Refluxo na tomada 20/10/2009
por Yasmin Abdalla ![]() Mais uma quinta-feira que ameaçava chover e mandava o vento frio anunciar as nuvens que se formavam. Apesar de ser a prainha, que o pessoal da ECA-USP insistia em chamar assim, de nada se parecia com uma praia. Apenas os coqueiros e a movimentação das pessoas davam a vaga lembrança de um litoral. Tinham orgulho de serem independentes. Compraram todos os instrumentos necessários para que precisassem apenas de uma tomada para tocar. E ela surgiu ali no canil - os ecanos eram assim mesmo, davam nomes por ai, sem o menor sentido aparente. Um lugar com um teto rebaixado e um formato circular. Um lugar que convidava as pessoas; convidativo até o teto. A Banda Refluxo iria tocar lá. Luci, com seus olhinhos puxados e suas sandálias marcantes, andava de um lado para o outro. Fios eram desembaralhados e instrumentos afinados. Uma luz fraca pairava sobre o lugar. Marcelo também não parava quieto. Com um visual mais sereno, mexia concentrado no computador. Fora de lá, percebiam que a QuintaiBreja começava a lotar. Era preciso trabalhar. Uma mistura de rock e eletrônico marcava o som da banda. Um turbilhão de notas e melodias chegava aos ouvintes. Eletricidade em forma de música. Luci comandava o baixo, Marcelo a guitarra. Solos e duos bem administrados. E esse rock todo regado de uma batida forte vinda do computador. Os dois cantavam. Os dois se bastavam. “Fazemos tudo juntos, ensaiamos em casa, é tudo mais fácil quando estamos sós”. ![]() Marcelo Mandaji e Luci Hidaka eram designers em uma agência de publicidade. Poderiam ter uma relação como qualquer outro colega de trabalho, mas entre eles existia muito mais do que o design em comum. Não demorou muito para eles se tornarem mais próximos. "Soluço de novo", contava ele já com aquela cara de desânimo, e ela meio sem pensar rebatia imediatamente, "Refluxo!". Coincidência ou não, os dois sofriam de problemas gástricos. Combinavam em tudo. Principalmente no desejo de fazer música, que foi o que os uniu. Uniu tanto que eles namoraram e casaram. Ela era DJ, e ele era baixista da banda Debate. Eletrônico e Rock, influências diferentes que deram um tempero todo especial para o casamento e para a nova banda que surgia. Marcelo e Luci decidiram que o desejo de tocar deveria extrapolar o quintal de casa, e extrapolou. Hoje, o casal faz tudo junto. Saíram da agência de publicidade e criaram sua própria agência. Trabalham com design interativo. Além dos shows da Banda Refluxo, eles produzem com alguns amigos o netlabel Okiru . Apesar de sempre juntos, eles têm alguns projetos individuais, que também envolvem música. Luci participa de um projeto chamado synthesizemii do qual produz musica eletrônica com Nintendo Ds. Já Marcelo é produtor eletrônico. Fazendo tantas coisas juntos é difícil não surgir brigas, mas com eles, parece ser diferente. “Geralmente, a gente não briga, quando brigamos é pela banda” fala Luci, “mas a gente tenta não levar isso para o casamento, quando do ensaio, já tentamos esquecer a briga, assistir um filme juntos, algo assim”, completa Marcelo. Vida ocupada, mais projetos em mente. Os dois são de longe, acomodados. Refluxo, por enquanto, tocou apenas no Estado de São Paulo, Luci e Marcelo sonham em fazer shows pelo Brasil. “Até agora só tocamos no interior, queremos viajar”, disse Marcelo. Um disco da banda é o próximo sonho que o casal pretende realizar. *Show realizado em São José dos Campos Luci e Marcelo tocaram e cativaram na ECA. Eles combinaram com o local. Com o canil, com a prainha, com a USP. Se você gostou da banda, confira seu myspace (www.myspace.com/refluxo), lá você pode conferir a agenda e escutar algumas músicas da banda. 1 Comment Tropicalismo paulista de imigrante 07/10/2009
