Só saio do meu Brasil no último pau-de-arara 19/05/2010
Calma! Antes de ler esse texto, deixe tocar a música acima. Pronto, agora lembre-se da viagem que fez ao nordeste – mesmo que tenha sido numa daquelas formaturas em Porto Seguro -, lembre do sutaque gostoso, do sol... agora sim, vamo lá: Assistir a “Concerto de Ispinho e Fulo” não é uma experiência comum, certamente não se assemelha à vivência típica de passividade do público diante do espetáculo. Logo na entrada somos surpreendidos ao entrar no cenário. A plateia acomoda-se dentro do palco, ou melhor, não há palco. Os assentos dividem-se ao redor do espaço que será compartilhado com os atores. Surpreendeu-me mais ainda um aviso. Diante da desorientação das pessoas ao encontrar um refletor repousando em todas as cadeiras da primeira fileira um membro do grupo orienta: podem se sentar e colocar o refletor no colo! A Cia. Do Tijolo, criada para esse projeto que homenageia o centenário do nascimento de Patativa do Assaré, usa os conceitos de Paulo Freire para idealizar a produção. A própria concepção do nome da companhia vem do famoso exemplo da alfabetização de um grupo de pedreiros, no qual o educador começa o ensino a partir da palavra tijolo, objeto próximo daquelas pessoas. Assim também se dá a estrutura da montagem. Começando por uma rádio, que conecta São Paulo a Assaré, os atores nos propõem entrar num universo desconhecido, tanto para nós quanto para eles. Enfatizada numa interessante cena em que os atores representam um encontro fictício com o poeta, a sensação de distância e desconhecimento da vida do nordestino, cantada por Patativa, e a universalidade do sofrimento humano, também presente na obra do poeta, é uma tensão sempre presente. Como falar do sofrimento que não se conhece? Da fome que nunca passou? Do chão em que nunca se pisou? A essas questões o grupo respondeu indo ao nordeste algumas vezes separadamente e contando experiências de vida que os conectam com aquele universo. Dinho Lima Flor é o único nordestino do grupo e um dos fundadores junto com Rodrigo Mercadante, Fabiana Barbosa e Rogério Tarifa. Mas a montagem, ainda nessa linha de aproximação com a cultura nordestina já se apresentou em cidades como Recife, Caruaru, Nova Olinda, Crato, Juazeiro e até na própria Assaré, terra do agricultor poeta homenageado. A peça surgiu do interesse de Dinho pela obra de Patativa do Assaré numa temporada em Nova Olinda com o grupo Casa Laboratório. Ela começou como um show musical apresentado em 2007 na chopperia do SESC Pompéia e depois foi encenada, com a direção de Rogério Tarifa, ao ganhar o concurso do Proac (Pograma de Ação Cultural da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo), estreando no SESC da Av. Paulista e viajando depois pelo interior do estado. Ao todo, foram por volta de nove messes de ensaios. Rodrigo, com passagem pela CAC e formado pela EAD, conta que o eixo central é o poema a Morte de Nanã, justamente por tratar de um tema universal, a dor da perda de uma filha. Isso como ponto culminante de três pilares: a vida e a obra do poeta, os depoimentos pessoais dos atores e a história do nordeste – representada pela destruição do povoado de Caldeirão, um fato histórico pouco conhecido do público e que nos faz querer correr para os livros de história, outros que também costumam o ignorar, entretanto. Assim, a estrutura foge da simplicidade de apenas narrar a vida de Patativa, ela vai além, envolvendo e aproximando o público de uma realidade estranha, mas também nossa, do nosso país, do nosso povo! E se isso parece um pouco pesado para um programa de fim de semana, não se aperreie, a cachaça, a cajuína e o cafezinho (servidos durante a peça) garantem o consolo para os expressivos tormentos da alma... *A peça fica em cartaz no TUSP até dia 30 de Maio. Veja a programação aqui. Add Comment Exercício de sedução 06/05/2010
