora mostra seus frutos no reconhecimento da crítica. Não poderia existir frase melhor para resumir o trabalho de Farkas do que aquela mesma que une todos os cartazes da mostra: “Pode aplaudir que a orquestra é sua”. Benvindo à arte na USP 21/02/2010
Você chega, olha aquele lugar grandão e pensa: - Porra, deve ter muita coisa pra fazer neste lugar! E tem. A equipe Escarlate montou uma programação especial para você que curte (e para você que não curte também) artes plásticas, exposições, abstrações, coisas bonitas de se ver e afins. Vai lá bixo, veterano ou simples ser humano. Aproveita que você tá na USP e curte o que ela tem de bom! Em São Paulo: CEUMA – Centro Universitário Maria Antônia Se você estuda em qualquer campus da capital, a Maria Antônia fica no caminho pra chegar na faculdade, ou pelo menos bem perto. Nem pense em torcer o nariz só porque fica próximo ao Mackenzie. A unidade é um dos berços da USP, carregada de história – o prédio foi tombado pelo Condephat - e uspiana bem antes de você pensar na FUVEST. O local abriga espaços de exposição, salas de aula, auditório, onde você pode curtir peças de teatro, shows e concertos, cursos, seminários e até arte-educação. Onde? Rua Maria Antônia, 294 – Higienópolis Tel: (11) 3255-55385 E-mail: mariaantonia@usp.br Site: www.usp.br/mariantonia E se eu quiser ir lá agora? Se você acabou de mudar pra São Paulo e tá a fim de se aclimatar, esta é sua chance. Até dia 28/02 – eu sei, tá meio em cima, mas você é uma pessoa esforçada, tô sentindo – o Centro Universitário Maria Antônia está com a exposição “Um cartaz para São Paulo”. A concepção é do designer gráfico Paulo Moretto, que divide a curadoria com Alécio Rossi. A ideia era que arquitetos, artistas e designers transformassem em imagens sua percepção sobre a cidade a partir da expressão: “diversidade cultural da metrópole”. Boa né?! Confira. Um Cartaz para São Paulo – diversidade cultural da metrópole 25/01 a 28/02, de terça a sexta das 10h às 21h; Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h; Entrada franca. MAC – USP Próximo ao bandejão central, à antiga/nova/velha/quem sabe reitoria, ao Cepê, à ECA, à famosa Praça do Relógio, enfim, mais do que bem localizado, e perto de você que circula, e circulará mais ainda nos próximos anos da sua vida, pela Cidade Universitária, está o MAC, Museu de Arte Contemporânea da USP. Reminiscências pessoas, o MAC é lindo, por dentro e por fora. Costuma ter exposições divertidas, interessantes, perturbadoras. Além das exposições, conta com um ótimo acervo permanente. Há uma sala cheia de gavetinhas, cada uma com gravuras, desenhos ou fotos. Dá pra ficar o dia inteiro por lá. Enfim, é um bom lugar pra se tornar frequentador. Onde? Rua da Reitoria, 160 – Cidade Universitária Tel: (11) 3091 -3039 Site: www.mac.usp.br E se eu quiser ir lá agora? Pensa comigo: se você tivesse um “container” na forma de uma caixa de madeira pintada de branco, de 3m por 2,5m para fazer o quisesse, sabendo que depois este “container” seria abandonado, sobrando apenas o registro do que você fez, o que você faria? Quer saber o que outras pessoas fizeram? Vai lá e confere. Ah, qualquer semelhança com Dogville não é mera coincidência. Desvirtualizando: Instalações Multimídias 01/01 a 31/02, de terça a sexta das 10h às 18h; Sábados e domingos das 10h às 16h; Entrada Franca. Paço das Artes O Paço é uma galeria multidisciplinar, o que indica que lá você pode ver coisas novas que talvez não veria em outros museus. Além disso, abrange todo o segmento das artes visuais: plásticas, gráficas, multimídia e design, e tem também bons workshops. Onde? Av. da Universidade, 1 – Cidade Universitária Tel: (11) 3814-4832 E-mail: pacodasartes@pacodasartes.sp.gov.br Site: www.pacodasartes.sp.gov.br E se eu quiser ir lá agora? Lembra das suas aulas de história e geopolítica quando você ouvia falar de disputas comerciais e territoriais? Calma, não precisa desesperar que o