Monólogo a dois 11/11/2009
por Alexandre Dall'Ara Apresentada no anfiteatro professor Dr. João Yunes da Faculdade de Saúde Pública, visivelmente não preparado para apresentações de teatro, a peça não prometia muito. O público de nove pessoas (incluindo este que escreve) desfazia qualquer idéia de grande evento. Um cenário de caixas de madeira, um pequeno tatame e uma atriz no palco. Era tudo. A simplicidade da montagem, entretanto, contrasta com a qualidade técnica logo na primeira cena e tudo começa a se transformar! ![]() Belos movimentos inspirados pelo Aikido (arte marcial japonesa) fazem o corpo da atriz (Renata Mazzei) dançar no palco. A rotina ordinária de uma mulher que se veste, maquia, perfuma ganha ares ritualísticos e, a partir dessa abertura, o cenário se multiplica, ganhando novas formas e significados, a precariedade do anfiteatro desaparece, a platéia vazia só faz aproximar-nos da cena e identificarmo-nos intimamente com a personagem. Mais impressionante, porém, é como um monólogo consegue apresentar dois personagens. A mulher abandonada pelo marido o traz ao palco por meio de suas lembranças de modo impressionantemente vívido e ainda mais longe, a coreografia da personagem consegue dividir seu corpo em dois (como no título: Separação de corpos), ou melhor, representar, em um só corpo, o casal em separação. ![]() O único acessório usado para o efeito é um pano branco, que por vezes envolve a mulher como os braços do amado e, em uma cena interessante, leva-a ao orgasmo. Não se faz necessário o típico e cansativo uso de duas entonações diferentes (a do homem e a da mulher). Tudo cabe apenas no corpo dela, na sua voz, nos seus olhos e no silêncio que se segue às falas do diálogo sem resposta. A ausência física do homem, ou de qualquer imitação simplista, é ainda mais rica se percebida como um recurso formal que nos arrasta para o papel da protagonista. Somos capazes de sentir a presença dele, mas, mais importante, a falta, a lacuna, a saudade deixada pelo personagem ausente. O silêncio dele também impele a dor de quem discute sozinho, como nas conversas de fim de relacionamento em que a conexão já se rompeu e não há mais comunicação. Sentimos a angústia daquela que foi abandonada e se frustra a cada nova tentativa de restabelecer um diálogo com o outro. A protagonista se vê, por fim, sozinha no palco. Assim como nós, sozinhos na platéia. Um tema comum, uma visão subjetiva de um relacionamento amoroso, e um monólogo com poucos recursos se tornam interessantes e deixam o sabor de ter visto algo diferente acontecer no palco. Os nove presentes na platéia deixam de ser poucos e tornam-se cúmplices na descoberta de algo único, particular. . 2 Comments | "Há casos em que o teatro, como meio de reunião pública, ainda pode veicular uma percepção aguçada acerca da injustiça, demandando tolerância e compreensão."
- Hans-Thies lehmann Gostou?Já passou
May 2010 Categorias |






