Escarlate :: A sua revista virtual sobre arte na USP
 
Picture
Há 5 edições, a revista dá espaço para que a literatura uspiana cresça.
Todo mundo tem um pouco de louco - e de poeta. Quem é que nunca tentou expressar seus sentimentos colocando no papel o que sentia? Com a ascensão dos blogs, aumentaram em muito as chances de algum estranho ler aquele seu texto antes só conhecido por amigos e familiares - querida, lê pra sua vó seu poema novo! Mas para os aspirantes a escritores, poucas coisas superam a emoção de ver seu texto em alguma publicação impressa. Além de todo ritual envolvido - a espera, a notícia de que alguém gostou o suficiente do seu texto para publicá-lo, a revisão, a edição, a diagramação -, há ainda aquela sensação indescritível ao se ver um desconhecido lendo seu texto na rua.

É fato que metade dos bixos de jornalismo, letras e direito, por exemplo, entram na faculdade com esse sonho - não adianta negar. Mas há também muitos talentos escondidos entre os físicos, politénicos, biólogos, psicólogos. E, há cinco anos, os alunos de Editoração decidiram fazer mudar um pouco essa realidade de textos juntando pó nas gavetas.

Primeiro: sim, Editoração existe e é um curso de graduação (e várias outras coisas muito engraçadas, segundo o que os próprios alunos escrevem e publicam no manual dos bixos de edit). Segundo: os edits são raros - quinze por ano, dividem um departamento com os jornalistas lá na ECA - mas muito criativos e, graças a eles, a Originais Reprovados existe.  Criada em 2005, essa revista toda diferente, pequena e cheia de desenhos aceita textos de qualquer bixo, veterano ou pós-graduando da USP. É só enviar seu trabalho e, se for escolhido pela equipe da revista, ser publicado (a OR6 ainda não tem data pra sair, mas no site da Originais você pode se inscrever para receber notificados de quando começa a seleção).

Quando surgiu, ela era uma publicação própria da Com-Arte Júnior - CAJu, para os íntimos -, a empresa júnior do curso; ano passado, se transformou em um Projeto de Cultura e Extensão. Espera, extensão? Exatamente. Sabe aquela história de tripé universitário de que todo mundo parece falar nas palestras e aulas magnas e sobre a qual você, recém-chegado à USP, nunca tinha ouvido falar? Extensão é isso: devolver à sociedade algo do que nos foi possibilitado por ela. A OR passou a ser distribuída gratuitamente e a ser levada para fora do campus - passou a ter por obrigação acrescentar algo à vida das pessoas fora da USP, "já que a ideia de um projeto de cultura e extensão é devolver à sociedade o que é gasto com a universidade pública", explica a editoranda do segundo ano Nathália Dimambro, que participou da criação da OR número 5, em 2009. A ideia é incentivar a leitura e a redação dos jovens dessas escolas, além de mostrar a eles que ter seus textos publicados por alguém não é algo assim tão fora de seu alcance.

Para os uspianos, o que muda de verdade é que, por não ser mais paga, a revista passou a ter um público muito maior. Bárbara Prince, coordenadora da última edição, contou que os pontos escolhidos para distribuição foram os bandejões. Como não quiseram privilegiar nenhuma unidade, membros da equipe deixavam exemplares da revista nos restaurantes e depois iam ver o resultado. "Deu super certo, os exemplares sumiam," comemora Bárbara. Sobre a mudança, a garota explica que antes, apesar da revista dar certo para a CAJu - por causa de todo aprendizado envolvido -, ela não alcançava muitos leitores e, portanto, não cumpria seu papel comunicador. Agora, as chances do seu texto ser lido por colegas da faculdade inteira são muito maiores - não há quem não fique atraído pelas capas coloridas e bonitas da Originais. Ou, no caso da primeira edição, não fique curioso pra saber o que há dentro daquele envelopezinho pardo.

