Eliana Tessitore, fisioterapeuta, trabalha com dança – especialmente dança do ventre - desde 1986. Sua forma de pensar dança envolve conceitos e sentimentos relacionados à descoberta, ou seja, à dança como terapia. Tomei conhecimento da sua dissertação de mestrado e fiquei curiosa para entender seu trabalho. Meu encantamento só aumentou. Defendida em 2006 e intitulada “Os talentos do corpo: uma experiência de trabalho corporal com pacientes com transtorno mental”, a pesquisa se insere no campo da fisioterapia e da saúde mental. Sua ideia inicial era medir as posturas dos pacientes através do método RPG – Reeducação Postural Global –, sempre em busca de uma melhor qualidade de vida para os participantes. Porém, imprevistos começaram a acontecer e Eliana não conseguia ter pacientes assíduos para o desenvolvimento de sua dissertação. Ela então começou a frequentar o grupo de dança do CRHD – Centro de Reabilitação e Hospital Dia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP. Foi quando percebeu que aquilo que o grupo vivia era fisioterapêutico e entrou com uma proposta para desenvolver seu trabalho naquele espaço e com aquelas pessoas. Pelo grupo passaram vários pacientes com transtorno mental grave inseridos no programa de reabilitação do centro. A partir daí, novas descobertas foram sendo feitas, tanto por Eliana, como por aqueles pacientes que frequentavam o “Grupo Corpo”. O envolvimento com a dança proporcionou um motivo lúdico para o tratamento. Os pacientes, inicialmente, viam o corpo fragmentado. A pesquisa seguiu um roteiro de atividades referenciadas por um esqueleto humano e pela própria demanda dos participantes. As aulas passaram a proporcionar uma consciência corporal, que eles começaram a se apropriar. Os encontros foram preenchidos com escuta, conversa e prática da dança entre o grupo. Eliana conta que eles começaram a sentir o osso no corpo, se tocando e se aproximando uns dos outros, vivenciando o corpo com seus limites e possibilidades. Não havia certo. Existia um lugar com essa possibilidade do erro. A troca de conhecimento era riquíssima e ensinar também era aprender. Um grupo fazia uma coreografia e, de vez em quando, dava as mãos. Aos poucos, a resistência foi sendo vencida. A aproximação entre o grupo e a apropriação de si mesmo estavam calcadas em todos esses detalhes, como a escuta e o lugar do erro. As danças eram sentidas. Os participantes passaram por danças circulares, étnicas, individuais e coletivas. Eles copiaram e criaram coreografias. Dançaram o surto, a alegria, a dor, seja a de si ou do outro. Tudo dependia do que eles sentissem no dia, que história eles traziam para viver naquele momento. Com o tempo, eles aprenderam a identificar melhor o olhar para as suas dificuldades, descobrindo seus talentos como formas organizadoras de pensamentos e ações e valorizando-os. Eliana permaneceu três anos no grupo e enfatizou a importância daquela experiência na sua vida. “Descobrir que o exercício dos talentos são organizadores e que nos impulsionam a viver melhor, apesar dos tantos desfavores. Foram anos transformadores para mim”, diz. Em 2007, ela recebeu um convite para expandir o trabalho realizado para o hospital todo. Infelizmente, não deu certo. Apesar disso, Eliana continua trabalhando nessa mesma linha que há tanto tempo acredita, montando iniciativas no mesmo caminho. A minha experiência Era uma sexta-feira, às 16h30. Cheguei ao Ateliê do Corpo, atual local de trabalho de Eliana, e esperei o término de uma sessão. Logo encontrei Ana Paula, terapeuta, que também tinha vindo para a aula de dança do ventre. Ao conversar com Eliana sobre a experiência de sua dissertação, ela me convidou para participar de uma aula de dança do ventre que ministrava às sextas-feiras. Depois de alguns desencontros, finalmente consegui comparecer. ![]() Ana Paula no 'Ateliê do Corpo' Logo no início já me senti muito bem acolhida e bem-vinda. Conversei com Ana Paula, frequentadora do espaço há dois anos, que me contou um pouco o propósito daqueles encontros às sextas: trabalhar o feminino e, através da dança, conhecer e apropriar-se do corpo, aprendendo a lidar com a dor. A dança não deve proporcionar dor. Ela deve ajudar a melhorá-la e a curá-la. Além de tudo, faz bem para a alma. O clima e o espaço transformam aquele