Eliana Tessitore, fisioterapeuta, trabalha com dança – especialmente dança do ventre - desde 1986. Sua forma de pensar dança envolve conceitos e sentimentos relacionados à descoberta, ou seja, à dança como terapia. Tomei conhecimento da sua dissertação de mestrado e fiquei curiosa para entender seu trabalho. Meu encantamento só aumentou. Defendida em 2006 e intitulada “Os talentos do corpo: uma experiência de trabalho corporal com pacientes com transtorno mental”, a pesquisa se insere no campo da fisioterapia e da saúde mental. Sua ideia inicial era medir as posturas dos pacientes através do método RPG – Reeducação Postural Global –, sempre em busca de uma melhor qualidade de vida para os participantes. Porém, imprevistos começaram a acontecer e Eliana não conseguia ter pacientes assíduos para o desenvolvimento de sua dissertação. Ela então começou a frequentar o grupo de dança do CRHD – Centro de Reabilitação e Hospital Dia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP. Foi quando percebeu que aquilo que o grupo vivia era fisioterapêutico e entrou com uma proposta para desenvolver seu trabalho naquele espaço e com aquelas pessoas. Pelo grupo passaram vários pacientes com transtorno mental grave inseridos no programa de reabilitação do centro. A partir daí, novas descobertas foram sendo feitas, tanto por Eliana, como por aqueles pacientes que frequentavam o “Grupo Corpo”. O envolvimento com a dança proporcionou um motivo lúdico para o tratamento. Os pacientes, inicialmente, viam o corpo fragmentado. A pesquisa seguiu um roteiro de atividades referenciadas por um esqueleto humano e pela própria demanda dos participantes. As aulas passaram a proporcionar uma consciência corporal, que eles começaram a se apropriar. Os encontros foram preenchidos com escuta, conversa e prática da dança entre o grupo. Eliana conta que eles começaram a sentir o osso no corpo, se tocando e se aproximando uns dos outros, vivenciando o corpo com seus limites e possibilidades. Não havia certo. Existia um lugar com essa possibilidade do erro. A troca de conhecimento era riquíssima e ensinar também era aprender. Um grupo fazia uma coreografia e, de vez em quando, dava as mãos. Aos poucos, a resistência foi sendo vencida. A aproximação entre o grupo e a apropriação de si mesmo estavam calcadas em todos esses detalhes, como a escuta e o lugar do erro. As danças eram sentidas. Os participantes passaram por danças circulares, étnicas, individuais e coletivas. Eles copiaram e criaram coreografias. Dançaram o surto, a alegria, a dor, seja a de si ou do outro. Tudo dependia do que eles sentissem no dia, que história eles traziam para viver naquele momento. Com o tempo, eles aprenderam a identificar melhor o olhar para as suas dificuldades, descobrindo seus talentos como formas organizadoras de pensamentos e ações e valorizando-os. Eliana permaneceu três anos no grupo e enfatizou a importância daquela experiência na sua vida. “Descobrir que o exercício dos talentos são organizadores e que nos impulsionam a viver melhor, apesar dos tantos desfavores. Foram anos transformadores para mim”, diz. Em 2007, ela recebeu um convite para expandir o trabalho realizado para o hospital todo. Infelizmente, não deu certo. Apesar disso, Eliana continua trabalhando nessa mesma linha que há tanto tempo acredita, montando iniciativas no mesmo caminho. A minha experiência Era uma sexta-feira, às 16h30. Cheguei ao Ateliê do Corpo, atual local de trabalho de Eliana, e esperei o término de uma sessão. Logo encontrei Ana Paula, terapeuta, que também tinha vindo para a aula de dança do ventre. Ao conversar com Eliana sobre a experiência de sua dissertação, ela me convidou para participar de uma aula de dança do ventre que ministrava às sextas-feiras. Depois de alguns desencontros, finalmente consegui comparecer. ![]() Ana Paula no 'Ateliê do Corpo' Logo no início já me senti muito bem acolhida e bem-vinda. Conversei com Ana Paula, frequentadora do espaço há dois anos, que me contou um pouco o propósito daqueles encontros às sextas: trabalhar o feminino e, através da dança, conhecer e apropriar-se do corpo, aprendendo a lidar com a dor. A dança não deve proporcionar dor. Ela deve ajudar a melhorá-la e a curá-la. Além de tudo, faz bem para a alma. O clima e o espaço transformam aquele momento no presente. Aquela é a hora de você esquecer o que está na rua ou as contas que precisa pagar e se concentrar no seu corpo, nos seus sentidos, nas suas descobertas. A evolução daquelas mulheres que frequentam o Ateliê do Corpo – atualmente são três – é palpável, assim como a seriedade de Eliana no trabalho. Para mim, aquilo também foi uma descoberta. Nunca tinha tido um contato mais próximo com dança do ventre e a experiência foi, ao mesmo tempo, atrativa e diferente. Sentir os pedacinhos do corpo, ter controle, procurar um autoconhecimento. Depois disso, tenho a certeza de que essa experiência foi única para mim, para os pacientes do CRHD e para as mulheres que passam por esse processo agora. 1 Comment | “Somos corpo e não pessoas que possuem
um corpo ou habitam um corpo” - Lenira Rengel Gostou?Já passou
June 2010 Categorias |