Arte e texto estão totalmente interligados nas páginas da Originais - não há arte isolada, afinal. Desenhos, ilustrações feitas pela equipe e a diagramação às vezes diferenciada trazem mais vida às palavras. "Setembro", do aluno de publicidade Lucas Nascimento, tem o formato das torres gêmeas - ele enviou o texto à OR já desse modo, e gostou do fato da equipe ter sido fiel aos desejos do autor.  No caso de José Muniz Jr., ex-aluno que participou da equipe da primeira OR e anos depois teve um texto publicado na revista, a forma poderia ter sido trágica não fosse uma coincidência: "Tem uma história engraçada. Um dia eu tava passando lá pela sala 10 [uma das salas da Com-Arte Jr.] e vi alguém diagramando justamente o meu poema. Fiquei feliz com a coincidência e fui dar uma olhadinha. Aí eu vi que a pessoa tava fazendo um lance na diagramação que ia basicamente destruir metade do sentido do poema. Por sorte eu estava lá e indiquei o engano." 

É como lembrou Bárbara: a OR é uma publicação estudantil, um lugar de aprendizado e, consequentemente, erros (os jornalistas ecanos bem sabem que "todo São Remo é o pior São Remo da história", por exemplo). "A gente manda os textos revisados pros autores para eles aprovarem a revisão. Se a diagramação for mudar o sentido do texto, também fazemos isso. O problema é quando o autor não colabora e nos trata mal se tem alguma coisa errada."

Mas a ideia é justamente essa: aprendizado. Ter seu texto publicado também é aprender - a lidar com editores, a controlar a ansiedade, a abrir mão de algo que até então era tão seu. Se não na Universidade, aprenderemos onde? Por isso, fique de olho: além da Originais, você pode enviar seus trabalhos também para Mostras como a Nascente, que acontece  no começo do ano, ou para concursos como o Concurso de Talentos da FEA. Eles não serão publicados, mas ficarão expostos ao público. É hora de tirar os originais da gaveta e deixá-los respirar.

E se depois de ler tudo isso você pensar "Mas o meu negócio mesmo é jornalismo", tá esperando o que? Envie sua pauta pra gente!

* Lívia Furtado é Diretora de Projetos da Com-Arte Jr., mas nunca participou da equipe da Originais Reprovados.
 
 
por Isadora Sinay
A tradicional feira (ou festa) de livros da FFLCH acontece todo ano, normalmente no mês de novembro. Estudantes da USP - mas não só eles - esperam o ano todo, ansiosamente, a chance de poder comprar todos aqueles títulos desejados por metade do preço - literalmente. Adultos, adolescentes, crianças, todos lotam os corredores e rampas do prédio de história e geografia. A estudante de cinema da FAAP Isadora Sinay conta sua experiência durante o segundo dia do evento.
Às 7 da noite da última quinta-feira (29), depois de mais de uma hora de viagem em um ônibus abafado e cheio, eu cheguei na festa do livro perseguida por uma chuva irritante (a responsável por me deixar uma hora no  tal ônibus) e com um mau-humor considerável. Então eu vi a multidão. Parecia que eu não tinha saído do ônibus e pensei “não vai dar, vou embora”, mas eu não podia deixar de pensar “livros com desconto, livros com desconto, livros com desconto” então respirei fundo e fui.

A primeira parada foi a Editora 34, reconhecível tanto pelo cartaz quanto pelo amontoado de pessoas. Chegar de fato ao balcão não parecia viável, mas com alguma cara-de-pau e sorte por não ser muito alta eu consegui sutilmente passar na frente de algumas pessoas e alcançar os livros. Estavam todos lá, tudo que você poderia esperar da 34, aquelas edições enormes e ilustradas com xilogravuras de Dostoievski (traduzidas direto do russo!), outros russos como Tostoi e Lekov (sempre traduzidos direto do russo) e as edições de luxo de alguns outros clássicos como “A Divina Comédia”, que eu confesso não ter dado atenção. Tudo que eu queria era Dostoievski, e eles estavam todos lá, todos os livros do autor que eu poderia lembrar de cabeça, desde a edição dupla de “Os irmão Karamazov” até textos desconhecidos como “Gente Pobre”. E sim, os preços estavam todos com 50% de desconto e havia etiquetas nos livros. Agarrei um exemplar de “Os Demônios”, outro de “O Jogador” e fui enfrentar a longa fila de pagamento. Foi longa, mas foi organizada. Ponto para a 34, que tinha o catálogo quase completo, preços realmente reduzidos e organização, se você tivesse paciência.

