Só saio do meu Brasil no último pau-de-arara 19/05/2010
Calma! Antes de ler esse texto, deixe tocar a música acima. Pronto, agora lembre-se da viagem que fez ao nordeste – mesmo que tenha sido numa daquelas formaturas em Porto Seguro -, lembre do sutaque gostoso, do sol... agora sim, vamo lá: Assistir a “Concerto de Ispinho e Fulo” não é uma experiência comum, certamente não se assemelha à vivência típica de passividade do público diante do espetáculo. Logo na entrada somos surpreendidos ao entrar no cenário. A plateia acomoda-se dentro do palco, ou melhor, não há palco. Os assentos dividem-se ao redor do espaço que será compartilhado com os atores. Surpreendeu-me mais ainda um aviso. Diante da desorientação das pessoas ao encontrar um refletor repousando em todas as cadeiras da primeira fileira um membro do grupo orienta: podem se sentar e colocar o refletor no colo! A Cia. Do Tijolo, criada para esse projeto que homenageia o centenário do nascimento de Patativa do Assaré, usa os conceitos de Paulo Freire para idealizar a produção. A própria concepção do nome da companhia vem do famoso exemplo da alfabetização de um grupo de pedreiros, no qual o educador começa o ensino a partir da palavra tijolo, objeto próximo daquelas pessoas. Assim também se dá a estrutura da montagem. Começando por uma rádio, que conecta São Paulo a Assaré, os atores nos propõem entrar num universo desconhecido, tanto para nós quanto para eles. Enfatizada numa interessante cena em que os atores representam um encontro fictício com o poeta, a sensação de distância e desconhecimento da vida do nordestino, cantada por Patativa, e a universalidade do sofrimento humano, também presente na obra do poeta, é uma tensão sempre presente. Como falar do sofrimento que não se conhece? Da fome que nunca passou? Do chão em que nunca se pisou? A essas questões o grupo respondeu indo ao nordeste algumas vezes separadamente e contando experiências de vida que os conectam com aquele universo. Dinho Lima Flor é o único nordestino do grupo e um dos fundadores junto com Rodrigo Mercadante, Fabiana Barbosa e Rogério Tarifa. Mas a montagem, ainda nessa linha de aproximação com a cultura nordestina já se apresentou em cidades como Recife, Caruaru, Nova Olinda, Crato, Juazeiro e até na própria Assaré, terra do agricultor poeta homenageado. A peça surgiu do interesse de Dinho pela obra de Patativa do Assaré numa temporada em Nova Olinda com o grupo Casa Laboratório. Ela começou como um show musical apresentado em 2007 na chopperia do SESC Pompéia e depois foi encenada, com a direção de Rogério Tarifa, ao ganhar o concurso do Proac (Pograma de Ação Cultural da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo), estreando no SESC da Av. Paulista e viajando depois pelo interior do estado. Ao todo, foram por volta de nove messes de ensaios. Rodrigo, com passagem pela CAC e formado pela EAD, conta que o eixo central é o poema a Morte de Nanã, justamente por tratar de um tema universal, a dor da perda de uma filha. Isso como ponto culminante de três pilares: a vida e a obra do poeta, os depoimentos pessoais dos atores e a história do nordeste – representada pela destruição do povoado de Caldeirão, um fato histórico pouco conhecido do público e que nos faz querer correr para os livros de história, outros que também costumam o ignorar, entretanto. Assim, a estrutura foge da simplicidade de apenas narrar a vida de Patativa, ela vai além, envolvendo e aproximando o público de uma realidade estranha, mas também nossa, do nosso país, do nosso povo! E se isso parece um pouco pesado para um programa de fim de semana, não se aperreie, a cachaça, a cajuína e o cafezinho (servidos durante a peça) garantem o consolo para os expressivos tormentos da alma... *A peça fica em cartaz no TUSP até dia 30 de Maio. Veja a programação aqui. CommentsLeave a Reply | "Há casos em que o teatro, como meio de reunião pública, ainda pode veicular uma percepção aguçada acerca da injustiça, demandando tolerância e compreensão."
- Hans-Thies lehmann Gostou?Já passou
May 2010 Categorias |