vestibular já passou. Mas o assunto é bom e é abordado no Paço de uma maneira diferente. Com o projeto, Zonas de Contato, artistas convidam outros de gerações mais novas para promover um diálogo entre seus trabalhos. Atualmente, Paulo Climachauska convida Rafael Carneiro. Rota de Seda, de Climachauksa, dialoga com a pintura de grande dimensão de Carneiro e faz referência ao caminho que ligava Ocidente e Oriente, hoje região de conflito devido à disputa por gás e petróleo. Os desenhos mostram imagens de lugares destruídos pelas guerras e conflitos dentro da Rota de Seda. Zonas de Contato: Paulo Climachauska e Rafael Carneiro 25/01 a 04/04, de terça a sexta, das 11h30 às 19h; Sábados, domingos e feriados das 12h30 às 17h30; Entrada Franca. MAE – Museu de Arqueologia e Etnologia da USP Brasileiro não tem rosto. Os caras da alfândega não tem a menor chance de adivinhar de onde viemos só pela fotinha do passaporte. Somos um país de várias etnias misturadas e talvez venha daí tanto ziriguidum. Mas e você, sabe de onde veio? Onde começou sua cidade, sua origem, de onde vieram as palavras que você usa no dia a dia? O que existia antes no lugar onde você mora, trabalha ou estuda? Pois é, tem gente que faz desta curiosidade profissão e se você se interessa pelo assunto, o MAE é um bom lugar pra visitar. Onde? Av. Prof Almeida Prado, 1466 – Cidade Universitária Tel: (11) 3091 – 4901 E-mail: mae@edu.usp.br Site: www.mae.usp.br E se eu quiser ir lá agora? Parte do acervo do museu, composto por máscaras, amuletos, armas, pinturas, cerâmicas, vestimentas, dentre outros, está aberta à visitação na exposição “Formas de Humanidade”. A ênfase é dada às peças indígenas brasileiras, mas outras sociedades também são contempladas. Formas da Humanidade Visitas Livres: Terças a Sextas das 09h às 12h e das 13h30 às 17h. Agendamentos e Informações: (011) 3091-4905. Museu Paulista “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas!” Ah, tem lugar que dispensa apresentação né?! Onde? Parque da Independência, s/n – Ipiranga Tel: (11) 6165-8000 E-mail: mp@edu.usp.br Site: www.mp.usp.br E se eu quiser ir lá agora? Você não sabia que o famoso Museu do Ipiranga pertencia à Universidade de São Paulo? Pois saiba que ele foi incorporado à USP em 1963 e é, portanto, o mais antigo museu da universidade, já que sua fundação foi em 1895. O acervo conta com mais de 125 mil artigos, entre esculturas, jóias, moedas, documentos, armas, utensílios de índios e bandeirantes e muito mais. Tudo pra você mergulhar na História e rir daquela menina da propaganda da Caras, claro. Museu de Zoologia Schistosoma mansoni, Canis lupus, Homo Sapiens. Reino, filo, classe, ordem, família, gênero, espécie. O macaquinho que evoluiu até pisar na lua. Gostou? Tudo isso no Museu de Zoologia mais perto de você! Onde? Av. Nazaré, 481 Tel: (11) 6165-8100 E-mail: mz@edu.usp.br Site: www.mz.usp.br E se eu quiser ir lá agora? O Museu disponibiliza atividades educativas, exposições e uma zooloja, pra você que gosta de presentear os amigos (lembra de quem te deu essa dica tá?!). Além disso, a exposição de longa duração apresenta a história dos animais na Terra e as atividades de pesquisa do Museu. Exposições e Zooloja Terça a Domingo, das 10h às 17h; Ingresso individual: R$4,00; Estudantes, professores desacompanhados da escola com comprovante, alunos de escolas particulares com ou sem visita agendada e alunos de escolas públicos sem visita agendada pagam meia. Todos no último domingo do mês, idosos, crianças de até seis anos, alunos da rede pública com visita agendada e acompanhantes entram gratuitamente. Centro de Preservação Cultural / Casa de Dona Yayá É um lugar onde você pode pensar e aproveitar a recuperação e preservação do patrimônio cultural. E curtir boas tardes de domingo. Lá você ouve boa música no final de semana com o projeto “Domingo na Yayá”, pode visitar exposições ou até mesmo apreciar o próprio prédio, cujos painéis