A partir daí eu saí em peregrinação, levando um Sade e uma edição bilingue de poemas da Emily Dickinson na Iluminuras, um Adorno na publifolha.  Foi tudo organizado, mas os livros estavam com o preço sem o desconto (também de 50%), o que não causava problemas porque ambas estavam relativamente vazias, mas não iria funcionar se tivesse mais público. E foi o que aconteceu na Martins Fontes, impossível de ver os livros expostos e impossível ser atendido para descobrir o preço real dos livros. O desconto de 50% criava presentes como “Toda Mafalda” por 50 reais, mas era claro que apenas uma seleção muito reduzida do catálogo da editora estava lá. Com bastante esforço, pesquei um “Entre os Muros da Escola” e saí meio insatisfeita.

Para mim, e imagino que para muitas outras pessoas, o stande mais desejado era o da Cosac Naify, cujos livros não costumam ser compráveis em situações comum. Eu não sei se foi porque cheguei na quinta a noite, ou se a editora levou apenas uma parcela muito pequena de suas obras, mas não tinha nada. Eu perguntei pelo último lançamento da coleção “Mulheres Modernistas”, a “A Autobiografia de Alice B. Toklas”, de Gertrude Stein, não tinha, apesar de alguns títulos da coleção estarem lá. Perguntei por “Conversas com Woody Allen”, não tinha. Perguntei pela coleção Glauber Rocha, não tinha. Tudo bem, saí com “Zazie no Metrô” de Raymond Quenau e “Pais e Filhos” de Turguêniev,  e “Sertão Mar” do Ismail Xavier (na falta do Glauber). Todos por metade do preço e a organização era boa, alguém para te atender, não era difícil ver os livros e um esquema hiper-organizado de pagamento.

A essa altura eu já tinha muitos livros muito pesados, e um namorado com mais livros ainda e decidi que era hora de encerrar o prejuízo. O balanço final? Eu acho realmente que poderiam ter mais editoras de literatura, as únicas com força nessa área eram a 34, a Martins Fontes (daquele jeito que eu já disse), a Cosac Naify e a Iluminuras, que na verdade não tem poucos títulos, apesar de bons. Eu até entendo que uma feira em uma universidade dê preferência aos teóricos, mas a literatura é fundamental para qualquer formação. A Companhia das Letras, por exemplo, teria sido uma presença bem vida. Nem todas as editoras primam pela organização, mas os preços são realmente bons. Para mim, o que mais incomodou foi o desfalque dos catálogos e a impossibilidade de visualisa-los em standes como o da Martins Fontes e da Anna Blume. Mas no final das contas, e eu imagino que essa sensação seja comum, sair de lá com duas edições de Dostoievski traduzidas direto do russo e ilustradas com xilogravuras por 50 reais valeu qualquer porém. 
 
 
por Lívia Furtado
livia@revistaescarlate.com
Picture
Nas paredes brancas, o Mário de Lasar Segall aprecia seu acervo pessoal, que inclui paisagens livros... e ele mesmo.
Todo colegial deve se lembrar de sua primeira experiência com Macunaíma. Seja por ter achado a história muito doida quando aprendeu sobre ela nas aulas de literatura, seja por ter achado o livro uma obra-prima, seja por não ter conseguido sair do primeiro capítulo - que texto mais sem pé nem cabeça! Mas, de um jeito ou de outro, é difícil passar por ele sem que ele cause impressão forte.

É difícil passar por Mário de Andrade sem que ele cause uma impressão forte.

As paredes brancas da Sala Martha Rossetti Batista são preenchidas por essas impressões. Ali, na mostra Paisagens Colecionadas: acervo Mário de Andrade, mergulha-se no mundo do modernismo brasileiro – mas não só nele – através do olhar do consagrado escritor. Não são textos que estão ali: são quadros. Uma coleção de quadros e outros objetos que faziam parte do acervo pessoal de Andrade e que o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP traz aos olhos do público até janeiro de 2010.