momento no presente. Aquela é a hora de você esquecer o que está na rua ou as contas que precisa pagar e se concentrar no seu corpo, nos seus sentidos, nas suas descobertas. A evolução daquelas mulheres que frequentam o Ateliê do Corpo – atualmente são três – é palpável, assim como a seriedade de Eliana no trabalho. Para mim, aquilo também foi uma descoberta. Nunca tinha tido um contato mais próximo com dança do ventre e a experiência foi, ao mesmo tempo, atrativa e diferente. Sentir os pedacinhos do corpo, ter controle, procurar um autoconhecimento. Depois disso, tenho a certeza de que essa experiência foi única para mim, para os pacientes do CRHD e para as mulheres que passam por esse processo agora. 1 Comment Corpo que comunica 05/05/2010
É no Departamento de Artes Cênicas da USP que o Laboratório de Dramaturgia do Corpo (LADCOR) atua. Nascido no segundo semestre de 2006, a partir da disciplina “Corpo, Espaço e Pensamento moderno”, ele funciona desde então coordenado pela professora Helena Bastos. E como funciona o laboratório do corpo? Atualmente, o LADCOR abriga o projeto Cadeiras de Rosas em parceria com o grupo Musicanoar, idealizado por Helena em 1992. São cinco alunos que pesquisam seus corpos das mais diversas formas. São compartilhamentos de cena e conceitos que mobilizam o pensar da pesquisa. O projeto foi contemplado em 2009 pelo VI Fomento Municipal em Dança, na categoria Criação, e os encontros ocorrem todas às sextas-feiras pela manhã. O que é o VI Fomento Municipal em Dança? O Programa Municipal de Fomento à Dança pertence à Secretaria Municipal de Cultura e seleciona projetos de dança contemporânea em cada edição. Em 2009, foi realizado o VI Fomento, com duração de um ano (2º semestre de 2009 ao 1º semestre de 2010). Trabalhando com a Teoria Corpomídia, o laboratório realiza uma investigação a partir do conhecimento do corpo. O corpo não é um recipiente, um depósito. Ele troca informações, em processo permanente de comunicação. E o que é a Teoria Corpomidia? Desenvolvida por Christine Greiner e Helena Katz, professoras da PUC/SP, ela trata do corpo enquanto mídia de si mesmo. O corpo não para de trocar informações com o mundo, desenvolvendo uma dependência mútua com esse ambiente. O corpo se faz nessa troca e o ambiente também se modifica. São atuações simultâneas - corpo é ambiente e ambiente é corpo. Talvez a palavra-chave para a teoria seja fluxo. Essas informações agem no corpo e são expelidas por ele. Daí surge a noção de que o corpo não é um recipiente. Mais: ele não é passivo ou imutável. Todas essas informações modificam nossa pessoa, nosso modo de vida e da coletividade. Voltando ao laboratório, Helena nos conta que as intenções do LADCOR são estudar esse corpo e suas conexões, como ele se propõe a dançar, pensar outros modos da relação corpo-cena. Helena diz que quando eu mudo meu conhecimento de corpo, minhas relações também mudam. A pesquisa realizada no Cadeiras de Rosas é individual e compartilhada. Cada um vai descobrindo o seu corpo. Lida-se com a invenção de procedimentos que vão além, sem limites. “Esse corpo de ator traz uma complexidade diferente”, ela completa. Há uma articulação dos conhecimentos de mundo, com a possibilidade de escolhas e parâmetros. “Dançar e atuar é lidar com problemas”, diz a professora. Pensar e lidar com o corpo exige uma reflexão, uma abertura a descoberta. Isso requer esforço, vontade e vivência. Com o surgimento das ciências cognitivas, as coisas caminham juntas, ou seja, não há separação entre razão e sentimento, entre corpo e pensamento. Helena não exclui o conhecimento de um “leigo” na descoberta desse corpo. Cada um possui um olhar de mundo e ninguém é fechado ao processo de troca de informações com o ambiente. A felicidade é saber trabalhar esse conhecimento de uma forma que seja competente e satisfatória. Sempre nessa vertente da criação e da composição sobre dança contemporânea e desse corpo-autor, o grupo Cadeiras de Rosas pretende desenvolver um vídeo-dança no fim do mês de maio, na tentativa de misturar linguagens. Ele trabalha com vivências, práticas, textos e aulas, e isso depende do que é pedido no momento. Como resultado, cada integrante produzirá um espetáculo, fruto das suas descobertas nesse ano de pesquisa. Ouvindo o movimento 23/03/2010
