O teatro precisa de voz 07/10/2009
por Alexandre Dall'Ara A inteligência do texto passa pelo som das palavras? Perguntou o escritor Daniel Pennac pela voz agradável de Deise A. Pacheco, orientadora de arte dramática do TUSP logo no começo do encontro iniciado pontualmente às quatro horas da tarde de uma quinta-feira. Outras perguntas seriam feitas e o público habitual e participativo não pouparia respostas. As pouco mais de quinze pessoas, em sua maioria idosos – o evento também integra a agenda do programa Universidade aberta à terceira idade -, não negavam a força da voz e seu apreço por ela. Lembravam-se do tempo em que se lia alto na escola, revelavam que ouvir a voz, a própria e a dos outros, enriquece o texto e a compreensão. ‘‘O texto lido por um nunca é o mesmo na voz de outra pessoa’’ Ainda mais essencial é a voz quando se fala de teatro. A linha que divide o teatro da literatura é tênue e essa distinção passa pela fala. Os outros elementos teatrais também constroem o teatro como espetáculo e não apenas texto, mas a leitura de uma peça já nos dá a idéia das inúmeras possibilidades e nuances do texto dramático fora do papel. No terceiro encontro do II Ciclo do programa TUSP de leituras públicas, os três personagens de O pedido de casamento, de Tchekhov, foram lidos, em conjunto, por doze pessoas. Em meio às falas e ao áspero ruído do virar de páginas, senhoras, jovens e atores profissionais se revezavam em busca de um lugar nos sofás, destinado aos que fossem ler. A senha eram falas destacadas a marca-texto amarelo. Ao se deparar com o colorido no papel devia-se levantar e ocupar o espaço no sofá. Sentado, então, o personagem tomava forma. E revelava-se a magia do teatro. O encanto que apagava as rugas das senhoras octogenárias e transforma-as em um homem de trinta e cinco anos em busca de uma pretendente; que nos fazia aceitar, e com deleite, as palavras desesperadas da solteirona Natascha vindas de uma boca masculina e barbada; que tornava crível um Tchouboukov canastrão mesmo pela por uma fala tímida. E ainda assim, o teatro nos envolvia a ponto de a senhora ao meu lado suspirar: ‘‘Coitada da Natascha’’. O caráter farsesco da peça em um ato de Tchekhov e os poucos personagens tipificados garantiam a não confusão deles principalmente pela repetição de falas características. Ouvia-se inúmeras vezes o ‘‘e coisa e tal’’, bordão de Tchouboukov (pai de Natascha), a cada momento com uma voz diferente, uma entonação particular, um tom feminino, masculino...Mas o riso da platéia-leitora nunca faltava. A sala experimental, no subsolo do Maria Antônia, mesmo ocupada apenas por cadeiras, sofás e uma simpática mesa com café e três tipos de chá, tornava-se o cenário para a peça em questão. Ela não foi encenada em um palco, porém. Pairava sobre nossas cabeças, na atmosfera única, que só a imaginação pode criar. Nesse espaço invisível que conecta um grupo tão variado de pessoas em torno de um texto ambientado na distante Rússia camponesa do século XIX. Conectava-nos e nos fazia rir juntos. Juntos, mas de olho no texto. Entreolhando-nos apenas através desse cenário imaterial. O II Ciclo do programa TUSP de leituras públicas ocorre sempre às quintas-feiras às 16hrs. Até dia 29/10. Para ver a programação completa do TUSP, clique aqui. CommentsLeave a Reply | "Há casos em que o teatro, como meio de reunião pública, ainda pode veicular uma percepção aguçada acerca da injustiça, demandando tolerância e compreensão."
- Hans-Thies lehmann Gostou?Já passou
May 2010 Categorias |