por Christiane Silva Pinto Quarta-feira à noite. Umas 21h15 aproximadamente. Rua Maria Antônia, 294. TUSP. Ninguém no hall de entrada do teatro. “Que estranho. Talvez seja por causa do meu atraso”, penso - o show estava marcado para começar às 21h. Balcão de informações. O simpático segurança diz que é só descer até o subsolo, virar à esquerda e depois à direita. “É só ela que vem, né? Não tem mais ninguém?”, pergunta a outro segurança, ao trancar novamente a corrente que abrira para me deixar passar. Como assim não vem mais ninguém? Não é possível! A banda está lançando o CD e só eu vou ver? Ai que vergonha, acho que vou embora... ![]() Tudo isso passou pela minha cabeça enquanto descia as escadas rumo ao auditório. Certo receio invadia todo o corpo até que empurrei as cortinas pretas. Tudo novo. A sala estava cheia, lotada; não tinha nem lugar para sentar. O som que chegou aos meus ouvidos era novo, era outro. E o cenário, ah, o cenário era lindo. A decoração era vibrante; luzes e cores que acertavam em cheio nossos olhos. E no meio e tudo isso, a banda, Dr. Morris e os Vivos. ![]() Sentada na escada, observava tudo. Prestava atenção em cada música, cada gesto, cada frase, cada reação do público. O som transitava por vários estilos, do ska ao samba-rock passando pelo drum’n bass e flamenco, sendo definido pelo próprio artista como tropicalismo paulista de imigrante. Muito boa a definição. Aquele tipo de coisa que só encontramos nas noites paulistanas. “É impressão minha ou essa música tem uma pegada árabe, uma coisa assim do deserto?” Genial. ![]() A cada minuto que passava sentada ali naqueles degraus fui ficando meio fã, confesso. Adeus objetividade jornalística! Deu uma vontade de ter ido a todos os outros shows da banda. Já era dia 30 de setembro, a última apresentação. Eles estavam em cartaz no TUSP com o lançamento do CD “5” desde o dia 02, se apresentando todas as quartas, cada semana com convidados diferentes. Cada música fazia com que viajássemos a um lugar diferente e que tivéssemos impressões e emoções diferentes. Do bolero ao samba, letras em espanhol, em português e em qualquer outro idioma que nos fizesse entender que a música é livre, não tem limites. Prova disso era a presença da galera da Maracujá Laboratório de Artes, que fazia intervenções visuais enquanto a banda tocava, além do DJ que também dava seu toque especial. ![]() Crianças dançando O som era tão contagiante que logo todos foram se sentindo à vontade. As crianças resolveram mostrar a que vieram e começaram a dançar. Com a espontaneidade que só elas têm, fizeram sua roda de ciranda ali no palco mesmo. E quem é que ia achar ruim? Algo tão bonito, tão verdadeiro que as mães, ao invés de dar bronca e as mandar sentar, levantaram e se juntaram a seus filhos, sambando e dançando também, crianças de novo. Mais duas músicas e o show acabou. “Ah, logo agora que eu já estava levantando para dançar também?!” Eles agradeceram, saíram, fizeram aquele charminho e voltaram para cantar a última música. Bota Água com participação do convidado Junio Barreto. Agora sim, acabou mesmo. Saio com aquela sensação de noite bem aproveitada e com um plano na cabeça: chegar em casa, entrar na internet e baixar todas as músicas da banda. Quer escutar algumas músicas do Dr. Morris e os Vivos? Veja os vídeos: Da ópera ao choro 07/10/2009