É sexta à noite e um grupo de 22 alunos está reunido na Faculdade de Educação com um propósito: descobrir sua maneira de expressão, de dança. “A ideia não é entrar muito na técnica. É brincar com a dança”, diz Bárbara Freitas, monitora responsável pelo núcleo de dança do Lab Arte. O Laboratório de Arte-Educação & Cultura da FEUSP foi criado em 2006 por uma iniciativa dos alunos na tentativa de complementar sua formação de pedagogos. São vivências e experiências em diversos núcleos, que visam à apreensão da linguagem artística numa perspectiva antropológica, como teatro, música, fotografia, circo, artes visuais e outros. Dentre esses núcleos, há dois de dança, que lidam com métodos diferentes. As vivências são semanais e o interessado pode conversar com o monitor do grupo e passar a frequentar. O encontro começou com a visualização de imagens dos ossos do corpo humano. Sim, nós observamos figuras de atlas e discutimos a porosidade e a força desses ossos. Nossas sensações chegam até nós pelo corpo, por isso é fundamental entender como funciona essa estrutura para compreender sua relação com o movimento. Depois, deitamos no chão. Era a hora de sentir nossos braços, pernas, tronco, cabeça. Era o momento de acordar nosso corpo, alongá-lo. Fomos evoluindo, passando por níveis, até ficarmos de pé. Essa circunstância de crescimento foi repleta de sentido, numa descoberta mesmo. Andamos, mudamos de lugar, enfim, dançamos. Na roda, alternamos respiração e movimento e passamos por um estilo: o coco. Com origens controversas, o coco é uma dança de ritmo gostoso e divertido e a sonoridade é acompanhada por palmas. É a dança que você não quer parar. Por último, formaram-se trios para um exercício de alongamento e de sentidos dos ossos do corpo. Depois rolou uma conversa, um bate-papo, quase uma sessão de terapia. Os alunos tiraram dúvidas, contaram sensações e deram dicas. Bárbara sintetiza: “Corpo é pensamento, é uma extensão da nossa história, é nossa vida”. Há sete anos em contato com a dança, Bárbara se considera mais uma mediadora para a brincadeira do que uma professora. Nessa tentativa de aprofundar e entender nosso corpo, ela experimenta junto. “A ideia é usar os princípios da dança popular para buscar o nosso vocabulário”. Ela diz que a tentativa de consciência, de pensamento do corpo é fundamental e que não tem um jeito certo de dançar. Dançar é descobrimento, por isso a sua dança tem que fazer sentido para você. É um trabalho de trazer a sua vivência, seu cotidiano, sua história para descobrir sua linguagem. “O corpo tá falando”, diz Bárbara. Basta a gente escutar. Lab Arte – Núcleo de dança Toda sexta-feira, às 18 horas, na sala 130 da Faculdade de Educação da USP. Na balada? 11/03/2010
Quem acha que dança é arte, acertou. É a arte da diversão e da integração. Quem nunca foi numa festa com os amigos e dançou até doer as pernas? Ou quem nunca encontrou aquela pessoa e o seu jeitinho todo especial de dançar naquele mar de gente? Relato de dança na balada é o que não falta. As danças em festas revelam um universo repleto de possibilidades de análises. As razões para se dançar são várias. Pode ser pela simples sensação de balançar o corpo e liberar as energias, assim como pela experiência de entrar numa vibe só: dança e música. Seja sozinho ou acompanhado, aquela é a hora de esquecer o mundo e aproveitar o instante – segundos, minutos ou a noite inteira. Mas essa arte também revela aspectos interessantes do comportamento humano. A questão da integração social – e isso acontece muito em Universidades –, a busca pelo seu lugar num grupo e a própria identificação com determinadas pessoas. Mais: a euforia com a música que toca (“Eu amo essa música!”) e a vontade de não parar nunca mais. E o que rola aqui na USP? A equipe Escarlate foi até à Festeca, tradicional festa da Escola de Comunicações e Artes, tentar observar esses seres que convivem nesse universo próprio, cheio de códigos disfarçados de passos. Lá, além dos ecanos já esperados, encontramos um público bem diverso que tentou contar um pouquinho da sua experiência. FEA, Poli, GV e Bio, expressem-se, por favor. Carolina Carvalhal, estudante da Fundação Getúlio Vargas, diz que, na sua faculdade, a galera geralmente é mais reprimida em termos de dança. Quando alguém decide se soltar um pouco mais já é