Uma avó cega, que cuida da neta desamparada pela mãe adúltera e suicida. A avó promete a neta em casamento para o filho de seu amante. A neta, Suzana, que renega o compromisso da avó, casa-se com outro, ouvindo a fúria da velha cega: “Tem mulher que só encontra sossego na morte, porque nem no casamento encontra!” Não surpreende a ninguém que um enredo desses tenha como inspiração uma obra de Nelson Rodrigues (o romance Minha Vida, publicado sob o pseudônimo de Suzana Flag). O que surpreende é a oportunidade de ver um trabalho desses em pleno processo de construção. Àqueles fiéis expectadores de peças teatrais que nunca se aventuraram pela arte de fazer um espetáculo, a criação de uma montagem guarda inúmeros fascínios. Para além das entrevistas batidas com atores globais e seus métodos de criação por “laboratórios”, surge a curiosidade sobre o complexo trabalho do ator. Os questionamentos sobre as estruturas cênicas, as falas, as entonações, o figurino, a direção, todos esses processos muitas vezes não chegam à platéia, que vê apenas o resultado final, depois de muito trabalho e ensaio. ![]() As atividades do CEPECA (Centro de Pesquisa em Experimentação Cênica do Ator) são muito esclarecedoras nesses pontos. Com reuniões semanais às quintas-feiras no departamento de Artes Cênicas da ECA-USP, o centro ofereceu-me uma oportunidade rara. Cheguei à sala onde os atores-pesquisadores se reúnem, sob a tutela de Armando Sérgio da Silva, o professor responsável, após o intervalo do almoço e me deparei com dois cenários de um quadro ainda em processo de idealização. Nesse encontro, do último dia 29 de abril, Rejane Arruda apresentou duas cenas vinculadas à sua pesquisa de doutorado. Elas farão parte do primeiro quadro de um espetáculo (com mais outras duas partes) ainda sem nome definido a ser apresentado no teatro laboratório da ECA, com previsão de estréia para março do próximo ano. Durante a apresentação, Rejane explicava alguns elementos da montagem que não estavam lá, como projeções de fotos de família e músicas, questionando o grupo sobre a escolha das falas, dos elementos cênicos, do acerto quanto às opções tomadas. Usando a técnica de “anteparos” para sua criação, a atriz apresentou o trabalho como um “exercício de sedução”, pois ele teria o intuito de atiçar a curiosidade dos expectadores para ver o resultado final da montagem. Interpretando a avó cega, Rejane carregava um bastão repleto de bonecas, que ao mesmo tempo indicava a relação com a neta e curvava suas costas com o peso dos brinquedos, servindo de anteparo para representar a postura da velha. “Anteparo para nós é todo elemento exterior a cena e exterior à personagem (pode ser uma música, um texto, imagens, uma máscara, um som, ou o que for), desde que utilizado pelo ator para concentrar seu foco de atenção durante a improvisação. Seu uso acaba potencializando o jogo cênico entre ator-ator e ator-espectador.” ![]() Suas experiências pessoais abundam pelas cenas, permitindo a ela usar de seu arcabouço de vivências para a criação artística. Fotos da família, áudios de sua infância povoam o cenário e a sonoplastia, enquanto lembranças de sua avó a auxiliavam na interpretação dos movimentos da personagem e memórias do marido lhe permitiam dar vida à relação de Suzana (a neta) com uma escada, ali presente como o parceiro da personagem. A riqueza desse diálogo estabelecido na sala era evidente. Os bastidores do teatro estavam lá, abertos, escancarados. O mecanismo de criação de significados de uma montagem em vivo processo de funcionamento. Os espectadores eram levados a imaginar a cena, a partir dos fragmentos ainda incompletos da montagem em construção e colaboravam com idéias, sugestões, debatiam a eficácia, outras opções possíveis... O CEPECA está em funcionamento desde 2006 e agrega um conjunto de atores-pesquisadores, cada um com seu projeto de pesquisa. No site da instituição é possível encontrar os blogs dos pesquisadores e acompanhar a evolução de seus trabalhos. O centro lança ainda um livro neste mês, com a tese de livre docência do professor Dr. Armando Sérgio. Faz parte dos planos também o lançamento de um DVD e uma revista eletrônica, sempre pensando na divulgação dos trabalhos do centro, que, com o mesmo intuito, apresentando-se na Mostra Experimentos do TUSP desde 2008. MOSTRA EXPERIMENTOS 2010 21/04/2010
