A arte como fim 10/21/2009
por Lívia Furtado Entrar na faculdade é uma festa. Trote, matrícula, muita tinta - e dependendo da faculdade em que você entrou, lama e outras coisas mais. Quem entra em Audiovisual na USP passa a frequentar, como todo bom ECAno, quintas e brejas, festecas, Outubros (ou Nada), e em meio disso tudo o tempo passa sem ninguém reparar. E aí, de repente, você tem que fazer seu TCC. A saída da vida universitária para a vida "adulta", simbolicamente representada pelo Trabalho de Conclusão de Curso, foi tema de debate entre os alunos de audiovisual na última sexta-feira, dia 16. A iniciativa de apresentar os TCCs desse ano, com o objetivo de divulgar os filmes e ajudar os mais novos com seus próprios trabalhos, foi tomada pelo estudante Miguel Antunes Ramos, do terceiro ano, representante dos AVs (como são conhecidos os estudantes do curso). Quatro curtas, entregues esse ano, foram exibidos no auditório Paulo Emílio (aquele do segundo andar, em cima do Lupe Cotrim – esse você, se for da ECA, conhece bem; é aquele onde rolou a famosa palestra de Cinema Independente no começo do ano): “O Presidente,” de Luiza Favale (ingressa em 2004); “A guerra de Arturo”, de Júlio Taubkin (2003); “Nuvens”, de Daniel Grinspum (2003)e “Fim de semana sim”, de Vinicius Toro (2002). Após a exibição dos filmes, o professor Christian Borges iniciou um debate/bate-papo entre o público e os criadores. ![]() Arturo: estilo antigo A arte como espelho Os quatro diretores estavam presentes e, sentados a uma mesa de frente para o auditório, falaram primeiro sobre os processos de criação e filmagem. A partir daí, desenrolaram-se discussões acerca de detalhes técnicos - as dificuldades de se fazer um filme usando uma película de 35mm, as vantagens e desvantagens do digital – e, depois, começou-se a falar sobre os temas abordados nos curtas. O aluno Diogo Faggiano, do quinto ano de AV, apontou o fato de que 3 dos 4 filmes tinham crianças no papel principal – apenas “Arturo” fugia à regra. Diogo comentou ser essa uma característica que ele percebia em grande parte dos trabalhos produzidos no curso, e começou-se a refletir se aquilo seria uma espécie de escudo usado pelos estudantes. Toro analisou que olhar uma situação dez anos depois torna mais fácil analisá-la, logo os problemas da nossa infância são melhores compreendidos por nós aos vinte anos. Talvez essa transição pela qual os alunos estão passando ao produzir o TCC, esse ser jogado no mercado de trabalho mas ainda não ser “completamente adulto”, faça com que eles busquem retratar um mundo, um ciclo de problemas que já foi resolvido. Taubkin acrescentou que seria muito mais difícil falar dos problemas pelos quais eles passam através dos olhos de alguém da mesma idade, porque eles ainda não têm uma visão ampla sobre o assunto, estão muito absorvidos nele. Além disso, adolescentes são muito mais explosivos e intensos. ![]() O pequeno presidente A própria Favale revelou que “Presidente” trata, embora em metáforas e analogias, de situações muito pessoais vividas pela garota – o menino que sonha em ser presidente dos Estados Unidos, tem o sonho zombado pela mãe, e passa por um processo de amadurecimento difícil. “Talvez tenha sido uma forma de escudo mesmo, colocar uma criança, não uma adolescente como eu.” O professor Borges achou produtiva a discussão. “Esse é um ponto muito interessante, porque pode ser que isso seja algo que a gente tenha que trabalhar melhor no programa do curso. Talvez seja interessante incentivar as próximas turmas a fazerem filmes sob os olhares da própria geração.” ![]() Nuvens: choque de realidades A arte como resposta O que ficou claro durante o debate foi o fato de que as obras serviram como modo de aliviar alguma inquietação dos diretores. Todas tratam de uma mudança, um rompimento – do menino sonhador a Arturo, o homem que causa uma guerra quando pela primeira vez cria uma notícia -, abordam temas que incomodam – de Bia, em “Fim de semana sim”, seus pais divorciados e sua convivência com Bruno, portador de síndrome de Down, a Luana, a garota de “Nuvens” que vende balas no semáforo. “Eu sabia que queria falar sobre isso porque sempre foi algo que me incomodou, não saber lidar com aquelas pessoas.” Grinspum se refere aos moradores de rua, que são tema de “Nuvens”, e como ele quis tratar o tema de forma mais lírica, por ser aquele um universo desconhecido para ele. ![]() Bia em conversa com o pai Toro também lidou com situações delicadas em “Fim de semana sim”, na qual a menina Beatriz é obrigada a conviver com Bruno, portador de Síndrome de Down, filho da namorada de seu pai. A saída foi fazer vários workshops com crianças na APAE e aprender que conviver com as diferenças é o único modo de aceitá-las. A arte como construção O evento provou que a obra de arte se constitui de uma construção interminável de sentidos. Assim como na roda de leitura de Guimarães Rosa, as opiniões de cada espectador iam lançando novas luzes aos filmes, detalhes e sentidos que às vezes nem mesmo os próprios diretores haviam notado. Essa pode ser uma experiência riquíssima para os estudantes de audiovisual – e de outros cursos também (mesmo porque vários também se utilizam da forma vídeo em TCCs – são comuns os documentários em jornalismo), e deveria ser estimulada dentro do departamento. A convivência de diferentes áreas em um debate como esse apenas enriquece a produção. Miguel admite, porém, que é difícil. “Você se esforça pra organizar tudo e vai muito pouca gente.” Ficou interessado? Deixe um comentário na matéria ou envie um email pra Escarlate mostrando seu apoio à realização de mais eventos como esse. Só depende de você! Add Comment | “Meu personagens estão na rua, eles estão no pelourinho, é gente que eu conheci"
- Jorge Amado Gostou?Já passou
July 2010 Categorias |