contam muito sobre a arquitetura deste edifício histórico. Onde? Centro de Preservação Cultural / Casa de Dona Yayá: Rua Major Diogo, 353 – Bela Vista Tel: (11) 3106-3562 Site: www.usp.br/cpc E se eu quiser ir lá agora? Quer conhecer melhor a sua universidade? Você pode fazer isso por meio da fotografia. A exposição “Registros Fotográficos, patrimônio e memória da USP” tem origem nos trabalhos feitos para a produção do oitavo Cadernos CPC, cujo enfoque é a fotografia. A produção busca divulgar os bens culturais que a USP possui através de enfoques diferentes. Registros Fotográficos, patrimônio e memória da USP De 25/10/2009 a 25/04/2010, das 10h às 16h; Entrada Gratuita. Museu de Anatomia Humana Professor Antônio Bovero Eu confesso que tenho medo dele. Só por isso você vai né?! Bem, não sei qual é a graça em ver um aparelho circulatório, uma cabeça, um feto todo trabalhado no formol, a não ser que você seja estudante de medicina. O Freud deve ter uma explicação pra isso. Bom, vai que você quer visitar né... Onde? Avenida Lineu Prestes, nº 2415 – Cidade Universitária Site: http://www.icb.usp.br/museu/ E se eu quiser ir lá agora? Se você é de humanas ou exatas, tem fortes tendências psicopatas. Brincadeira! Importante lembrar: O Museu é uma instituição muito séria, voltada ao estudo da anatomia, ou seja, é um espaço acadêmico, interessante, sobretudo, aos novatos das biológicas. Para vocês, queridos de branco: Visitas de terça a sexta, das 09h às 16h – fecha para almoço das 12h às 13h30; Sábados, domingos e feriados: Das 10h às 16h – fecha para almoço das 12h às 13h30. Há cobrança de ingressos: Estudantes, adultos e crianças acima de 10 anos pagam R$2,00. Em caso de visitas escolares, alunos de escolas públicas pagam R$1,00 cada, e alunos de escolas particulares pagam R$3,00. Grupos de até quatro pessoas entram gratuitamente nos sábados à tarde, domingos e feriados. Comunidade USP com carteirinha, idosos, portadores de necessidades especiais com acompanhante e professores não pagam entrada. As visitas têm duração de uma hora. E todas estas dicas não acabam por aqui. A USP é um vasto mundo cheio de coisas interessantes. Se você tem uma dica de outro lugar, envie pra gente. E se você leu o guia e visitou um destes lugares envie para nós seu depoimento e ele será anexado à matéria. Benvindo ao nosso jeito de mostrar arte na USP. Benvindo à Escarlate. Plumas entre concreto e buzina 02/12/2009
por Denise Eloy Num cenário paradoxal, a exposição Beleza e Saber – Plumária Indígena terminou nesse domingo, 29, sua passagem no Conjunto Nacional, na movimentada Avenida Paulista. Lá, encontrei o artesanato original dos variados povos indígenas. Era cada coisa tão bem trabalhada, tão minuciosamente talhada... A exposição estava organizada em dois módulos: um discorria sobre a importância social daquele artesanato. O outro falava dos próprios aspectos tecnológicos de se produzir aquilo e que diferenças se encontravam naquela arte. Imergi na exposição pela parte dos estojos. Estojos? Sim. Estojos de madeira em que se guardam as mais diferentes penas, plumas e adornos. Uns compridos e cilíndricos, outros menores e mais quadrados. Absolutamente tudo à mão. Fui passando pelas tribos – 21 no total – e pelos seus ornamentos. Eram ombreiras, grinaldas, pulseiras, brincos, cintas, narigueiras, colares, coroas... Uma série de trabalhos que devem ter diferenças profundas de uma tribo à outra, mas que, para mim, representavam a beleza de uma cultura rica e misteriosa. Os nomes pretos nas paredes vermelhas diziam àqueles que visitavam que tribo era responsável pelos ornamentos apresentados. Logo na entrada, um mapa localizava esses povos em terras brasileiras. Escuto de um visitante: “Darcy Ribeiro ia exaltar essa exposição...” Entre Guarani, Kayapó, Tukáno, Parintintín, eu encontrava os detalhes de cada adorno. Cada um tem funções próprias e está inserido nas sociedades indígenas não como um