“Uma parcela significativa do teatro que se faz na cidade se São Paulo provém (de distintos modos) do ambiente universitário”, diz o folheto da MOSTRA EXPERIMENTOS, em cartaz no TUSP até quatro de maio. A mostra, que está na sexta edição, no seu início tinha apresentações apenas do CAC e da EAD, as escolas de nível superior e técnica, respectivamente, em artes cênicas da USP. Depois, ela cresceu e passou a ser aberta para outras escolas, com foco nas instituições públicas de teatro do estado de São Paulo, sendo as principais parceiras a Unesp, a Unicamp, a Escola livre de teatro (ELT) e a Fundação das Artes de São Caetano do Sul (FASCS). Nesse ano também houve uma mudança quanto à seleção dos trabalhos, que eram selecionados e indicados pelas escolas participantes, e agora passam a ser escolhidos por professores do CAC e da EAD. A mostra tenta criar um diálogo entre a produção teórica e prática do teatro e o seu público, promovendo, além das apresentações, diálogos com a platéia. Com essa intenção a programação inclui pelo menos um debate por semana, normalmente às segundas-feiras, para permitir a presença de profissionais do teatro que estejam em cartaz com suas produções. Os debates não estão incluídos na programação justamente por contar com essas participações, que nem sempre podem ser confirmadas com antecedência, mas são divulgados na bilheteria no próprio dia em que ocorrem. Os três eixos em que os experimentos são divididos não são gratuitos. Essa divisão foi implementada desde a mostra de 2008, de acordo com René Piazentin, orientador de arte dramática do TUSP, e serve para diferenciar os trabalhos: Os exercícios cênicos seriam as apresentações mais próximas de trabalhos prontos para entrarem em cartaz - muitos inclusive já vêm de uma temporada anterior, como é o caso de “Madrid 36”, antes em cartaz no teatro laboratório do CAC, na cidade universitária. Os ensaios são trabalhos normalmente vinculados e uma pesquisa de pós-graduação, incluindo até apresentações teóricas. Nesse ano figuram como ensaios “Um Olhar de Medusa” que propõe uma provocação ao expectador de teatro e também o CEPECA (Centro de Pesquisa em Experimentação Cênica do Ator da ECA), sob a orientação do Prof. Dr. Armando Sérgio da Silva, que mostrou experimentos como “a musicalidade do ator” e “improvisação a partir de estados corporais”. Os estudos abrangem trabalhos em vários níveis, às vezes montagens mais acabadas, às vezes ainda em fase de ensaio. Esses trabalhos também costumam ser vinculados a uma disciplina, sendo feitos a partir de, ou como resultado de uma disciplina. Um bom exemplo de trabalho trazido pela mostra é a peça “O Que Não Disseram” da FASCS, já que ela segue a proposta de estudar as relações com a metrópole e faz uma crítica ao modo de vida mecânico levado por nós. Ela divide o mundo entre aqueles que são regidos maquinalmente pelo tempo e os que se permitem viver de forma mais livre, permitem-se sonhar. Assim, a montagem se torna não apenas uma reflexão sobre a cidade, como também abre um espaço importante para a discussão do papel do teatro nessa reflexão, cumprindo a proposição do TUSP de ser um espaço de diálogo entre a academia e a sociedade, sempre passando pelo território livre do palco. *Veja a agenda do TUSP Nada mais aristotélico do que uma palhaça 23/03/2010
"De mim, conto. Como é que se pode gostar do verdadeiro no falso?" ![]() Como juntar física quântica, neurociência e a tradicional arte do palhaço? Pergunte à Melissa Panzutti. Ex-aluna do CAC, formada em 2002, Melissa surpreendeu o público que esperava para assistir a mesa redonda “Artes do Espetáculo”, no auditório do Museu de Arte Contemporânea (MAC), com sua apresentação da “Palestra de Neurociência”. De forma despretensiosa a atriz, vestida de palhaça, apresentava-se como uma espécie de psicóloga, pronta para resolver os problemas emocionais mais comuns nos dias de hoje. Depressão? Ansiedade? Estresse? Nada que um dos seus “mecanismos” não resolva! Eles parecem simples sacos de pano com algumas quinquilharias, mas os rostos daqueles que experimentam usá-los contradiz essa simplicidade. Há aquele para quem precisa de férias, com conchas, areia e a tranqüilidade da praia; outro para os excessivamente auto-críticos, com plumas dentro, que permite a auto-flagelação à vontade (sem riscos para as costas, além das eventuais cócegas); para os nervosos e irritadiços, existe um especialmente projetado para se gritar tudo quiser (até o indizível!) e depois retirar uma frase transformadora (espera-se!), como a que inicia esta matéria; por fim, um artefato um tanto curioso: uma espécie de cruzamento entre tampão de ouvido e venda, que, garante a palestrante, é capaz de tornar a convivência consigo mesmo tão agradável que a solteirice pode se tornar uma interessante opção! ![]() “De verdade a gente se transporta”, diz Ana Lúcia Ferraz, que já havia assistido ao quadro anteriormente e foi cobaia do tal saquinho das férias. Mas, de certa forma todos eles pretendem transportar os