motivo para atenção e comentários. Marco Carvalho, da FEA, comenta que o que empolga mesmo o pessoal é quando a bateria toca. Ninguém fica parado. Todos mexem o corpinho, mesmo um pouquinho. Já Débora Brant diz que na Biologia é diferente. É um estilo mais parecido com o da ECA. Os ápices são aquelas músicas que só quem é estudante da faculdade entende. Um verdadeiro código. Você para tudo e dança com a galera. Renata Martins, da Poli, é direta e ressalta: "Os bitolados se soltam nas festas!". Mesmo com estilos tão diferentes, a dança definitivamente faz parte da festa - e é um dos principais pontos. Assim, creio que chegamos a uma conclusão: seja no seu cantinho ou no meio da roda, o importante é deixar os problemas de lado e dançar sem medo de ser feliz, pois com o rebolado a diversão é garantida. Semanas e eventos artísticos na USP 21/02/2010
Você é daqueles que dançam desde criança? Começou o balé dentro da barriga da sua mãe ou arrasava no street dance desde os três anos de idade? Ou você é daqueles que gosta de dançar, sozinho no quarto ou na balada, e tem vontade de mostrar para todos o seu talento? Pois, vamos lá. Alguns institutos e faculdades da USP promovem durante o ano semanas de arte e diversos concursos. Nas semanas de arte, oficinas e apresentações são abertas ao público, e os estudantes podem abusar da participação. E se você tem vontade de montar sua própria apresentação, os concursos estão aí para isso. Já se prepare para alguns exemplos que vamos mostrar agora. A Semana de Arte da USP promove arte para todos os gostos. No ano de 2009, foram em nove cidades que ocorreram atividades culturais. O intuito é quebrar um pouco a rotina e descobrir os talentos de quem tem sua vida ligada, de alguma forma, à Universidade. Trazer a arte para perto dessas pessoas é muito importante. Já a SAPO – Semana de Arte da Poli – é realizada anualmente e organizada pelos próprios alunos. Também com o intuito de aproximar os alunos entre si, ela ainda possui um outro objetivo: unir engenheiros e algo que eles, tradicionalmente, não têm muito contato, a arte em geral. São debates, oficinas, palestras e outros eventos que acontecem durante a semana. O Concurso de Talentos da FEA também movimenta o lado artístico das pessoas. O intuito é disseminar a arte universitária através dos talentos escondidos – ou não – dos alunos, ex-alunos e funcionários da Universidade. São modalidades “de palco”, como dança e música, e “de exposição”, como fotografia e poesia. Então, bixo, fique atento. Durante todo o ano, os eventos ocorrem por aí. Na maioria das vezes, a divulgação acontece por cartazes espalhados pela USP. Nos portais dos institutos e escolas, você também poderá achar informações. Acesse também o Caminhos da Cultura, iniciativa da Pró-reitoria de Cultura e Extensão Universitária e saiba dos eventos e cursos promovidos pela USP. E se você tá com vontade mesmo é de fazer aulas de dança e aprender a remexer o corpinho, dê uma olhada no guia das escolas de dança presentes na Universidade. Dance like there's no one watching 01/12/2009
por Lívia Furtado Chove chove chove. Me pergunto se, quando a chuva parar, aquelas pessoas que procuraram abrigo por ali vão seguir com suas vidas sem olhar pra trás ou vão parar para apreciar a arte em frente a elas. Por enquanto, todos apenas bebem cerveja animadamente, conversam, riem, e logo vejo aqueles que vão se apresentar: normalmente meninas não andam com roupas de dança do ventre por aí, ou arrumadas para dançar ballet, e mesmo as que estavam vestidas com roupas mais normais, vestido curto e sandália de salto, pareciam um pouco deslocadas, o sorriso nervoso colado no rosto. Os homens são um pouquinho mais difíceis de localizar, as vestimentas ordinárias - calça, camiseta -, mas os olhares trocados, muitas vezes parecendo procurar reafirmação, os traem. A vivência da FEA fervilha. Música sai de uma grande caixa de som preta perto do bar, e ninguém parece querer sair dali tão cedo. Já passa das 17h30 quando alguém da organização do evento aparece com um microfone, boa tarde! - Bem vindos ao Concurso de Talentos da FEA. Vamos fazer agora a premiação da categoria interpretação... - alarme falso. Mas presto atenção - reconheço um dos dois meninos da dupla vencedora como aluno de artes cênicas da ECA. Em seguida, há