acessório, mas com um propósito que já vem na essência. As plumárias, por exemplo, representam crenças e posições sociais. E há colares que só homens com determinada característica podem usar. A perfeição dos elementos é inacreditável. São plumagens e penas de papagaios, tucanos, araras, garças e certos gaviões. Havia objetos pequeninos e grandes coroas redondas, com cristas, e os chamados grampos, espécie de lança grande e enfeitada. As flautas mostravam-se em formas diversas e uns modelos sem rosto exibiam diversos elementos ao mesmo tempo, como se fosse a vestimenta dos índios. Tudo isso logo ali, num lugar tão movimentado e urbano, essa arte tão desconhecida por nós abriu-se aos meus olhos. Minha atenção não foi presa através de imagens rápidas, tecnologias avançadas, nem telas de cinema. O que move quem entra lá dentro são as cores e a simplicidade - aparente simplicidade. Escuto, por fim, uma mãe, que mostra à sua filha um dos adornos: “Olha que lindo, filha!” Lindo de verdade. Pintores de um tempo 11/11/2009
por Camila Camilo Ciccillo Matarazzo e Yolanda Penteado com orientação de críticos estrangeiros e brasileiros, adquiriram um grande número de obras da vanguarda do séc. XX. Este foi o princípio de um acervo que neste ano da França no Brasil, está exposto no MAC Cidade Universitária até dia 31 de janeiro. Lá estão ícones que pintaram o período marcado pela indústria e pela urbanização, o mesmo do nascimento do sentimento efetivo da tecnologia como parte da vida das pessoas, em especial devido às duas grandes guerras. Segundo a Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais, a arte moderna engloba as vanguardas européias do começo do séc. XX, assim como “o deslocamento do eixo da produção artística de Paris para Nova York, após a Segunda Guerra Mundial”, e parte importante do expressionismo abstrato.Temos que confessar que muitos não costumam gostar de arte abstrata. Nossos olhos, desacostumados à pausa, querem saber de imediato. E uma obra com traços que parecem em movimento, ou que trabalha com dimensões sobrepostas, exige pausa. Ela não te conta tudo de uma vez. A crítica comum é que obras assim não dizem nada. Dizem sim, muita coisa. E uma das mais bacanas esta em sua própria história: é a ruptura com os temas clássicos e com a forma, até então estabelecida como certa, de fazer arte e produzir sentido por meio dela. Além disso, os artistas deste período não viam a pintura da maneira tradicional. Para eles, ela não deveria ser a cópia da natureza, mas algo que transcendesse os limites da representação pura e simples. Eram nobres senhores de um novo tempo, com ritmo e clima diferentes, que não poderiam escapar da arte, esta forma mentirosa tão fiel em dizer a verdade. Georges Braque, um dos precursores do Cubismo, dizia que não se imita aquilo que se quer criar. E falando nele, vamos à exposição, onde está suaNatureza Morta de 1963. Não pense que se trata de uma natureza morta padrão. Nada de vegetais e jarros adornados. Os elementos, em tons de acre, intercalam o orgânico com o moderno. Como um jornal, hábito matutino típico dos homens da era industrial. Há dois bons exemplares de obras que instigam a visão. Você se pega tentando decifrar mais, achando que tem alguma coisa escondida que ainda falta descobrir. São elas: Uma mulher feliz de Francis Picabia, e Namorados no Café de Roger Chastel. Há também obras de pintores reconhecidos como Matisse, Chagal e Kandisky. E não há dúvida de que sempre vale a pena ver os clássicos. Mas confesso que a visita vale mesmo a pena por dois homens pra lá de fabulosos: Fernand Léger e ele, Picasso. Léger tem uma história interessante. Começou no abstracionismo (se você é apaixonado por arte abstrata, seu motivo para a exposição valer a pena é a sala onde estão obras da Galeria Denise René). Iniciou uma estética na qual motores, engrenagens, trilhas e locomotivas se integravam com pessoas na sociedade da técnica. Foi ao