As singularidades além das fronteiras 05/06/2010
![]() Fronteiras políticas, geográficas, linguísticas. Há em todas elas o fator de ruptura. A ideia de algo tão próximo que se pode ver e tão longe que não se pode tocar. Por ser uma linha tão tênue entre o ser e o não ser, fronteiras promovem atritos, nervosismos e exclusões. Fronteiras julgam de um modo dualista, não há meio termo. Na vida prática, não há apenas o ser e o não ser. O ser humano possui singularidades que as fronteiras existentes não conseguem captar. Não há essa ruptura tão delineada que a partir de determinada latitude todas as pessoas serão boas ou más. Não somos maniqueístas. O mundo vive por suas intersecções e não por suas fronteiras. Para o filósofo italiano Giorgio Agamben, a comunidade surge justamente a partir dessas singularidades. Todos podem se expressar e destacar sua essência mesmo sendo um “qualquer”. Agamben destaca que o “qualquer” é diferente do qualquer um, ele é o único, mesmo sendo comum. A comunidade é o resultado dos potenciais individuais. Na ficção, um personagem não pode sintetizar uma época, um povo, um lugar, mas ele pode (e deve) trazer características e reflexões sobre aquilo que o rodeia. Em geral, o ser humano nunca traz consigo apenas sua vida, ele traz consigo narrativas, metáforas e, principalmente, outras vidas. Vidas que conseguem se ver através daquilo que lhe é mostrado e que ao mesmo tempo ajudam a construir aquele indivíduo. No cinema, o ser humano torna-se ainda mais único. Um filme busca uma história, um indivíduo que esteja ligado a várias outras histórias, mesmo sem as ter vivenciado. Em especial, quando fronteiras são abordadas, sempre há um personagem central, alguém que possa trazer toda a complexidade que a fronteira insiste em diluir e dividir. ![]() “Maria Cheia de Graça” de Joshua Marston, traz a vida de uma menina colombiana de 17 anos, demitida e grávida, que decide melhorar de vida. Ela recebe uma proposta para transportar heroína para Nova York e aceita. Maria (Catalina Sandino Moreno) tem seus medos, suas expectativas, que são dela e ninguém pode roubar. Mas ela simboliza um povo que vai muito além do povo colombiano, ou do povo da América Latina, ela representa mais do que o simples desejo de viver nos Estados Unidos. Seu desejo de mudar de vida, de melhorar, vai além da fronteira norte-americana, afinal todos queremos sempre melhorar. Não há a colombiana insatisfeita e os americanos perfeitos, todos têm expectativas e frustações. ![]() Em “Lemon Tree”, do diretor Eran Riklis, Salma (Hiam Abbass) é uma árabe dona de um pomar de limões nos territórios ocupados, próximo à fronteira com o Estado de Israel. Do outro lado da fronteira, bem ao seu lado, Salma recebe um novo vizinho, o Ministro da Defesa de Israel e sua mulher, Mira (Rona Lipaz-Michael). Para o serviço secreto israelense, o pomar de Salma é uma ameaça para o ministro, um possível esconderijo para terroristas. Salma não se conforma e tenta recuperar o direito sobre sua terra. Para a professora Arlene Clemesha, que dá aula na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP sobre História da Palestina Moderna, “Lemon Tree” é uma comparação leve em relação à realidade, e talvez seja essa a intenção do filme. O drama de Salma não vale por todos os dramas da região, mas é com certeza algo que provoca reflexões e revoltas sobre a situação. ![]() Ver “Lemon Tree” e acreditar que uma viúva árabe contestou sozinha a decisão do serviço secreto israelense é difícil para muitos. A professora explica que realmente a ação ser movida sozinha por ela e por seu advogado não é comum. Em especial, os palestinos se reúnem para contestar. Ela conta do caso do vilarejo de “Bilin”, em que os moradores se mobilizaram para impedir que o muro não passasse no meio da sua terra e conseguiram. “Isso ajuda a manter uma aparência de democracia em Israel” diz ela. Enquanto isso, a esposa do Ministro, apesar de representar a indiferença que os israelenses tem em relação aos palestinos, consegue ver atrás do muro. Ela de certa forma sente o drama de Salma. Ninguém é completamente mal ou bom no filme. Tanto Salma quanto Maria trazem aspectos culturais e sociológicos do seu povo, mas nunca represetarão toda uma nação por inteiro. Falar de fronteiras é lembrar que somos todos de uma raça só, e os grandes problemas nascem justamente quando fazemos generalizações. Somos todos altruísta e egoístas, anglos-saxões e latinos, árabe e israelenses. Ninguém é uma coisa só. Mostra Fronteiras: Aborda fronteiras geopolíticas (dentre os filme "Lemon Tree e "Maria Cheia de Graça") Cinusp Paulo Emílio Rua do Anfiteatro, 181, Colméia Favo 04 Programação: http://www.usp.br/cinusp/ CommentsLeave a Reply | “Meu personagens estão na rua, eles estão no pelourinho, é gente que eu conheci"
- Jorge Amado Gostou?Já passou
July 2010 Categorias |