por Christiane Silva Pinto O Laboratório de Música de Câmara, algo com o que os alunos de Música já estão mais do que acostumados, tornou-se a pausa do dia, a descoberta, um misto de sensações. Aconteceu ali no MAC, tão perto quanto escondido. Dia 30 de setembro, quarta-feira comum; porém ao abrir a porta, o comum logo ficou para trás e se perdeu. Pouca gente. Todos sentados assistindo atenciosamente a três alunos que se apresentavam. Eram eles: Richard Kogima ao piano, Klelya Rodrigues e Joyce de Souza cantando. Kogima concentrado no deslizar das teclas, enquanto as alunas se revezavam para interpretar canções brasileiras, além de árias e duetos de Mozart. A ópera construída pela voz das alunas somada às melodias que vinham do piano se fazia presente, forte e expressiva. Quem diria que a disputa de duas mulheres por um homem poderia se tornar tão bonita e até divertida se contada através da ópera? Sim, ela é um carrossel de emoções. ![]() Cibele e Tomás Terminada a apresentação do trio, sobe ao palco um quarteto. Era a vez de o choro entrar em cena. Cibele Palopoli na flauta, João Fideles no pandeiro e, no violão, Guilherme Sparrapan e Giovanni que não era Giovanni, mas sim Tomás, que viera substituí-lo. Pequena confusão gerada por não terem trocado seus nomes no programa da apresentação, coisa pouca. ![]() João misturando pandeiro e leveza O grupo começou com a música Flor Amorosa, de Joaquim Antônio Callado, que é considerada a primeira composição do estilo. Então tocaram Aeroporto do Galeão, de Altamiro Carrilho, que, como contou Guilherme (e depois por e-mail, o ausente Giovanni), teve como fonte de inspiração a campainha do aeroporto. Depois vieram Primeiro Amor de Pattápiio Silva, Lamentos e Um a Zero, ambas de Pixinguinha. Por fim, como não podiam deixar Jacob do Bandolim de fora, tocaram Noites Cariocas e Assanhado, clássico do chorinho. Com certeza o quarteto conseguiu trazer as noites paulistanas do Bexiga para dentro do auditório do MAC. O ar de boemia, a leveza do choro, uma roda de amigos, como o próprio grupo se mostrava. Assim como o trio que se apresentou anteriormente fez com a sala parecesse um grande teatro, daqueles por onde as mais belas óperas já passaram. Neste momento é que se prova o poder da música: levar qualquer um a qualquer lugar, elevar a alma, silenciar o pensamento, atiçar os corpos. Curiosidades (e fofocas) do choro Por e-mail, Giovanni Matarazzo, o integrante ausente, contou algumas curiosidades sobre esse estilo musical que chamamos carinhosamente de chorinho: - O nome choro vem da maneira "chorada" como as melodias são compostas. Um dos primeiros compositores a utilizar o nome choro em sua obra foi o flautista Joaquim Antônio Callado (fofoca: provavelmente namorou Chiquinha Gonzaga, pianista e compositora). - O violão de sete cordas foi introduzido no choro por um musico de nome Tute, e posteriormente utilizado por China, irmão de Pixinguinha. O instrumento é considerado de fundamental importância para o gênero para fazer o que se chama, entre os músicos, de "baixarias", ou seja, contracantos graves feitos sobre a melodia. - O bandolinista Jacob do Bandolim detestava o cavaquinista Waldyr Azevedo, autor de Brasileirinho e de Baião Delicado, considerado por Jacob na década de 50 como o fundo do poço da música brasileira (fofoca: provavelmente Jacob se via injustiçado por fazer músicas tão boas quanto as do colega e não ter a mesma visibilidade, pois não era tão "comecial"). - Certa vez, Pixinguinha foi convidado para tocar na casa de um diplomata que acabara de chegar da França. Por ser negro, fizeram com que ele entrasse pela porta dos fundos. Ao saber disso, o dono da casa se lamentou tanto que Pixinguinha compôs a música Lamentos. Quer saber como a música ficou? Assista o vídeo: | "O vaso dá uma forma ao vazio e a música ao silêncio
- Georges Braque Gostou?Já passou
May 2010 Categorias |