purismo de remover as camadas decorativas cubistas, adotando cores uniformes e o contorno do preto em temas figurativos. E após a II Guerra, passou a pintar os detritos industriais deixados na natureza e que se misturavam com ela. É aí que eu quero chegar: em O Vaso Azul de 1948. Agora, se você for no Mac até dia 31/01 para ver a exposição, pare no meio da primeira sala. Tem um quadro que, creio eu, vai chamar mais sua atenção. E vale muito a pena ir lá só para vê-lo. O plural de uma só pessoa te olha em branco e preto. E aí a gente pode pensar que talvez não seja só passar mais de uma dimensão para o plano, mas também mostrar mais de uma faceta da mesma pessoa, simultaneamente. Além disso, convenhamos, não é todo dia que se vê uma obra com aquela assinatura, aquela cujo próprio autor dizia que fazia qualquer coisa valer um milhão, quando falava dos valores distorcidos da nossa sociedade, tão ciosa das aparências e tão despreocupada com o conteúdo. Cá entre nós, conteúdo não é problema dele. Pablo Picasso está lá, com Figuras de 1945. Emoções aquareláveis 21/10/2009
por Christiane Silva Pinto Simplicidade é tendência na maioria dos museus modernos e no Centro Universitário Maria Antônia não seria diferente. A sala era arejada, com paredes grandes e enormes janelas que deixavam a claridade entrar, iluminando a exposição de forma leve e natural. Esta foi a sexta edição do IlustraBrasil! evento que ocorreu entre os dias 14 de setembro e 16 de outubro e teve como objetivo abrir espaço para a discussão sobre o desenho publicado no Brasil. Além da exposição, com ilustrações de 104 artistas membros da Sociedade dos Ilustradores do Brasil (SIB), o evento contou com uma série de palestras sobre o assunto. A grande sala, neutra, nos dava a impressão de que a tudo observava, porém sem dar pitacos, sem se intrometer nos pensamentos que nos vinham à cabeça ou interferir nas impressões que levaríamos daquelas obras. ![]() 'Monanelore' de Gilberto Marchi E se as paredes eram neutras, o conteúdo explodia em cores e emoções. Uma ilustração gritava mais alto que a outra tentando atrair olhares. Cada uma vivia num universo particular, um mundo só dela que não era construído com tijolo e cimento, mas com nanquim e outras tantas vezes com guache. Muitas se valiam de uma ajudinha da tecnologia na construção dos seus mundinhos, como o Photoshop e o Illustrator, por exemplo, mas isso nãos as fazia melhores nem piores que aquelas feitas à mão, com lápis de cor ou aquarela. ![]() Com caneta BIC por Carlos Machado E todas essas ilustrações eram vizinhas e conviviam bem. Aquelas mais ousadas, feitas com técnicas como a colagem ou até mesmo o Grafite, sorriam largamente para a vizinha mais tradicional, desenhada com uma simples caneta “BIC”. Algumas vezes, aquelas vizinhas mais extravagantes (porque toda vizinhança tem a sua), reuniam tudo de uma só vê: nanquim, aquarela, colagem, Illustrator... Delas se dizia que foram feitas com uma tal de técnica mista. ![]() de Carlos Meira O mais engraçado é que cada obra, assim como cada pessoa, tinha sua missão, tinha um propósito quando foi feita pelo ilustrador. Ilustrar um livro, um álbum de figurinhas, uma história infantil ou um jornal; anunciar uma grife de roupas ou de sapatos; fazer rir, como uma caricatura; orientar, como um mapa; informar, no caso de um cartaz; falar de música, de futebol, de sexo, do dia-a-dia; defender uma causa; marcar a história, como um quadro do Obama; mostrar a cultura popular, o samba, o negro, o cangaço; ou simplesmente ilustrar a vida, nos fazendo parar por alguns minutos (ou menos) e viajar. Não nos damos conta de como as ilustrações fazem parte de nossas vidas: no jornal, numa propaganda, em embalagens. Sempre presentes, esses desenhos não só contam a história do nosso tempo, como também enchem nossas vidas de graça e cultura. Se você ficou interessado, entre no site do IlustraBrasil!. Lá você vai encontrar um pouco mais sobre o que aconteceu no evento como as palestras, ver fotos e, ainda por cima, as 104 ilustrações que estavam expostas. Um diálogo entre corpos estranhos 07/10/2009
