Um povo, muitas histórias 04/22/2010
por Lucas Rodrigues Fim de tarde de uma chuvosa segunda-feira. Por causa do feriado da semana santa, a cidade universitária não contava com a presença de muitas pessoas, a não ser a daquelas que, por algum motivo, não puderam voltar para casa. Para esses que optaram pelos longos dias da Universidade, a melhor atração estava perto, embora viesse de muito longe. Como em uma jogada de sorte, uma jovem conferia a programação exposta no mural do Cinusp. “É cinema africano?”, perguntou, mais a si mesma do que a qualquer outra pessoa. “Então, eu quero ver!”. Empolgada, resolveu entrar. Pelo número de espectadores na sala, não foi a única que tomou essa decisão. O motivo? Provavelmente, a vontade de mergulhar numa cultura, às vezes tão semelhante e, ao mesmo tempo, tão diferente da nossa. A mostra “Clássicos Africanos”, realizada no Cinusp, tentou trazer um pouco da produção do continente através do olhar de seu próprio povo, apesar de muitos dos filmes terem sido feitos em parceria com países europeus – situação que, até hoje, delimita o cinema africano. Entretanto, as obras exibidas na mostra buscaram retratar, justamente, um período de luta contra o imperialismo das grandes nações e de reafirmação da identidade africana. A África pelo africano Os cineastas do continente se organizaram fortemente para criar um conceito que representasse a sua população, a África como um todo, não apenas de regiões isoladas. “Uma arma, bem como um meio de expressão para o desenvolvimento da consciência da luta de classes”, segundo o Manifesto de Niamey (Nigéria), de 1982, era essa a missão dos filmes produzidos no continente a partir de então. O documento, que surgiu num encontro da Federação dos Cineastas Africanos (FEPACI), tinha como objetivo a formulação de regras para a produção, distribuição e divulgação do cinema africano. ![]() 'Jom ou a história de um povo' Entre os vários temas tratados, as questões sociais tiveram espaço no filme “Carta Camponesa” (1975), que mostra as dificuldades enfrentadas por um povoado senegalês. Outro assunto abordado entre as produções foi a colonização. Filmes como “Jom ou a história de um povo” (1981) e “Tabataba” (1987) denunciam o abuso e as revoltas dos africanos contra a presença dos estrangeiros. Os mistérios, lendas e costumes da África também foram retratados. Em “Fary, a jumenta” (1989), “Finzan” (1989) e “Taafe Fanga, poder de saia” (1997) nos são apresentadas as mais curiosas e inusitadas histórias sobre o continente. A influência de outras culturas na população africana foi igualmente documentada em produções como “África sobre o Sena” (1957), “E não havia mais neve” (1965), “Os príncipes negros de Saint-Germain- des- Près” (1975) e “Os comboys são negros” (1966). ![]() 'Áfricas sobre o Sena' Segundo Daniel Ifanger, estagiário de produção do Cinusp, que ajudou a organizar a evento, a ideia de fazer exibições de filmes africanos surgiu depois de não conseguirem firmar uma mostra sobre o cineasta francês Eric Rohmer, que foi postergada. Entretanto, afirmou que a decisão não foi feita porque era uma solução fácil. “Vimos que o conteúdo seria bom e conseguiríamos fazer a tempo”, disse. Daniel contou que os filmes foram selecionados a partir de uma coleção da Cinefrance, vinculada a Embaixada Francesa, chamada “Clássicos Africanos Restaurados”. Para ele, essas obras representam apenas parcialmente o cinema africano. “São diversos olhares, e o importante é que sejam olhares dos nativos, nascidos naqueles países, ainda que em um filme ou outro encontremos fórmulas conhecidas do cinema tradicional”, declarou. Sobre o objetivo da mostra, explicou que era o de reatar um diálogo com a cinematografia de um continente importante. Diálogo esse que, de acordo com ele, é complicado, por causa da “‘homogeneização’ do que entendemos por um filme, ou por cinema, presente nos pólos culturais”. “Em suma, é ter acesso às imagens africanas – que vão além do registro e possuem bastante expressividade”, completou. Um povo, muitas histórias. Assistir às produções africanas é se enxergar através da perspectiva de uma cultura a que tanto devemos. Precisamos conhecer mais de um continente exótico e seus desdobramentos, precisamos descobrir um pouco mais da origem do que somos hoje, da raiz que ajudou a formar o que agora nos identifica. As cores, os sons, os mitos, o sangue. Add Comment | “Meu personagens estão na rua, eles estão no pelourinho, é gente que eu conheci"
- Jorge Amado Gostou?Já passou
July 2010 Categorias |