espectadores para outro lugar, alterar seu estado psicológico, descarregar as tensões num interessante exercício catártico. Se me permitem a pedantice, o dicionário Houaiss define o conceito aristotélico de catarse como a descarga de desordens emocionais ou afetos desmedidos a partir da experiência estética oferecida pelo teatro, música e poesia, ou seja, nada mais aristotélico do que uma palhaça! Em meio às gargalhadas, entretanto, engolimos sem dor citações de Clarice, Guimarães, Nelson Rodrigues, além de resultados dos estudos da atriz nas áreas de neurociência e física quântica (incluindo uma referência ao filme “What the bleep do we know”). O Escuro dos Bastidores 23/03/2010
Às 20h20 cheguei ao Teatro da USP, pouco mais de uma hora antes do início do espetáculo, marcado para as 21h30. Como combinado, fui me atrever nos bastidores da montagem. Diante das poltronas vazias, o palco também exibia sua nudez. O diretor Leandro Moreira dava os ajustes finais no cenário, limpava algumas partes, remexia a água da piscina instalada ao fundo do cenário, criando uma bela reflexão da água em movimento na parede posterior do palco. Os atores ainda se trocavam. Enquanto a luz era testada abusei da hospitalidade do grupo Companhia Hiato tratando de registrar ângulos interessantes do cenário vazio, mas antes mesmo de terminar fui surpreendido pelos atores entrando no palco para seu aquecimento. Um processo encantador para aqueles que se questionam sobre a encarnação dos personagens. Falas eram repassadas, gritos, urros e danças esquentavam e preparavam aqueles corpos prestes a se entregar à adrenalina da cena! O teste de luz, as músicas e a energia criavam uma atmosfera envolvente, que prenunciava o forte trabalho a ser exibido. ![]() Reunidos em círculo, mãos dadas. Vai “bombar”, vai “bombar”....merda! Silêncio. Calma e serenidade tomam a sala para a entrada do público inocente, desavisado. É como se aqueles “meninos” arteiros e animados se escondessem na coxia prontos para surpreender a multidão que lotou o teatro numa noite de quinta-feira. De fato surpreenderam, pelo menos a mim. O público se senta, é envolvido pelo silêncio e depois, a luz azul e os sons de gotas d’água nos submergem numa piscina, como aquelas que ocupam lugar de destaque no palco e no enredo. Pronto, enfim começamos! “Escuro” trata de deficiências. Cego, míope, surdo, fanho são alguns dos personagens. Acompanhamos a dificuldade de comunicação e interação social experienciada por eles. Mas numa estratégia incomum, os diálogos por vezes são substituídos pela fala para manifestar a real intenção do interlocutor: os personagens param e encaram a platéia, calam-se para nos dizer os pensamentos, seus desejos, suas reais intenções, a dificuldade de se comunicar – de certa forma a montagem procura decifrar o campo do não dito, expor o diálogo interno que travamos com nós mesmos. Numa experimentação da linguagem cinematográfica, de acordo com Leonardo, as cenas se repetiam várias vezes, cada vez de um ângulo diferente, pondo em destaque os personagens que antes estavam em segundo plano e vice-versa. Assim, elas chamam nossa atenção para os diversos ângulos realidade. Porém, mais surpreendente que o tema, ou a constituição das cenas é o nosso reconhecimento com a dificuldade dos personagens, a dificuldade de expressão de alguns deles não nos é estranha, ela é nossa também. A falta de palavras do personagem afásico, a vergonha da estrábica, a dificuldade de expressão da muda nos parece familiar. A montagem não nos revela apenas os deficientes, ela mostra que essa deficiência também nos pertence. Não nos comove pela compaixão, pelo dó, mas pela proximidade inesperada dos personagens. Presta assim um serviço, uma tomada de consciência da condição desses deficientes, mas também da deficiência da nossa comunicação “perfeita”. A peça começou a ser ensaiada em novembro de 2008 e antes da temporada no TUSP, esteve em cartaz no SESC Pompéia. A temporada no TUSP já está encerada e agora se inicia uma turnê, com apresentações em Curitiba nesse fim de semana (27 e 28). Outra montagem do grupo, a peça “Cachorro Morto”, ganhadora do prêmio CPT (cooperativa paulista de teatro) de melhor texto ainda está em cartaz no Teatro Imprensa. Para Sentir o Chão 09/03/2010