por Camila Camilo Em parceria com o Memorial da América Latina, o MAC-USP finalizou no início do mês a Mostra Corpos Estranhos, a terceira do ciclo Mulheres Artistas e a Contemporaneidade. E o que temos nós, mortais do rápido mundo moderno, a ver com uma exposição que já acabou? Tem que o corpo, este revelador de nossa tendência à finitude, foi o elemento principal do diálogo entre artistas latinas como a espanhola Pilar Albarracín, a guatemalteca Regina José Galindo e a brasileira Laura Lima, em Corpos Estranhos. Lá elas mostraram que o corpo humano não é mais o mesmo. Sim, porque as musas de Boticelli nem se comparam às nossas giseles. Minha avó nem sonhava com botox. E a menina de sete anos que foi a sua mãe podia ser vaidosa, mas certamente não comemorava seus aniversários em salões de beleza. Mostraram também que o corpo não é o que parece. Ele pode ser uma demonstração de prestígio e status. Ou pode denotar o sofrimento que o poder e a autoridade imprimem com marcas visuais em quem tortura. Ou em quem segue um certo “modus operandi” de vida. Elas o utilizaram também para mostrar porque, especialmente no caso dos seres femininos, sua existência está “diretamente associada à lógica de imposições físicas e psíquicas em uma sociedade guiada pelo contexto do desempenho generalizado”, segundo Claúdia Fazzolari, curadora da exposição. Algumas das obras são descritas aqui. E com elas são feitas possíveis relações. Isso para tentar mostrar poque não acabam em si e fazem tanto sentido na vida de todo dia. Pilar Abarracín, Lunares (2004) Uma dançarina de flamenco se posiciona altivamente no palco. O lugar certo para dançar a música forte, ritmada e emocionante. Os músicos a postos não permitem que a canção chegue a outro lugar que não o clímax. A tendência das coisas pede que dance. Mas ela tira do decote, íntimo esconderijo, uma agulha. Com mãos ágeis e expressão resoluta no rosto, faz furos repetidos que mancham de sangue o vestido branco, nos seios, no ventre e na coxa. Ela distorce a ordem previsível e destrói o que representa: um estereótipo, uma obviedade que encerra uma espera. E finaliza com o passo decisivo. O rosto maquiado se move. O corpo sai de cena. Machucado. “Confira nossas receitas emergenciais para melhorar seu corpo. Mas atenção: são truques de última hora para conseguir entrar naquele vestido. Depois, procure rever o seu comportamento para não precisar mais delas” (CLÁUDIA, out 2009) Pilar Abarracín, Enterramiento (1994) A moça de tenis Hard Rock e longos cabelos negros cava a própria cova. E enterra-se com desespero vagaroso até o limite oferecido somente por sua própria mão. Pilar Abarracín, Pata Negra (2008) Uma pata de animal sai da boca humana.(É o que você fala, o que você come ou o que você é?). O famoso presunto ibérico é engolido e digerido no formato pré–produzido, aquele mais fácil de entender. Pilar Abarracín, Toillete (1991) Um corpo de mulher vestido de sangue, banhado no líquido vermelho que a faz e se desfaz nela. “Será que seu rosto é mais velho do que você? Fique esperta: quem não se cuida e já exibe sinais como manchas, linhas, rugas e flacidez pode aparentar mais idade do que tem. Vire já o jogo com este roteiro recheado de truques, novas descobertas e tratamentos para manter seu rosto e corpinho sempre jovens e sexy” (NOVA, out 2009) Regina Jose Galindo, Camisa de Fuerza (2006) Vestida com uma camisa de força a moça dorme, levanta, anda pela casa. Outros lhe dão o que comer, permitem que use o banheiro, limpam sua boca, ajeitam seus óculos. A camisa de força deixa que seja um corpo munido das necessidades fisiológicas de alimentação e excreção. Nada mais. “Não será exagero afirmar que a felicidade doméstica depende, em grande parte do equilíbrio econômico. Por esta