a apresentação e premiação da categoria "Se vira nos 30" e, finalmente, o primeiro grupo de dança é chamado à frente. O PsicoSalsa é formado por alunos da turma de salsa dos professores Russ Hama e Yordanka. As aulas, descobri, acontecem toda quinta feira na Psicologia, às 17h30, e são abertas para qualquer aluno da USP, além de gratuitas. Na apresentação, há mais de 10 alunos se apresentando. Eles vão ao centro do palco em duplas, posicionando-se como em roda, e a música começa. - É a outra, é a outra! - Falha técnica por parte do CAVC. Começo a rir quando a falta de comunicação perdura, mas finalmente a música certa é colocada e o grupo pode começar. A chuva parou, mas duvido que alguém tenha conseguido desgrudar os olhos da apresentação para sair. Os sorrisos nos rostos dos dançarinos são contagiantes, o ritmo latino envolve o corpo e parece, por mágica, começar a te fazer mexer. Duas apresentações, com alguns casais diferentes - Hama sempre ajudando o grupo, fazendo sinais enquanto dança, divertindo-se como todos os outros - e é a vez do samba-rock. O caldeirão de estilos apresentados em uma única tarde foi um surpresa muito agradável. Da salsa ao sapateado, passado por zulk, forró, samba-rock, dança-do-ventre e até mesmo balé, que fica por conta da aluna de geografia Daniela Lavignatti. Daniela, que tem 28 anos e dança desde os 15, comenta sobre a falta de balé na USP: não há aulas nem apresentações. "É a primeira vez que me apresento aqui. Dá um nervoso diferente, porque meus amigos tão vendo." A moça dançoa ao som de "Xote das meninas" ("Ela só quer, só pensa em namorar...") e recebe elogios pessoalmente do professor J. Júnior, o avaliador da competição, que dá aula de dança de salão na FEA, com ênfase e forró. "Sou apaixonado pelo ritmo." A ideia da garota ao misturar dois gêneros aparentemente tão diferentes foi mostrar que balé não precisa ser aquela coisa tão "clássica, engessada" que todo mundo imagina. A mistura e ousadia não ficam só com Daniela. As meninas do "Tribal Fusion" - que acabam levando o segundo lugar, perdendo apenas para o PsicoSalsa - misturam batidas eletrônicas com músicas mais tradicionais indianas, arriscam com Shakira e vão para o tribal também. Alunas da professora Samra, que dá aulas no CRUSP, as quatro se reuniram para participar do concurso por diversão e para treinar para uma apresentação que ocorre nesse domingo (6), no Espaço Caldeirão. Três delas se apresentam solo após a dança em conjunto - Érica Takano, aluna de licenciatura de matética no IME, é quem o faz ao som de "Whatever, Whenever." A música é acompanhada pelas palmas ritmadas da platéia, e o sorriso nervoso da japonesa vai relaxando ao longo da música. É como diz o poema: "Dance like no one's watching." E tudo fica bem. Danças... circulares? 11/11/2009
por Camila Camilo e Denise Eloy Na edição passada, dizíamos que dançar eleva a auto-estima. Esta energia boa trazida pela dança não precisa ser sentida só individualmente, pode ser vivida também em um grupo. De mãos dadas e, talvez mais do que no clássico “dois pra lá, dois pra cá” do rostinho colado, exigindo sincronia, como reflexo da sensação de dançar com vários pés, em vários corpos, num único ritmo. “Começamos dizendo nosso primeiro nome e a motivação para estar na roda em apenas uma palavra. Ensino os passos, conto algo a respeito de cada dança, do seu significado, da sua letra e dançamos”, diz Tânia Pessoa, psicóloga do LEP (Laboratório de Estudos da Personalidade do Instituto de Psicologia da USP, coordenado pela profª. Laura Villares de Freitas) que orienta os encontros conhecidos como Danças Circulares. Os encontros não são um curso, mas um “grupo de vivência” que se reúne semanalmente para sentir e compartilhar bem estar a partir da dança. Origens O ato de dançar está presente desde muito tempo nas aglomerações humanas, e a dança coletiva tinha um grande impacto. “Dançar era poder criar e ser a própria essência de tudo o que nos cerca", conta Tânia. O bailarino clássico, coreógrafo, pedagogo e pintor Bernhard Wosien (1908-1986) tentou recuperar a essência das danças típicas de diferentes povos e, na comunidade de Findhorn, na Escócia, ensinou pela primeira vez danças folclóricas aos residentes. Começaram aí as Danças Circulares Sagradas, que se tornaram um movimento, introduzido