Estudante da USP anda. Anda até o bandejão, corre para a optativa, passa nos bancos, aproveita a tarde na praça do relógio, a sessão gratuita do cinusp... mas quanto tempo você já dedicou a sentir o chão em que pisa? Como seria afastar as cadeira das salas de aula e deitar-se para ouvir os sons ao nosso redor, sentir seu corpo em contato com o piso gelado – e também um tanto empoeirado? Estranho? Não para quem costuma freqüentar os grupos de teatro e conhece bem as dinâmicas e exercícios praticados por lá. Tirar os sapatos, as meias, vestir-se com roupas confortáveis, repensar a relação com o corpo e o espaço: uma proposta reincidente em todos eles. Nada mais natural, para quem gosta de teatro, do que aquele momento em que nos sentimos tentados a praticá-lo. Numa tentativa de me aproximar das iniciativas independentes de fazer teatro na USP resolvi entrar em contato com alguns grupos. O grupo de teatro da POLI (GTP) é o mais tradicional, com mais de 55 anos de história. Ele é estruturado em seis núcleos, chegando a incluir 100 pessoas. Tem também uma sala própria: a sala preta, no prédio do biênio. Conversei com Bia Szvat, diretora do grupo, durante uma tarde de segunda-feira no jardim da faculdade politécnica. Bia entrou no grupo em 2003, num processo de reestruturação que parece trazer frutos: além de peças reconhecidas, com apresentações do núcleo profissional (verde) no exterior, o GTP teve de fazer um processo seletivo devido ao excesso de candidatos, algo inédito. A estrutura divide-se em um núcleo introdutório, o amarelo, para o qual vão todos aqueles que entram no grupo e outros cinco núcleos: verde (o profissional); preto (um grupo extra-oficial formado esporadicamente) e os intermediários azul, vermelho e laranja, iguais dentro da hierarquia, porém focados em diferentes estudos (como stanislavski, cinema e teatro, etc). ![]() Já o grupo recém criado pelo Centro Acadêmico Lupe Cotrim (calc), da ECA, pretende preencher uma estranha deficiência para uma escola de artes: a falta de espaço dedicado à prática de teatro. Por isso vem realizando reuniões todas as segundas-feiras a partir das 17h no prédio central da faculdade. Até o dia 22 do mês de março as reuniões serão abertas a todos os interessados, após essa data, os integrantes deverão se decidir sobre a participação e freqüentar assiduamente as reuniões. No dia 08, participei um tanto tímido, dos exercícios iniciais. Ao entrar na sala 205 do CCA, estranhei o amontoado de cadeiras no canto. Mas teatro não combina com cadeira, pelo menos não nos ensaios. O espaço aberto aos poucos é conquistado pelos alunos (ao todo quinze, contando com um funcionário da biblioteca, muito bem recebido pelo grupo, que não impõe restrições para participação), também tímidos a princípio, mas que não demoram a se envolver nas atividades propostas. Na física, encontrei Adriana A. D’Maschio, a Dri, estudante responsável pela criação, ainda no fim do ano passado, do grupo de lá, ligado ao Centro Acadêmico do Instituto de Física da USP (cefisma). Recém integrante do grupo da POLI, Adriana tenta conciliar os novos compromissos com a estruturação do grupo, que, ainda frágil, aceita inscrições e iniciará as atividades nesse mês. As reuniões estão previstas para as terças-feiras da 14h às 16h. Um dos estudantes de jornalismo ao justificar seu interesse pelo grupo do calc definiu-o como uma oportunidade de “parar”, de relaxar, quase como visse ali o momento do ócio criativo tão improvável na vida dos estudantes, ou pelo menos como o momento do “descompromisso”. A arte é o lugar em que tudo se torna virtualmente possível. Talvez ali as barreiras discursivas do jornalismo, os compromissos com o fato, o real sejam flexibilizados por um instante. Talvez seja o lugar onde as leis da física se confundam, onde nós as confundimos. Talvez o espaço para (des)construir os prédios, fazê-los tortos! Tortos pela beleza de vê-los cair...Mas mais importante: vê-los cair para reconstruí-los com mais certeza, num constante exercício de reflexão! Não pode passar desapercebido, entretanto, esse interesse comum que une tantos em volta do teatro. Difícil definir as razões, sem dúvida, porém independente das funções atribuídas aos grupos, se eles surgem em tão diferentes setores da universidade, não podem ser ignorados ou desmerecidos. Ligado ao grêmio da POLI, o GTP é o único mais estruturado – algo esperado, pois o grupo do Calc e da Cefisma são muito recentes, mas uma política de apoio à essas iniciativas seria louvável. Afinal, não é em qualquer lugar que se encontra tempo para meditação sobre o corpo e a vida acadêmica. * Para participar do grupo de teatro da física, mande e-mail para: teatro.ifusp@gmail.com O Espetáculo Vai Começar! 22/02/2010