razão, a dona de casa que consiga equilibrar as despesas dentro da verba que dispõe, dá ao chefe da família maior sossego de espírito, possibilitando-lhe um trabalho mais produtivo.” (Prefácio de “Receitas do Meu Lar”, de Sinhá Cecy; 6ª Edição, Edições LEP Ltda., 1950- São Paulo, Brasil) Regina José Galindo, Perra (2005) Como quem corta um pedaço de carne morta para o jantar, como quem corta algo não seu, ela escreve PERRA na própria coxa. No meio do dígrafo para. Sente. E respira mais forte enquanto estica a pele para fazê-la sangrar. Limpa a faca. E após ajeitar o vestido, recolhe a própria carne trêmula e sai. Regina José Galindo, Quien puede borrar las huelas? (2003) Os pés se mancham de vermelho e seguem caminhando. As mãos seguram todo o vermelho que marca as ruas e deixa sujos os pés. O guarda olha, não faz nada. Só guarda para que as ruas fiquem limpas, enquanto não percebe que se sujam mais com a história das vítimas dos conflitos armados naquele país. Regina José Galindo, Limpieza Social (2006) Nua próxima ao muro. Um forte jato, utilizado para reprimir manifestações, impede sua postura e, violentando em vez de limpar, machucando em vez de refrescar, a água a vence. Sua expressão é de dor. O corpo termina rebaixado e humilhantemente ofegante. “O que quero dizer com tudo isso, é que a mulher dita moderna, perdeu sua identidade. Ela não mais é um ser que nasce e se desenvolve, mas sim um ser criado segundo seus “próprios” ideais, ideais esses, obtidos na mídia e na sociedade de consumo. As novas tecnologias transformaram a forma de construir à realidade de cada um. Não se tem mais acesso direto à própria imagem, pois as identidades são construídas a partir da mídia, e toda a relação do “espectador” com a obra ocorre através de uma interface (um meio tecnológico), e pasmo concluo: o acesso à própria imagem é sempre mediatizado". (Antunes Weide, colunista Brasil Escola) Regina José Galindo, Reconocimiento de un cuerpo (2008) O lençol cobre o corpo que respira. E reconhecer o corpo é reconhecer um morto. Muitos param, olham. Levantam o lençol, tocam sua tez. Querem saber se a artista anestesiada está mesmo nua, se o sexo está à vista. Esperam sua hora, a hora em que serão apenas corpos. Em que suas identidades serão apenas frias plaquinhas de metal penduradas em uma gaveta. Laura Lima, Série Nômades (2007) Máscaras feitas de paisagem desconstruída. As árvores ficaram fora do lugar, de cabeça para baixo. Os não vistos se vestem de paisagem. E fica o corpo fantasiado do avesso das coisas. “Eu quero alguém que abra a porta para eu passar, puxe a cadeira para eu sentar, me mande flores com cartões cheios de poesia, faça serenatas na minha janela… Ai, meu Deus, são 6h30, tenho que levantar! E tem mais… que chegue do trabalho, sente no sofá, coloque os pés para cima e diga: “meu bem, me traz uma dose de whisky, por favor?”, pois eu descobri que é muito melhor servir. Ou pensam que eu estou ironizando? Estou falando sério! Estou abdicando do meu posto de mulher moderna… Troco pelo de Amélia. Alguém mais se habilita? Antes eu sonhava, agora nem durmo mais…” ("Riti - Desabafo da mulher moderna? - Yahoo Answers) A última obra vista é um vídeo produzido em 2009 no MAC. Nele, a moça hipnotizada pelo homem do showbusiness perde os sentidos e, em vez de andar, rasteja. No lugar de reagir, mantêm-se impassível na submissão. O corpo permanece caído, desprovido de tudo no mesmo chão pisado pelos visitantes. Algumas das pessoas que foram à exposição, perturbadas pelo conteúdo, ficaram pouco tempo lá dentro. Inevitável mesmo foi o final. Porque no fim seu corpo vai embora desconfortável, desalinhado, desacertado. Tocado. Alguns vídeos que estavam na exposição podem ser vistos pela internet. Caso queira continuar se perturbando ao vivo e a cores, o Mac guarda surpresas que não se restringem à sua construção. Até dia 15/11 você pode ir lá, por exemplo, tentar entender o que faz um sistema digestivo gigante no meio de uma sala em formato quadricular. A Solidão entre os Ecanos 22/09/2009
