História escrita em tinta 04/07/2010
Quem entra na sala de exposições do Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP) se vê frente a frente com um pesado legado histórico. Pulsos algemados, rostos cadavéricos e gestos intensos marcam as obras produzidas durante a ditadura militar, que despertam uma sensação um pouco indefinida – sufocamento, indignação, um medo vago, mas ainda presente - até em quem não sentiu na pele a violência do período. A exposição “Entre Atos: 1964-1968” estabelece dois marcos fortes, o golpe militar e o AI-5, para discutir este momento delicado da nossa história, com o qual ainda não conseguimos lidar – como prova a polêmica sobre a abertura dos arquivos do regime ou a relutância em discutir a Lei de Anistia de 1979. Mais do que isso, a mostra faz parte de um projeto sobre a constituição do acervo do MAC, fundado justamente um ano antes do golpe de 64. Ana Magalhães, curadora da exposição, explica que “o Museu representou um espaço de experimentação ativo, de livre pensamento e intercâmbio entre os artistas”, mesmo num contexto de duras restrições à produção cultural, e assim conseguiu reunir um acervo importante de arte contemporânea. ![]() Limite, 1967, Avatar da Silva Moraes A parte do acervo que está exposta foi dividida em três grandes blocos: Forma, Gesto e Plano, que possibilitam uma interpretação mais aberta, libertando as obras e o público das categorias tradicionais estabelecidas pela história da arte. O primeiro módulo, Figura, é, à primeira vista, o de conteúdo mais explicitamente político. A caveira ou o rosto magro e sofrido é recorrente, assim como a referência direta ou metafórica a situações de tortura e o uso de tons sombrios, em especial o preto e o vermelho. As obras “Caixa 5” e “Caixa 6”, de Avatar da Silva Moraes, dão ao espectador uma ideia do que a classe artística sentia no período: cabeças presas em caixas. A da “Caixa 5” é comprimida por duas prensas. A da “Caixa 6” está escondida por trás de teias e é acompanhada de um espelho – poderia ser você. Já na “Série do Futebol”, de José Roberto Aguilar, jogadores sem rosto e bandeiras do Brasil manchadas de preto e vermelho contrapõem a alegria típica do futebol ao momento negro da vida social e política. Bem apropriada para esta semana pré-Copa. Já o módulo Gesto lida com obras mais abstratas, mas que não deixam de refletir de forma bastante clara o momento crítico vivido pelo país. Waldemar da Costa, por exemplo, representa na tela “Estático Semovente XIII” uma bandeira do Brasil formada por retângulos que parecem prestes a ser engolidos por uma grande mancha negra. O gesto brusco, intenso, carregado, o traço rápido, a mancha, a desordem, as camadas espessas de cor despertam a sensação do caos tanto quanto as figuras da sala anterior. O último bloco, Plano, pode parecer um contraste brusco em relação aos dois primeiros. As telas de Arnaldo Ferrari e Mira Schendel são mais geométricas e organizadas, com cores mais vibrantes em espaços nitidamente delimitados. Ana explica, entretanto, que não se deve ver nesse tipo de experimentação com a forma uma alienação em relação à política: “esse tipo de linguagem artística foi associada à ideia de um campo totalmente autônomo da arte, que nada tem a ver com a vida. Mas o debate não é só estético. É um projeto maior, um projeto utópico, de transformação da vida”. Projeto este que não teve seu espaço nem com o final do regime. Muitas das questões abordadas por estes artistas ainda ficam sem resolução. “O Brasil ainda está por constituir melhor este debate”, diz Ana; “me parece que nós vivemos, do ponto de vista social, político, econômico, uma situação que nos remete ao ambiente das décadas de 60 e 70. Há uma tendência a estruturas mais conservadoras, a métodos cada vez mais rígidos de controle social. Ao mesmo tempo em que vivemos um processo de globalização, as fronteiras se erguem de forma mais evidente do que nunca”. Mais do que uma reflexão histórica, o contato com estas obras nos remete ao nosso próprio momento. Talvez seja este o motivo daquela sensação estranha que se tem ao entrar na sala. É um pouco assustador, mas necessário. CommentsLeave a Reply | "A arte saiu da caverna e caminha em direção ao divino. É o Deus que há em nós, a grande mola que propulsiona o homem para a frente e para cima."
(Olga Savary) Gostou?Já passou
July 2010 Categorias |






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