por Alexandre Dall'Ara Você, que fazia teatro na escola, apresentava singelas peças para o papai e a mamãe e também para aquela tia coruja – sempre pronta para elogiar sua brilhante performance como árvore – acha que a faculdade vai acabar com esses dias de diversão na cochia? Estudante de ensino superior não tem tempo para isso? Nada mais errado! ![]() Mesmo não sendo um sortudo aluno de artes cênicas ou da conceituada EAD, você pode fazer e assistir muito teatro na USP. A universidade possui uma variada e intensa programação de teatro. Na cidade universitária, o teatro laboratório da ECA (aquele prédio onde os bixos ecanos fazem a matrícula) costuma ter peças em cartaz a partir de maio e, para você que não pode desperdiçar o dinheiro do bandejão, boa notícia: elas são gratuitas! No final do ano passado, por exemplo, a programação incluía uma peça infantil ("O gato malhado e a andorinha sinhá") e outra adulta ("O diabo de Tetas"). ![]() Mas não é só isso, a USP também dispõe do famoso TUSP, localizado no espaço Maria Antônia, no centro. Sim, aquele perto do Mackenzie. As peças do TUSP, apesar de ter ingresso cobrado são sempre baratinhas (de R$10 a R$15 reais para estudante) e são apresentadas por grupos teatrais que se inscrevem nos editais abertos pelo teatro para a ocupação de suas salas. (Falando nisso, o edital para a temporada de maio a junho acaba nessa segunda, dia 22!) O espaço ainda possui outros atrativos como cursos variados e mostras de arte (ver o guia de museus na editoria de artes plásticas) Nessa semana o TUSP está com a peça “Meninas, Corram!” em cartaz. Aliás, se você não quer perdê-la é melhor correr mesmo! A peça fica lá até domingo, dia 28. Já na próxima semana, quarta-feira (03 de março) entra em cartaz “Escuro”. ![]() Caso toda a programação não supra sua atração pelos deuses do teatro, ainda é possível participar de grupos de teatro formado por alunos da faculdade. Um grande exemplo é o Grupo de Teatro da Poli (GTP), famoso dentro e fora da universidade. O grupo tem mais de cinquenta e cinco anos de história e divide-se em seis núcleos. A partir do começo das aulas já é possível ir até a sala preta, sede do GTP, lá no prédio do biênio e manifestar seu interesse em participar. O núcleo amarelo terminou o ano passado apresentando a peça “Terror e miséria do Terceiro Reich”, de Brecht. A montagem, mesmo com poucas adaptações conseguia dialogar com a atualidade e a realidade brasileira. Espalhando-se por vários espaços da POLI, os espectadores eram levados de lugar a lugar pelos atores (aos gritos!) de modo a reproduzir o temor imposto pelos nazistas e caracterizado pelo texto de Bertolt Brecht. Diante de todas essas opções não há como sentir saudades dos teatrinhos do primário! Bixos, bixetes, veteranos e veteranas, (enfim: uspianos) o teatro vos espera! Palco das sensações 02/12/2009
Por Alexandre Dall'Ara Não espere ação dramática. Os conflitos não aparecerão e as falas não se constituem em diálogos. As senhoras no palco, entretanto, proporcionam um espetáculo diferente, surpreendente. Impossível não se sentir na casa da vó, mais precisamente na varanda daquelas casas de interior onde as senhoras se encontram pela tarde para conversar, tricotar... Mas esse tempo é distante, assim como o interior também o é para muitos. Para outros, as avós é que não são mais presentes. E aí parece residir a sutileza da peça. Ela nos traz um tempo que não nos pertence, talvez nunca nos tenha pertencido, mas do qual, mesmo assim, temos saudades. Ela preenche tão bem o imaginário dos finais de semana de nossa infância, quando ficávamos (ou não, pouco importa se essa lembrança é real ou inventada, sonhada, induzida) na casa da vovó e tudo era diferente. O sorvete antes da refeição podia, bagunça podia, sujar-se podia. A montagem se mostra, ao contrário do que se esperaria de uma peça com elenco de senhoras atrizes amadoras, inovadora. Isso porque ao invés do tradicional drama vemos em cena seqüências performáticas em que as atrizes representam não um discurso, mas um estado de espírito, uma noção muito mais complexa sobre o significado de ser velha, das experiências que brotam de seus olhares através dos movimentos com as cadeiras, através da coreografia. Entretanto, a cena, lá pelo fim do espetáculo, em que elas de fato contam divertidas histórias vem acalmar o desconforto - saudável e prazeroso para alguns, incômodo demais para outros, talvez – causado pela forma não-convencional. Cena que envolve a platéia e assim mostra-se mais acessível, mais comunicativa, mesmo que não necessariamente mais rica do que as outras. Monólogo a dois 11/11/2009