no Brasil por Sarah Marriot. O conceito das DCS baseia-se no resgate de danças folclóricas e também, como presente no próprio nome, na vivência do sagrado. “O sagrado não é domínio de nenhuma religião, é uma possibilidade humana para a consciência que se permite reviver a fonte da vida.” “Meditação em Movimento” Qualquer um pode realizar a prática que tem, segundo Tânia Pessoa, uma série de benefícios, tais como a mudança de percepção do individual para o coletivo “Nessa atividade, se cada um não colaborar, não há como dançar. Dançamos porque todos estão empenhados em fazermos com que seja harmônico”, a melhora na capacidade de concentração “Tem passos que são simples, mas não permitem que a mente se distraia com assuntos externos, porque gera erro nos passos. Então elas exercitam a qualidade da presença e da concentração”, além do desenvolvimento da “autenticidade diante de um grupo, pois é difícil disfarçar forças e fraquezas, quando o corpo também participa da ação”. A psicóloga destaca também a possibilidade de desenvolver o espírito cooperativo e a capacidade de adaptar-se com o diferente, seja um ritmo ou uma cultura. “Em alguns momentos intercalo as danças com contos de tradição oral”, diz Tânia. As danças tem uma origem popular, assim como os contos utilizados durante os encontros, considerados remédios da coletividade. O que se busca é estimular a cooperação e o conhecimento de si e dos outros. Há outras atividades que também guardam o mesmo espírito colaborativo. Tânia cita algumas: cultura de paz, reciclagem, contato com a natureza, artesanato, economia solidária, entre outras. E por que o círculo? Tânia explica: “O círculo, em especial com um centro, é uma imagem arquetípica que tende a estimular a vivência de que há algo maior do que nossa limitada consciência, ou seja, a vivência de ter um Self, aquele que em nós conhece o que vai nos fazer seres humanos mais completos”. Hoje, as Danças Circulares Sagradas constituem um movimento – DCS e existem em muitos países e em várias regiões do Brasil. “Para encerrar voltamos a respirar todos juntos, a sentir a nos mesmos e ao grupo. Terminamos dedicando nossa dança, o que produzimos ali, para os que julgamos necessitados (para as crianças, para a paz, para alguém da família, para nós mesmos)”. Dicas pra quem quer conhecer um pouquinho mais de Danças Circulares: Em junho acontece, em Embu das Artes – SP, o Encontro Brasileiro de Danças Circulares Sagradas, organizado pela Andrea Leoncini, pela Renata C. Lima Ramos e pela Sonia Yamashita Lima. Além disso, o LEP recebe inscrições no início de cada semestre e para participar é preciso ficar ligado nas datas divulgadas no site do IP – USP (www.ip.usp.br). Além do "dois pra lá e dois pra cá" 22/10/2009
por Camila Camilo Dizem que quem canta seus males espanta. Pois quem dança espanta os males, emagrece, relaxa, socializa e fica com aquela energia boa de quando a auto-estima se despe da timidez e voa pro andar de cima. O Escarlate, pensando em todos nós, criou um singelo guia de onde aprender a remexer o esqueleto na Cidade Universitária. Mãos – e todo o resto – à obra: Salsa Etimologicamente salsa é uma mistura de “diversas substâncias comestíveis diluídas”. Algo como um super condimento. Não à toa o ritmo, surgido em Cuba nos anos 1960, é uma grande mistura de ritmos. Como o mambo, influenciado pelo merengue da República Dominicana e pelo calipso de Trinidade e Tobago, com uma pitada forte da cumbia colombiana e, por que não, do rock americano e do reggae da Jamaica. Dizem por aí que hoje até o rap e o techno dão sua contribuição para o ritmo, que deu às caras ao mundo em Nova Iorque, quando jovens músicos quiseram criar uma mistureba bem latino-americana. Acertaram na mosca. Onde aprender: Fonte Danças, Grêmio dos Funcionários do Instituto de Física, Girassol Danças. Forró Arrasta-pé, rala-bucho, bate-chinela, forrobodó, fobó. Com muitos nomes, o ritmo tipicamente nordestino tem forte influência européia, africana e indígena. Mais brasileiro impossível. Popularmente associado à expressão inglesa for all, o termo forró, segundo o folclorista Luis Câmara Cascudo, é derivado do termo africano forrobodó, que significa farra, confusão, desordem. Ah, se toda confusão fosse boa assim... Onde aprender: Girassol Danças, Grêmio dos