Por Camila Camilo ![]() Edward Hopper faleceu em 1967 e deixou para o mundo uma obra carregada de sentimento. Nela retratou a vida cotidiana, os costumes e a sensação nostálgica, introspectiva e sensibilizada com a Segunda Guerra. ”Todas as retratações de figuras humanas, trazem sempre situações cotidianas da vida americana. Como cafés, bares, restaurantes, bistrôs, teatros, sem esquecer das residências e ruas. Hopper retratou desde mulheres da alta sociedade até agricultores dos campos de trigo”, diz Carol Strickland, em Arte Comentada: da pré-história ao pós moderno. Fora de sincronia com o lema dos “homens bravos e fortes” da época, seus quadros expressam, sobretudo, a SOLIDÃO. E esta triste senhora não o abandonou, nem a seus quadros. Pelo menos em ambiente ecano, onde sete réplicas, incluindo algumas das obras favoritas do autor, como Cape Cod Morning (1950) e Nightawks (1942) estão disponíveis à admiração coletiva. Em um corredor iluminado (eu falei que a luz era o principal componente das obras do Hopper? Ah, não? Então, mas era. Em uma entrevista para a The artist’s voice em 1965, ele disse considerar “a luz uma força expressiva importante, mas não de forma demasiado consciente. Penso que para mim ela é uma expressão natural”) no CCA – Departamento de Comunicação e Artes. Fica no segundo andar do prédio principal da ECA, aquele maior de todos, com um totem charmosão na frente. Lá, as mulheres criadas pelo pintor, muitas delas tendo a própria esposa como modelo, olham para o nada. Ninguém as admira. Ninguém as nota. Ninguém repara que se debruçam no parapeito da janela, não para fofocar ou comentar o maior babado da última festa ou a vestimenta dos professores doutores que têm sala no local, mas porque este é um momento de pausa, quando se olha pro chão lá embaixo e nada se vê, somente a própria combustão interna. Você já deve ter se sentido assim em algum momento. Parado, olhando, mas não necessariamente vendo o que acontecia na rua à sua frente, e necessariamente sentindo o seu invisível particular. Dezenas de pessoas passam por lá, algumas trabalham por perto, e ninguém pára para olhar, sentir e sair diferente. Os personagens de Hopper, característicos homens e mulheres da vida urbana, estão como muitos dos que não os vêem, sem notar o quanto tem em comum: sozinhos, ainda que em posição privilegiada. E não é um típico discurso das mulheres ecanas reclamar da solidão? Pois é garotas, vocês não são as únicas nessa. Mas as mulheres de Hopper sofrem por amor? E aquele papo de que ele retratava a angústia e a nostalgia de quem vive nas grandes cidades?Elementar minha cara, mas quem sabe de onde vem tanto sentimento? E emoção é sempre emoção, ainda que impulsionada por razões diferentes, não?! Você até pode me dizer: -Mas, peraí é só uma réplica. Ninguém se mexe para ver uma réplica. Pois eu me apaixonei por Hopper há um tempo atrás, justamente porque parei para olhar uma réplica neste mesmo corredor. E “Morning Sun” estava lá, cheia de coisas pra me contar. Cara pessoa que me lê neste momento, tudo a favor do seu ócio. Tudo a favor do seu entretenimento banal. Mas nadica a favor do desperdício de vida que é ter tão perto coisas tão bonitas e não ver. Mesmo que sejam cópias. Vai lá, dá uma passada. Pára. Sente. Quem sabe você não se empolga, se apaixona e corre atrás da original? Quem sabe você não se identifica, repensa algumas coisas e vence a própria solidão? Sim porque se você acha que arte não pode mudar sua vida, espere até os próximos posts desta editoria. *E experimente. Sempre. | "A arte saiu da caverna e caminha em direção ao divino. É o Deus que há em nós, a grande mola que propulsiona o homem para a frente e para cima."
(Olga Savary) Gostou?Já passou
July 2010 Categorias |






























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