Entre irmãos 10/21/2009
por Lívia Furtado Eu não vivo sem a minha irmã. Quando pequena, às vezes eu pensava como seria bom ser filha única – ganhar todos os presentes, ter todas as roupas, ocupar o banco todo do carro. Não ia ter quem me botasse em enrascadas com os meus pais, nem quem dissesse que eu tinha menos direitos por ser mais nova. Até que percebi que se não tivesse irmã, eu não teria de quem pegar coisas emprestadas, nem quem me ajudasse a me vestir, nem quem me fizesse rir durante as viagens chatas. Nem teria uma cúmplice sempre ali, ou me defenderia das meninas mais velhas na escola. Irmão deveria estar no dicionário como “essencial”. Fraternidade, como “inviolável.” ![]() 'Dois destinos', de 1962 Os filmes da mostra “Entre Irmãos”, em cartaz desde a semana passada no Cinusp, retratam exatamente isso. De situações em que as crianças vivem escondidas, sem a mãe, e o irmão mais velho assume as responsabilidades – “Ninguém pode saber”, filme japonês de Hirokazu Koreeda -, àquelas em que os irmãos foram separados quando crianças e são completamente diferentes – o italiano “Dois destinos”, de Valerio Zurlini – as obras mostram a importância dessa relação familiar na formação dos indivíduos e para sua sobrevivência. É impossível não se identificar de algum modo com aquelas personagens - impossível não se lembrar da irmã mais velha que assume o controle quando as coisas estão meio sem chão, ou do irmão com opiniões políticas tão diferentes, ou do irmão meio fútil, avoado, ou do irmão que se apaixona pela mesma menina que você. ![]() Os 4 irmãos de Ninguém Pode Saber O tom intimista do título da mostra transporta essa relação de ajuda e necessidade das relações humanas para a relação obra/público. Os filmes servem como consolo, escape, forma de indignação ou esperança, dependendo de como construímos seus sentidos e nos permitimos relacionar com eles. A mistura de nacionalidades e “idades”, japoneses com italianos, recentes com clássicos, faz com que todo tipo de público se encontre ali, em algum dia e horário. Todos podem buscar o ombro amigo do irmão simbólico na tela, as palavras confortadoras das personagens, as risadas, as confissões. “Ninguém pode saber” influenciou, inclusive, o estilo do curta “Fim de semana sim”, TCC do aluno de audiovisual Vinicius Toro, mostrando que da leitura feita pelo jovem do filme, ele mesmo criou uma nova obra – a arte alimentando a arte, o cinema servindo como o irmão que ajuda, apóia, inspira. ![]() Sabrina: dividida entre irmãos Os clássicos assumem com mais força ainda esse papel – são aqueles filmes que estão sempre ali, aconteça o que acontecer, aqueles que a gente guarda com tanto carinho no coração e que faz valer tão a pena perder horas do seu dia na salinha do Cinusp. Seja uma sexta feira à noite gasta para ver Marcello Mastroianni como Enrico (em “Dois destinos”), seja para apreciar a eterna Audrey Hepburn em “Sabrina” (e Humphrey Bogart como seu par). Dizem que irmão a gente é quem escolhe. Aproveite: o Cinusp está te oferecendo ótimas opções. Infelizmente, devido a um "desencontro de agendas", a mostra Entre Irmãos acaba essa sexta. Mas ainda dá tempo de conferir "Sabrina", "Rocco e seus irmãos", "Irmãos" e "Zoo". Veja os horários na nossa agenda. Add Comment Glauber Rocha visita o Cinusp 09/22/2009
Por Yasmin Abdalla Colméia. Favo 04. Um lugar que continua desconhecido para muitos uspianos, uma terra distante num dos cantos da praça do relógio, muito além do bandejão. Ir ao Cinusp era uma aventura para mim. E de fato o foi. “Meu nome? Oswaldo”. Já era o fim da nossa conversa. Um pouco antes de ele ir embora e eu seguir em frente, me perguntou: “qual é o seu signo?”. Parou um instante e logo replicou “gêmeos? Ainda vai fazer muita coisa boa na vida”. Espero que o Escarlate seja uma delas. Há 5 minutos não imaginava que nossa conversa terminaria assim. “Você está com cara de perdida, o que procura?” Ele não amedrontava, tinha quase uma tom paternal comigo. Não tive medo de falar. “O Cinusp? É aqui mesmo. O que está passando de bom?”, continuou ele. ![]() Cheguei ao meu destino final: o Cinusp Paulo Emílio. O local traz a mostra Glauber Rocha: 70 anos, que celebra a idade que o artista teria em 2009 caso estivesse vivo. A mostra reúne alguns sucessos, como Deus e o Diabo na Terra do Sol, filme mencionado por Oswaldo, e ainda filmes menos conhecidos, como a Idade da Terra e Cabezas Cortadas, em que Glauber já passava por outra fase. As sessões fazem parte da programação da 14º Semana de Arte e Cultura, que acontece na Universidade de São Paulo. Glauber Rocha transpirava e vivia o cinema. Foi responsável por marcar a sétima arte brasileira, a partir da proposta tanto nacionalista quanto de denúncia sobre questões brasileiras. O apogeu do cineasta ocorreu entre os anos 60 e 70, quando em 1963 lançou um de seus filmes mais conhecidos Deus e o Diabo na Terra do Sol. ![]() “Glauber Rocha! Lembro muito bem... Plena ditadura, os portões da primeira sessão de Deus e o Diabo na Terra do Sol quase se fechando, e eu correndo para tentar entrar. Sabe quem estava do meu lado? Jô Soares”. Oswaldo foi falando tudo assim mesmo, meio corrido, meio atropelado. Enquanto uns correm para ver sessões escondidas, alguns anos depois, muitos mal sabem o que acontece a sua volta. A sessão vazia me fez pensar em Oswaldo. Parece que na época em que tudo era proibido, os lugares eram mais lotados. Uma forma das pessoas se sentirem ativas, buscando seus ideais de nação. O baiano, malvisto pela ditadura, abordou temas como o homem no campo, a ridicularização da política nacional e alguns aspectos da cultural brasileira, como sua musicalidade e sua religiosidade. Os filmes de Glauber Rocha não são para serem vistos com uma pipoca na mão e uma coca-cola ao lado. Oswaldo já havia me mostrado isso, era preciso atenção para entendê-los. Um homem e dois telefones ao mesmo tempo. Ele fala um espanhol confuso e rápido. Não sabe a quem ou que dar atenção. Ele mesmo não se entende. ![]() Poucos podem reconhecer, mas esta é uma cena de um filme de Glauber Rocha. Cabezas Cortadas, que também está na mostra, é gravado na Espanha e faz parte de uma fase do cineasta que problematiza questões além do Brasil. “Mostrar filmes do cineasta que são menos conhecidos é justamente nossa proposta”, declarou Daniel Ifanger, um dos responsáveis pela mostra. “Os filmes de sucesso sempre têm público, mas nós queríamos mostrar os filmes que são pouco vistos também”. O acervo da amostra foi concedido pela associação Tempo Glauber e pela família do artista. Vale a pena conferir a programação que fica em cartaz até o dia 25 de setembro. O tempo é curto, mas o Cinusp é logo ali. Vale a pena a aventura, quem sabe Oswaldo está por lá. Se não estiver, Glauber com certeza estará. Para ver a programação completa e obter maiores informações, acesse o site do Cinusp (www.usp.br/cinusp). Bom filme! | “Meu personagens estão na rua, eles estão no pelourinho, é gente que eu conheci"
- Jorge Amado Gostou?Já passou
July 2010 Categorias |