Funcionários do Instituto da Física, Fonte Danças, FEA Forró, Trançando Tudo. Tango Alguém disse que o tango é “um pensamento triste que se pode dançar”. Com muita ousadia, eu diria que é paixão transformada em um ritual de passos fortes, pernas entrelaçadas, expressão séria e intimidade. Nascido nos cabarés de Buenos-Aires e influenciado pelos sons da região platina, o tango possui variações: milonga, “canyengue”, “romanzae”, canção e tango jazz. Como plano de fundo o bandoneón, que veio com os imigrantes alemães traduzir paixão em notas musicais. Onde aprender: Girassol danças, Fonte danças. Samba de Gafieira Chico Buarque diz em uma de suas músicas que malandro quando morre vira samba. Que coisa bonita devem ser estes malandros, para fazer nascer o ritmo mais característico do nosso país. Dançado de norte a sul, o samba é um filho da África criado no Brasil. E, para dançar juntinho, se veste de gafieira, modalidade surgida na década de 1940, mais rápida e forte na parte instrumental, bem do jeito do salão. Onde aprender: Girassol Danças, Grêmio dos Funcionários do Instituto da Física, Fonte Danças, FEA Forró, Trançando Tudo. Fonte Danças Forró, Merengue, Samba de gafieira, Rock, Tango, Bolero, Zouk, Samba-rock, Salsa, Valsa etc. Av. Professor Mello Moraes, 2373 (em frente ao terminal de ônibus SPTrans) Cidade Universitária Telefone: (11) 3091-1880 E-mail: dancenafonte@yahoo.com.br Comunidade orkut: Fonte Danças Grêmio dos Funcionários do Instituto de Física Bolero, Forró, Samba de Gafieira e Salsa. Bolsão da Física Rua do Matão – Travessa E. E-mail: contato@dancadesalaonausp.com.br Girassol Danças Dança de Salão (oferece diversos ritmos, dependendo do nível e do semestre), Dança do Ventre, Forró Universitário e Zouk. Local: Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo (SINTUSP) Av. Prof. Luciano Gualberto, Trav. J 374 Cidade Universitária Telefone: (11) 3433-2222 / (11) 3535-0990 E-mail: girassoldancas@yahoo.com.br FEA Forró Forró Vivência da FEA-USP Av. Prof. Luciano Gualberto, 908 Cidade Universitária Trançando Tudo Samba-rock, Samba de Gafieira, Pagode e Forró Universitário Bloco F do Crusp, próximo ao Bandejão Central. Telefone: (11) 3091-3255 (falar com Jarbas) E-mail: trancandotudo@hotmail.com / trancandotudo@yahoo.com Curiosidade temperada 06/10/2009
por Denise Eloy Esqueça a vergonha ou o mau jeito para danças e afie sua curiosidade. Foi isso que vários estudantes uspianos fizeram ao meio-dia dessa segunda, 5 de outubro. No Sharewood da Poli, uma caliente oficina de salsa (parte da XX SAPO – Semana de Arte e Cultura da Poli) divertiu vários participantes e alguns passantes daquele lugar. Para contextualizar um pouco: Nascida do mambo, a salsa é uma mistura de vários ritmos diferentes. O “tempero” (significado de salsa em castelhano) está presente nos passos e jeitos dos dançarinos, atraídos pela música. Com um autêntico sabor latino-americano, a salsa é uma mescla de condimentos e de movimentos. Em sua história, está presente o merengue dominicano, o jazz norte-americano, o calipso de Trinidad e Tobago e a cumbia da Colômbia. Quando pensamos em salsa, logo lembramos daquele famoso par de “chocalhos”. São os maracas. Não se sabe ao certo sua origem, se vieram dos índios americanos ou do continente africano. Mas de uma coisa se tem certeza: é uma das marcas da salsa. Recheadas de diversos grãos, as maracas são chacoalhadas, gerando um ritmo característico, a própria alma da dança. À primeira vista, achamos todo tipo de salsa igual (confundimos inclusive com outros ritmos, como a lambada), mas a dança sofre variações de estilo nos lugares do mundo em que se desenvolveu. Para quem entende do negócio, essas variações são facilmente percebidas e baseadas nas culturas e influências de cada local, que interpreta a dança a seu jeito. Voltando à oficina... O professor logo apresentou a salsa aos que ali estavam. Existem três tipos: a salsa paralela, a salsa em linha e a salsa “roda de cassino”. Perguntando para os alunos por onde queriam começar, eles responderam: queriam a salsa em linha. Iniciando por passos básicos, a oficina passou um pouco desse espírito quente da salsa. Evoluindo para a passagem da dama e aprendendo a soltar os ombros, naquele movimento característico do ritmo, os casais se divertiam e se envolviam mais