Jorge por João 07/12/2010
![]() Com voz baixa e educada, como se tivesse se desculpando por algo, João Moreira Salles começa sua palestra no Seminário Jorge Amado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH – USP). Após a exibição de seu documentário sobre o escritor baiano, o cineasta discute sua relação com o filme mostrado e com seu trabalho. Para ele documentário não é um veículo para transmitir informação, mas para transmitir certa experiência e reflexão sobre determinado assunto. Criador de uma das revistas mais admiradas pelo seu jornalismo, a revista piauí, Moreira Salles diz que essa transmissão da experiência é o que diferencia o documentário de uma peça puramente jornalística. Na opinião do documentarista, essa experiência só é acumulada quando o filme traz diferentes vozes e opiniões. Ele cita o exemplo do “Edifício Master”, do cineasta Eduardo Coutinho, que traz diferentes entrevistas e cria uma narrativa com vários discursos. Esse formato é chamado de modelo de mosaico e reúne diferentes fragmentos para montar a história final do filme. ![]() Mais especificamente sobre seu filme “Jorge Amado”, João fala que ainda não tinha maturidade como documentarista e, portanto, não conseguiu utilizar esse modelo de mosaico corretamente (muitos da platéia discordavam, ou por serem fãs de João ou de Jorge). Ele afirma que conseguiu incorporar essa polifonia apenas em seus filmes posteriores, como em “Santiago”. O documentário “Jorge Amado” tem a intenção de provar algo e, apesar das várias entrevistas, as pessoas são usadas para construir esse propósito inicial. “O filme é editado de uma forma que as pessoas acabam dizendo o que não disseram de verdade”, disse o cineasta. Já tentando acalmar os ânimos dos estudantes que lotavam o anfiteatro da História na FFLCH, ele falou que a ideia por trás de “Jorge Amado” não é ingênua, apesar de sua confecção direcionada. Com a ajuda de Lilia Moritz Schwarcz, professora da USP (e curadora do seminário), Moreira Salles tenta trazer o escritor baiano como alguém que leu e popularizou o também escritor Gilberto Freyre, cuja obra é um grande legado para a História brasileira. “A minha impressão era que se desconsidera Jorge Amado como boa literatura”, disse o documentarista que tentou desconstruir essa impressão. O documentário “Jorge Amado” traz o conceito de mestiçagem do povo brasileiro que o escritor adotou e tentou incorporar em suas obras, a partir da construção de personagens baseados na vida cotidiana da Bahia. “Meus personagens estão na rua, eles estão no Pelourinho, é gente que eu conheci”, disse Jorge Amado no filme. O longa-metragem que foi originalmente produzido em 1995 para um canal da televisão francesa foi recusado. Moreira Salles comprou os direitos do filme de volta para não ter que construir uma narrativa que não concordava. Add Comment | “Meu personagens estão na rua, eles estão no pelourinho, é gente que eu conheci"
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