O Escuro dos Bastidores 23/03/2010
Às 20h20 cheguei ao Teatro da USP, pouco mais de uma hora antes do início do espetáculo, marcado para as 21h30. Como combinado, fui me atrever nos bastidores da montagem. Diante das poltronas vazias, o palco também exibia sua nudez. O diretor Leandro Moreira dava os ajustes finais no cenário, limpava algumas partes, remexia a água da piscina instalada ao fundo do cenário, criando uma bela reflexão da água em movimento na parede posterior do palco. Os atores ainda se trocavam. Enquanto a luz era testada abusei da hospitalidade do grupo Companhia Hiato tratando de registrar ângulos interessantes do cenário vazio, mas antes mesmo de terminar fui surpreendido pelos atores entrando no palco para seu aquecimento. Um processo encantador para aqueles que se questionam sobre a encarnação dos personagens. Falas eram repassadas, gritos, urros e danças esquentavam e preparavam aqueles corpos prestes a se entregar à adrenalina da cena! O teste de luz, as músicas e a energia criavam uma atmosfera envolvente, que prenunciava o forte trabalho a ser exibido. ![]() Reunidos em círculo, mãos dadas. Vai “bombar”, vai “bombar”....merda! Silêncio. Calma e serenidade tomam a sala para a entrada do público inocente, desavisado. É como se aqueles “meninos” arteiros e animados se escondessem na coxia prontos para surpreender a multidão que lotou o teatro numa noite de quinta-feira. De fato surpreenderam, pelo menos a mim. O público se senta, é envolvido pelo silêncio e depois, a luz azul e os sons de gotas d’água nos submergem numa piscina, como aquelas que ocupam lugar de destaque no palco e no enredo. Pronto, enfim começamos! “Escuro” trata de deficiências. Cego, míope, surdo, fanho são alguns dos personagens. Acompanhamos a dificuldade de comunicação e interação social experienciada por eles. Mas numa estratégia incomum, os diálogos por vezes são substituídos pela fala para manifestar a real intenção do interlocutor: os personagens param e encaram a platéia, calam-se para nos dizer os pensamentos, seus desejos, suas reais intenções, a dificuldade de se comunicar – de certa forma a montagem procura decifrar o campo do não dito, expor o diálogo interno que travamos com nós mesmos. Numa experimentação da linguagem cinematográfica, de acordo com Leonardo, as cenas se repetiam várias vezes, cada vez de um ângulo diferente, pondo em destaque os personagens que antes estavam em segundo plano e vice-versa. Assim, elas chamam nossa atenção para os diversos ângulos realidade. Porém, mais surpreendente que o tema, ou a constituição das cenas é o nosso reconhecimento com a dificuldade dos personagens, a dificuldade de expressão de alguns deles não nos é estranha, ela é nossa também. A falta de palavras do personagem afásico, a vergonha da estrábica, a dificuldade de expressão da muda nos parece familiar. A montagem não nos revela apenas os deficientes, ela mostra que essa deficiência também nos pertence. Não nos comove pela compaixão, pelo dó, mas pela proximidade inesperada dos personagens. Presta assim um serviço, uma tomada de consciência da condição desses deficientes, mas também da deficiência da nossa comunicação “perfeita”. A peça começou a ser ensaiada em novembro de 2008 e antes da temporada no TUSP, esteve em cartaz no SESC Pompéia. A temporada no TUSP já está encerada e agora se inicia uma turnê, com apresentações em Curitiba nesse fim de semana (27 e 28). Outra montagem do grupo, a peça “Cachorro Morto”, ganhadora do prêmio CPT (cooperativa paulista de teatro) de melhor texto ainda está em cartaz no Teatro Imprensa. CommentsLeave a Reply | "Há casos em que o teatro, como meio de reunião pública, ainda pode veicular uma percepção aguçada acerca da injustiça, demandando tolerância e compreensão."
- Hans-Thies lehmann Gostou?Já passou
May 2010 Categorias |