a cada precioso minuto. E as pessoas não paravam de chegar. Cada um com seu jeito, uns mais habilidosos e outros mais desengonçados, ninguém ali era profissional. E isso que era bom. Devo admitir, foi uma surpresa encontrar mais de quinze casais tentando relaxar e aprender um pouco naquele intervalo, já com um clima (era um sol bonito!) propício à dança. Assim, era impossível ficar parado. A aprendizagem dos passos era efetivamente colocada em prática ao soltar da música. Aí era uma empolgação só. A música dava outro tom àquele momento. Creio até que era a hora mais esperada pelos estudantes. Ninguém ficava sem par: eram casais de namorados, recém conhecidos, amiga com amiga, velhinha com mocinha. A oficina foi ministrada pelo prof. Sérgio Médici de Eston, chefe do departamento de Engenharia de Minas, de Petróleo, de Metalurgia e de Materiais da Poli. Sim, mais uma ótima surpresa. O professor é coordenador do grupo Fonte Danças, criado em 2005. Atuando no ensino de vários gêneros (samba de gafieira, tango, dança do ventre, salsa, zouk, entre outros), a Fonte Danças tem uma ligação especial com o projeto social Poli Fonte Mirim, criado em 1996, que atua na inclusão social de crianças e adolescentes do entorno da USP. Além dos alunos da Poli os alunos da Poli, estudantes de outras unidades também foram curtir a oficina. Aram, aluno da FAU, já fez aula de salsa e, ao ver a programação do SAPO, sua curiosidade falou mais alto. De quebra, levou Larissa que afirmou: “minha motivação foi ele!”. Curiosos, conduzidos ou desocupados puderam aproveitar bastante o que rolou e o que ainda vai rolar por lá. El tango y la Universidad 22/09/2009
Por Denise Eloy Se nem Raul Seixas, em sua Sociedade Alternativa, deixou de discutir Carlos Gardel, quem somos nós para desprezar uma arte tão completa e exótica como o tango? De origem não muito clara, essa dança a dois, incrementada por um estilo musical único, é composta de sentimentos extremamente humanos: amor, ciúme e saudade. Por uma cabeza, Metejón de um dia De aquella coqueta Y risueña mujer, Que al jurar sonriendo El amor que está mientiendo, Quema em uma hoguera Todo mi querer (Carlos Gardel) Com uma sonoridade incrível, ao ritmo do famoso “bandoneón”, casais entrelaçam seus corpos numa frenética dança de despedida. Ela é envolvente, não só para os bailarinos, já que atônitos ficam os expectadores. Bela, a dança é surpreendentemente sensual. Ok. Legal. Bonito. Mas ninguém aqui é especialista em tango (apesar de amar intensamente) para ficar discorrendo litros sobre o assunto. O que nos trouxe até aqui foi um simples fato: o estilo passou bem pertinho da gente. Sim, meus caros. Na 14ª Semana de Arte e Cultura (que ainda está ocorrendo, pessoal, aproveitem!), o grupo de dança Tango & Paixão fez duas apresentações nessa segunda-feira na FEA. Imagina só aquela penca de alunos passando despreocupadamente em mais um dia normal de aula. Às 18h30, em ponto, o ”bandoneón” começa em seu estilo inconfundível, seguido pela voz grave do intérprete e, posteriormente, pela destreza dos bailarinos. As reações são diversas. Muitos olham e param. Outros demonstram sua confusão com a performance em plena rampa da FEA. Alguns riem, alguns não ligam. Mais divertidos são aqueles que começam, devagarinho, a esboçar uns passinhos de tango. Era bem inusitado, de verdade. É incrível como a vibração dessa música e dessa dança é facilmente sentida, mesmo num ambiente que não favorecia o espírito do tango (era a rampa da iluminada e barulhenta FEA, minha gente!). Por favor, pensem agora naquelas casas de tango da Argentina, com suas luzes baixas, sua música agradável e aquele casal no pequeno palco, que você não consegue nem diferenciar os pés de tão juntos que estão e de tão rápidos que são seus movimentos. Dê-me um minuto para imaginar... Mas, enquanto não podemos ir ao cerne do tango, podemos admirá-lo aqui na USP e também em São Paulo. Olha que surpresa maravilhosa aconteceu no dia daquelas pessoas que não faziam a mínima ideia do que ia se passar ali na sua faculdade... É só prestarmos mais um pouquinho de atenção no que ocorre bem ao nosso lado. Ah, vai... só um pouquinho! | “Somos corpo e não pessoas que possuem
um corpo ou habitam um corpo” - Lenira Rengel Gostou?Já passou
June 2010 Categorias |






















