O canto da baleia 20/10/2009
por Denise Eloy "As águas estavam cobertas de manchas negras, que deslizavam lentamente... lentamente", já dizia o Capitão Charles Melville Scammon. A bordo do navio Léonore, no dia 10 de janeiro de 1856, o capitão e sua tripulação descobrem um tesouro escondido no Golfo da Califórnia: o santuário das baleias cinzentas, em que essas se reproduzem e tornam para morrer. É essa a história da peça Pawana, adaptação da obra de Le Clézio - Prêmio Nobel de Literatura em 2008. Dirigida por Georges Lavaudant, foi exibida nos dias 16 e 17 de outubro no TUSP. O espetáculo faz parte da programação especial do Ano da França no Brasil. A título de curiosidade, “Awaité Pawana" é o grito proferido por um índio quando vê as baleias sob o mar. ![]() Jean-Marie Gustave Le Clézio nasceu em Nice, França, em 1940. Estudou na Universidade de Bristol e no Institut d’Études Litteraires, em que concluiu seu curso de literatura francesa. Sua fama iniciou-se aos 23 anos, quando seu primeiro romance, Le Procès-verbal, ganhou o prêmio Renaudot. Além de romances, contos e ensaios, escreveu o seu único texto para teatro, Pawana. No Brasil, O Africano e A Quarentena são alguns dos seus livros publicados. Sua escolha para vencedor do Prêmio Nobel de Literatura é justificada pela academia sueca: “escritor de ruptura, da aventura poética e do êxtase sensual. É um explorador da humanidade além e por baixo da civilização reinante”. ![]() Georges Lavaudant nasceu em Grenoble em 1947. Renomado diretor francês de teatro, já codirigiu o Centro Dramático Nacional dos Alpes e a Casa de Cultura de Grenoble. De 1997 a 2007, foi diretor do Odeon Théâtre de l’Europe. Trabalhou com textos clássicos e contemporâneos e dirigiu espetáculos em vários lugares do mundo. Minha aventura começou cedo. Ao chegar ao teatro, para minha surpresa, este estava lotado. Uma fila se formava para adentrar nos subterrâneos do complexo. Pessoas de várias idades, todas com um panfletinho teatral na mão. Quando me dirigi a bilheteria, logo avistei tristemente: "Ingressos para o espetáculo Pawana esgotados". Decepção. Como eu não tinha imaginado que ia lotar, já que era gratuito? Logo escutei uma funcionária do TUSP que dizia que eles haviam orientado os convidados a chegarem cedo, devido à alta procura pelo espetáculo. Surpresa de novo. A única solução que se mostrou a mim foi sentar e esperar. Logo as cadeiras vazias de dentro do teatro ofereciam uma nova oportunidade para as pessoas que aguardavam ansiosamente lá fora. Assim, com um dos últimos ingressos, eu entrei. O TUSP havia disponibilizado uns lugares a mais, num improvisado banquinho, a frente da primeira fileira e de cara com o palco. Aquilo, para mim, foi melhor do que ter um lugar reservado. O cenário era simples. O fundo e o chão pretos. Uma tablado de madeira, numa espécie de passarela, se alongava na nossa frente e uma pequena brecha se mostrava com um tecido branco lá atrás. Quando a peça começou, uma luz azul a pintou. Nada mais apropriado. Eis que entra pelo ancoradouro, com uma roupa simples (calça, blusa, gorro e pés descalços), o marinheiro do porto de Nuntucket, John. Ele conta, com os olhos brilhando de um sentimento desconhecido, como sua paixão pelo mar e por seus mistérios começou. Fala de quando era jovem e sonhava em navegar. Sofre com seu amor pela índia Araceli, seu encanto em terras desconhecidas. Brilhante, Otávio Martins o interpreta. ![]() Otávio Martins é ator, diretor e dramaturgo. Nasceu em Campinas, em 1970. Em 1993, estreou seu primeiro espetáculo, a comédia After Magritte, de Tom Stoppard. Dentre os vários trabalhos, ele já atuou em A Máscara do Imperador, de Samir Yazbek; Os Jogadores, de Nikolai Gogol; Vestir o Pai, de Mário Viana; Santa Joana dos Matadouros e Ensaio Sobre o Latão, ambas de Bertolt Brecht. “Como alguém pode matar aquilo que ama?” “Como alguém ousa amar aquilo que matou?” É com sua voz marcante que o Capitão Scammon aparece a nós. Celso Frateschi é esplêndido no papel. Com sua roupa típica de um grande navegador, conta aquele dia em que viu manchas negras sob a água. Explicita, nos mínimos detalhes, como se dava a matança. Transmite o vigor e a excitação daqueles homens com a descoberta. Dessa forma, reconstrói o dia decisivo e passa, com a maior das aptidões, as imagens verdadeiras e sangrentas ao público. Vai além: sente que tudo aquilo foi um erro. ![]() Celso é ator, diretor e dramaturgo. Estreou em 1970 no Teatro de Arena de São Paulo. Foi premiado por vários trabalhos e é, atualmente, Secretário da Cultura de São Bernardo do Campo e Professor de Interpretação na EAD/ECA-USP. Sua carreira é regida por uma opção de priorizar trabalhos de forte conteúdo crítico. Para completar a beleza do espetáculo, o Coral Juvenil da Escola Municipal de Música nos encanta de uma maneira extraordinária. Regido por Mara Campos, Suíte do Pescador arrepia a plateia. Minha jangada vai sair pro mar Vou trabalhar, meu bem querer Se Deus quiser quando eu voltar do mar Um peixe bom eu vou trazer Meus companheiros também vão voltar E a Deus do céu vamos agradecer Adeus, adeus Pescador não se esqueça de mim Vou rezar pra ter bom tempo, meu bem Pra não ter tempo ruim Vou fazer sua caminha macia Perfumada com alecrim Ainda anestesiada com aquelas duas horas em que passei sentadinha no banco, subi as escadas, ao término do espetáculo, e escutei uma mulher, que conversava com um amigo: “Você visualiza aquela matança!” Sem hesitar, concordei. Ela estava absolutamente certa. CommentsLeave a Reply | "Há casos em que o teatro, como meio de reunião pública, ainda pode veicular uma percepção aguçada acerca da injustiça, demandando tolerância e compreensão."
- Hans-Thies lehmann Gostou?Já passou
May 2010 Categorias |