por Alexandre Dall'Ara Apresentada no anfiteatro professor Dr. João Yunes da Faculdade de Saúde Pública, visivelmente não preparado para apresentações de teatro, a peça não prometia muito. O público de nove pessoas (incluindo este que escreve) desfazia qualquer idéia de grande evento. Um cenário de caixas de madeira, um pequeno tatame e uma atriz no palco. Era tudo. A simplicidade da montagem, entretanto, contrasta com a qualidade técnica logo na primeira cena e tudo começa a se transformar! ![]() Belos movimentos inspirados pelo Aikido (arte marcial japonesa) fazem o corpo da atriz (Renata Mazzei) dançar no palco. A rotina ordinária de uma mulher que se veste, maquia, perfuma ganha ares ritualísticos e, a partir dessa abertura, o cenário se multiplica, ganhando novas formas e significados, a precariedade do anfiteatro desaparece, a platéia vazia só faz aproximar-nos da cena e identificarmo-nos intimamente com a personagem. Mais impressionante, porém, é como um monólogo consegue apresentar dois personagens. A mulher abandonada pelo marido o traz ao palco por meio de suas lembranças de modo impressionantemente vívido e ainda mais longe, a coreografia da personagem consegue dividir seu corpo em dois (como no título: Separação de corpos), ou melhor, representar, em um só corpo, o casal em separação. ![]() O único acessório usado para o efeito é um pano branco, que por vezes envolve a mulher como os braços do amado e, em uma cena interessante, leva-a ao orgasmo. Não se faz necessário o típico e cansativo uso de duas entonações diferentes (a do homem e a da mulher). Tudo cabe apenas no corpo dela, na sua voz, nos seus olhos e no silêncio que se segue às falas do diálogo sem resposta. A ausência física do homem, ou de qualquer imitação simplista, é ainda mais rica se percebida como um recurso formal que nos arrasta para o papel da protagonista. Somos capazes de sentir a presença dele, mas, mais importante, a falta, a lacuna, a saudade deixada pelo personagem ausente. O silêncio dele também impele a dor de quem discute sozinho, como nas conversas de fim de relacionamento em que a conexão já se rompeu e não há mais comunicação. Sentimos a angústia daquela que foi abandonada e se frustra a cada nova tentativa de restabelecer um diálogo com o outro. A protagonista se vê, por fim, sozinha no palco. Assim como nós, sozinhos na platéia. Um tema comum, uma visão subjetiva de um relacionamento amoroso, e um monólogo com poucos recursos se tornam interessantes e deixam o sabor de ter visto algo diferente acontecer no palco. Os nove presentes na platéia deixam de ser poucos e tornam-se cúmplices na descoberta de algo único, particular. . O canto da baleia 20/10/2009
por Denise Eloy "As águas estavam cobertas de manchas negras, que deslizavam lentamente... lentamente", já dizia o Capitão Charles Melville Scammon. A bordo do navio Léonore, no dia 10 de janeiro de 1856, o capitão e sua tripulação descobrem um tesouro escondido no Golfo da Califórnia: o santuário das baleias cinzentas, em que essas se reproduzem e tornam para morrer. É essa a história da peça Pawana, adaptação da obra de Le Clézio - Prêmio Nobel de Literatura em 2008. Dirigida por Georges Lavaudant, foi exibida nos dias 16 e 17 de outubro no TUSP. O espetáculo faz parte da programação especial do Ano da França no Brasil. A título de curiosidade, “Awaité Pawana" é o grito proferido por um índio quando vê as baleias sob o mar. ![]() Jean-Marie Gustave Le Clézio nasceu em Nice, França, em 1940. Estudou na Universidade de Bristol e no Institut d’Études Litteraires, em que concluiu seu curso de literatura francesa. Sua fama iniciou-se aos 23 anos, quando seu primeiro romance, Le Procès-verbal, ganhou o prêmio Renaudot. Além de romances, contos e ensaios, escreveu o seu único texto para teatro, Pawana. No Brasil, O Africano e A Quarentena são alguns dos seus livros publicados. Sua escolha para vencedor do Prêmio Nobel de Literatura é justificada pela academia sueca: “escritor de ruptura, da aventura