Mães de Maio 10/07/2009
por Yasmin Abdalla “Paz, justiça e liberdade” – grito do PCC ![]() Lúcia, mãe de Rafael, presidiário durante maio de 2006, vivo. Débora, mãe de Édson, cidadão livre durante maio de 2006, morto. O filme Salve Geral – o dia em que São Paulo parou do diretor Sérgio Rezende, foi exibido na última quarta (30/09), no Cinusp Paulo Emílio e contou com uma presença em massa dos estudantes, na esperança de ver parte de sua história exibida no cinema. O filme se passa durante os ataques do PCC a São Paulo, no primeiro semestre de 2006. Não morava aqui. Aquilo não fazia parte da minha história. Antes de entrar no filme queria saber da cidade naqueles dias. Queria saber das pessoas. Alexandre Chaves comentou:“Eu fiquei calmo, mas não deveria, eu passei por três delegacias, a coisa poderia ter apertado”. Já Bruna Buzzo se manteve mais cautelosa: “Eu poderia ter ido para casa sozinha ou ter esperado até minha mãe me buscar. Fiz meu simulado e fiquei na escola mesmo”. Mas provavelmente ninguém naquela fila era Lúcia ou Débora em 2006. Lúcia é a protagonista do filme. Ela vive um drama pessoal na tentativa de tirar seu filho do fogo cruzado entre a organização de presidiários e o Estado. Débora é protagonista de sua própria vida. Ela teve seu filho morto na cidade de São Vicente, no litoral paulista, durante o período retratado no filme. Não pôde fazer nada por seu filho. O crime até hoje continua impune. ![]() Salve Geral, que concorrerá ao Oscar de 2010, mostra os fatos daquele dias das mães em 2006 por uma ótica diferente. Os eventos são vistos sob o ponto de vista de Lúcia (Andréia Beltrão), professora de piano que representa a classe média do Brasil. Seu filho, Rafael (Lee Thalor) acaba se envolvendo com o assassinato de uma menina e é preso. O filme foca-se muito no drama pessoal de Lúcia que se envolve com Ruiva, advogada ligada ao PCC, na tentativa de tirar seu filho da prisão. Drama este que não dá importância a certos fatos da época, como a morte 493 pessoas, muitas delas inocentes. "Esse filme não mostra a matança sobre a sociedade civil. Pelo que li, a história termina no terceiro dia, na segunda, e as mortes continuaram por mais cinco dias", aponta Débora Maria da Silva, que preside a Associação de Amparo a Mães e Familiares Vítimas de Violência. A mesma Débora, mãe de Édson Rogério. O grupo é conhecido pelo nome Mães de Maio, que faz referência a organização Madres de la Plaza de Mayo, grupo de mães argentinas que luta pela punição de crimes da última ditadura argentina. Apesar das críticas lançadas ao filme, Sergio Rezende deve ser aplaudido. Aplaudido pela sua coragem de fazer um filme sobre o PCC. Pelo belo filme que nos apresenta, com imagens impactantes, frases de efeito e uma trilha sonora de emocionar qualquer um (muito bem escolhida pelo Maestro Miguel Briamonte). E ainda pela bela escolha da atriz Denise Weinberg, que com toda sua dramaticidade teatral, interpreta a advogada Ruiva conseguindo sintetizar as pessoas reais ligadas ao partido do lado de fora das prisões. Os personagens de Andréa Beltrão e Lee Thalor poderiam ser essa síntese de mães e vítimas, mas não foram. ![]() Rezende disse à Folha Ilustrada que Lúcia foi construída a partir de uma visão própria da classe média, “Pelas circunstâncias ela é forçada desde o início a ver o mundo de outra maneira”, completa o diretor. “Ele não retrata a realidade das mães, não me sinto representada", afirma Débora sobre o papel interpretado por Andréa Beltrão, que acaba ajudando a advogada da facção, e até se envolvendo sexualmente com um líder criminoso. Romance que não apenas é improvável na vida real, como de certa forma ridiculariza a densidade do período que Rezende retratou. Neste ponto do filme, Lúcia torna-se uma personagem inconstante e fraca – não parece uma mãe em desespero (e sim uma adolescente apaixonada). Além disso, Rezende declarou que, apesar de não ter entrevistado nenhum presidiário, coletar informações sobre os bastidores do PCC “foi a coisa mais fácil do mundo”. Certa contradição na apuração que talvez não tenha permitido a construção de personagens fortes e coerentes. Muitos alegam que nosso filme representante ao Oscar é muito violento e que possa manchar a (já manchada) imagem nacional. Talvez esse não seja o fator limitante ao Oscar. Bem ou mal, a violência faz parte da nossa realidade. Não é a realidade que atrapalha a vitória e sim uma ficção calcada na realidade e em personagens reais com Débora e Édson. *O filme foi exibido apenas uma vez na USP. mas não perca a chance de assistí-lo: Para ver os locais de exibição - clique aqui. Para ver o trailer - clique aqui *Agradecimento especial a Rafael Ciscati pelas inspiradoras discussões sobre o filme. Comments10/13/2009 15:42
Ah, Yasmin, acho que um dos grandes trunfos do Rezende foi a escolha do elenco: Denise e Andréia estão incríveis, é verdade, mas essa ideia de procurar atores na cena teatral paulistana também foi genial, o filme escapou daquelas figurinhas carimbadas de sempre. Afinal, tudo bem que Rezende é Globo filmes, mas nem por isso o elenco precisa ter cara de novela das oito, né?
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Leave a Reply | “Meu personagens estão na rua, eles estão no pelourinho, é gente que eu conheci"
- Jorge Amado Gostou?Já passou
July 2010 Categorias |





