Glauber Rocha visita o Cinusp 09/22/2009
Por Yasmin Abdalla Colméia. Favo 04. Um lugar que continua desconhecido para muitos uspianos, uma terra distante num dos cantos da praça do relógio, muito além do bandejão. Ir ao Cinusp era uma aventura para mim. E de fato o foi. “Meu nome? Oswaldo”. Já era o fim da nossa conversa. Um pouco antes de ele ir embora e eu seguir em frente, me perguntou: “qual é o seu signo?”. Parou um instante e logo replicou “gêmeos? Ainda vai fazer muita coisa boa na vida”. Espero que o Escarlate seja uma delas. Há 5 minutos não imaginava que nossa conversa terminaria assim. “Você está com cara de perdida, o que procura?” Ele não amedrontava, tinha quase uma tom paternal comigo. Não tive medo de falar. “O Cinusp? É aqui mesmo. O que está passando de bom?”, continuou ele. ![]() Cheguei ao meu destino final: o Cinusp Paulo Emílio. O local traz a mostra Glauber Rocha: 70 anos, que celebra a idade que o artista teria em 2009 caso estivesse vivo. A mostra reúne alguns sucessos, como Deus e o Diabo na Terra do Sol, filme mencionado por Oswaldo, e ainda filmes menos conhecidos, como a Idade da Terra e Cabezas Cortadas, em que Glauber já passava por outra fase. As sessões fazem parte da programação da 14º Semana de Arte e Cultura, que acontece na Universidade de São Paulo. Glauber Rocha transpirava e vivia o cinema. Foi responsável por marcar a sétima arte brasileira, a partir da proposta tanto nacionalista quanto de denúncia sobre questões brasileiras. O apogeu do cineasta ocorreu entre os anos 60 e 70, quando em 1963 lançou um de seus filmes mais conhecidos Deus e o Diabo na Terra do Sol. ![]() “Glauber Rocha! Lembro muito bem... Plena ditadura, os portões da primeira sessão de Deus e o Diabo na Terra do Sol quase se fechando, e eu correndo para tentar entrar. Sabe quem estava do meu lado? Jô Soares”. Oswaldo foi falando tudo assim mesmo, meio corrido, meio atropelado. Enquanto uns correm para ver sessões escondidas, alguns anos depois, muitos mal sabem o que acontece a sua volta. A sessão vazia me fez pensar em Oswaldo. Parece que na época em que tudo era proibido, os lugares eram mais lotados. Uma forma das pessoas se sentirem ativas, buscando seus ideais de nação. O baiano, malvisto pela ditadura, abordou temas como o homem no campo, a ridicularização da política nacional e alguns aspectos da cultural brasileira, como sua musicalidade e sua religiosidade. Os filmes de Glauber Rocha não são para serem vistos com uma pipoca na mão e uma coca-cola ao lado. Oswaldo já havia me mostrado isso, era preciso atenção para entendê-los. Um homem e dois telefones ao mesmo tempo. Ele fala um espanhol confuso e rápido. Não sabe a quem ou que dar atenção. Ele mesmo não se entende. ![]() Poucos podem reconhecer, mas esta é uma cena de um filme de Glauber Rocha. Cabezas Cortadas, que também está na mostra, é gravado na Espanha e faz parte de uma fase do cineasta que problematiza questões além do Brasil. “Mostrar filmes do cineasta que são menos conhecidos é justamente nossa proposta”, declarou Daniel Ifanger, um dos responsáveis pela mostra. “Os filmes de sucesso sempre têm público, mas nós queríamos mostrar os filmes que são pouco vistos também”. O acervo da amostra foi concedido pela associação Tempo Glauber e pela família do artista. Vale a pena conferir a programação que fica em cartaz até o dia 25 de setembro. O tempo é curto, mas o Cinusp é logo ali. Vale a pena a aventura, quem sabe Oswaldo está por lá. Se não estiver, Glauber com certeza estará. Para ver a programação completa e obter maiores informações, acesse o site do Cinusp (www.usp.br/cinusp). Bom filme! 2 Comments | “Meu personagens estão na rua, eles estão no pelourinho, é gente que eu conheci"
- Jorge Amado Gostou?Já passou
July 2010 Categorias |