poética e do êxtase sensual. É um explorador da humanidade além e por baixo da civilização reinante”. ![]() Georges Lavaudant nasceu em Grenoble em 1947. Renomado diretor francês de teatro, já codirigiu o Centro Dramático Nacional dos Alpes e a Casa de Cultura de Grenoble. De 1997 a 2007, foi diretor do Odeon Théâtre de l’Europe. Trabalhou com textos clássicos e contemporâneos e dirigiu espetáculos em vários lugares do mundo. Minha aventura começou cedo. Ao chegar ao teatro, para minha surpresa, este estava lotado. Uma fila se formava para adentrar nos subterrâneos do complexo. Pessoas de várias idades, todas com um panfletinho teatral na mão. Quando me dirigi a bilheteria, logo avistei tristemente: "Ingressos para o espetáculo Pawana esgotados". Decepção. Como eu não tinha imaginado que ia lotar, já que era gratuito? Logo escutei uma funcionária do TUSP que dizia que eles haviam orientado os convidados a chegarem cedo, devido à alta procura pelo espetáculo. Surpresa de novo. A única solução que se mostrou a mim foi sentar e esperar. Logo as cadeiras vazias de dentro do teatro ofereciam uma nova oportunidade para as pessoas que aguardavam ansiosamente lá fora. Assim, com um dos últimos ingressos, eu entrei. O TUSP havia disponibilizado uns lugares a mais, num improvisado banquinho, a frente da primeira fileira e de cara com o palco. Aquilo, para mim, foi melhor do que ter um lugar reservado. O cenário era simples. O fundo e o chão pretos. Uma tablado de madeira, numa espécie de passarela, se alongava na nossa frente e uma pequena brecha se mostrava com um tecido branco lá atrás. Quando a peça começou, uma luz azul a pintou. Nada mais apropriado. Eis que entra pelo ancoradouro, com uma roupa simples (calça, blusa, gorro e pés descalços), o marinheiro do porto de Nuntucket, John. Ele conta, com os olhos brilhando de um sentimento desconhecido, como sua paixão pelo mar e por seus mistérios começou. Fala de quando era jovem e sonhava em navegar. Sofre com seu amor pela índia Araceli, seu encanto em terras desconhecidas. Brilhante, Otávio Martins o interpreta. ![]() Otávio Martins é ator, diretor e dramaturgo. Nasceu em Campinas, em 1970. Em 1993, estreou seu primeiro espetáculo, a comédia After Magritte, de Tom Stoppard. Dentre os vários trabalhos, ele já atuou em A Máscara do Imperador, de Samir Yazbek; Os Jogadores, de Nikolai Gogol; Vestir o Pai, de Mário Viana; Santa Joana dos Matadouros e Ensaio Sobre o Latão, ambas de Bertolt Brecht. “Como alguém pode matar aquilo que ama?” “Como alguém ousa amar aquilo que matou?” É com sua voz marcante que o Capitão Scammon aparece a nós. Celso Frateschi é esplêndido no papel. Com sua roupa típica de um grande navegador, conta aquele dia em que viu manchas negras sob a água. Explicita, nos mínimos detalhes, como se dava a matança. Transmite o vigor e a excitação daqueles homens com a descoberta. Dessa forma, reconstrói o dia decisivo e passa, com a maior das aptidões, as imagens verdadeiras e sangrentas ao público. Vai além: sente que tudo aquilo foi um erro. ![]() Celso é ator, diretor e dramaturgo. Estreou em 1970 no Teatro de Arena de São Paulo. Foi premiado por vários trabalhos e é, atualmente, Secretário da Cultura de São Bernardo do Campo e Professor de Interpretação na EAD/ECA-USP. Sua carreira é regida por uma opção de priorizar trabalhos de forte conteúdo crítico. Para completar a beleza do espetáculo, o Coral Juvenil da Escola Municipal de Música nos encanta de uma maneira extraordinária. Regido por Mara Campos, Suíte do Pescador arrepia a plateia. Minha jangada vai sair pro mar Vou trabalhar, meu bem querer Se Deus quiser quando eu voltar do mar Um peixe bom eu vou trazer Meus companheiros também vão voltar E a Deus do céu vamos agradecer Adeus, adeus Pescador não se esqueça de mim Vou rezar pra ter bom tempo, meu bem Pra não ter tempo ruim Vou fazer sua caminha macia Perfumada com alecrim Ainda anestesiada com aquelas duas horas em que passei sentadinha no banco, subi as escadas, ao término do espetáculo, e escutei uma mulher, que conversava com um amigo: “Você visualiza aquela matança!” Sem hesitar, concordei. Ela estava absolutamente certa. | "Há casos em que o teatro, como meio de reunião pública, ainda pode veicular uma percepção aguçada acerca da injustiça, demandando tolerância e compreensão."
- Hans-Thies lehmann Gostou?Já passou
May 2010 Categorias |


