Um dos principais articuladores da Semana de Arte Moderna de São Paulo (símbolo de rompimento e quebra de padrões artísticos, através principalmente do advento do modernismo, em 1922) Mário de Andrade reunia em sua vida - pessoal e profissional - diversos tipos de arte. Música, literatura, pintura. Professor de piano, poeta, romancista, crítico de arte. Apaixonado pelo folclore e cultura brasileiros. Apaixonado por São Paulo. “Não tem arte que eu não ame e não me preocupe com os problemas estéticos dela.” Palavras do próprio poeta a certa ocasião. A exposição nos mostra relances desse Mário diverso e fragmentado ao expor obras cujo tema central é “paisagens”, indo de retratos do escritor a barcos ancorados em um cais de Recife e imagens de santos gravadas em madeira.

Entrar ali é mergulhar um pouco naquele mundo que os livros restringem ao nosso imaginário - as paisagens que permeiam os textos de Andrade. Quadros como Macunaíma desce por este mundo afora, de Cícero Dias, dão rosto a certas situações e personagens, pintam cenários com cores fortes, lápis de cor e nanquim.
Picture
A arte dos livros se mistura com outras paisagens na exposição do acervo pessoal de Mário de Andrade
Mas poucos são assim específicos e se ligam diretamente ao legado literário do autor. O professor de “Gêneros Híbridos” do IEB e poeta Fernando Paixão aponta ser difícil e até perigoso fazer relações “mecânicas, automáticas, entre um quadro e uma obra” do escritor - ou seja, dizer que Andrade escreveu um certo conto porque possuía um determinado quadro. Mas o que se pode fazer, e justamente o que encanta na exposição, é poder buscar associações livres, elementos comuns, ligar de alguma maneira subjetiva e própria cada um os textos às outras artes - a São Paulo urbana de Paulicéia Desvairada (cuja capa, feita por Di Cavalcanti, também está exposta) com a cidade que aparece ao fundo do retrato do autor feito por Zina Aita, ou a natureza presente em Macunaíma com artefatos rústicos, místicos.
Picture
O Mário de Zina Aita inserido na São Paulo desvairada
Além disso, vários quadros nos revelam pequenos segredos de Mário, além da amizade que ele tinha com outros artistas. Mário de Andrade na Rede, por Lasar Segall, lembra a "lenda" da criação de Macunaíma - deitado em uma rede, teria criado o romance em apenas seis dias. Obras de George Biddle e Cândido Portinari contêm dedicatórias ao autor: em Paisagem com barco e veleiros, Portinari grava: "Para o Mário amigo." Mais gostoso ainda é ler a carta datilografada e cheia de desenhos de Cícero Dias ao amigo, na qual lhe faz elogios, cria e cita versos, e nos deixa vislumbrar uma intimidade que os livros de história muitas vezes não mostram. Mário era conhecido por suas missivas, que vieram aos olhos do público após sua morte – Manuel Bandeira, Fernando Sabino e outros publicaram coleções de cartas que contêm milhares de Mários diferentes e complementares.

Há paisagens - mas não só elas - de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Lasar Segall, Ismael Nery e Cícero Dias. Todos aqueles nomes que se ouve na escola quando se estuda a Semana de 22 reunidos ali, nas paredes brancas do Espaço Martha Rossetti. O modernismo brasileiro atravessando as páginas de Mário de Andrade e sendo refletido nos quadros de seu acervo pessoal. O Mário na rede, estampado em linhas pretas em uma das paredes da Sala, parece apreciar as obras de seus contemporâneos e amigos. "Ai, que preguiça!"
 
 
por Alexandre Dall'ara
Picture
Para aqueles pobres mortais, como eu, que não podem folhear prazerosamente os livros da “Shakespeare&Co” (lendária livraria parisiense) ou, mais realista, gastar os créditos do seu bilhete único de estudante e/ou o tempo de uma leitura obrigatória indo até uma das belas livrarias da Av. Paulista, surge, na cidade universitária, uma promissora alternativa.

O espaço desenhado pelo arquiteto Paulo Bruna se destaca em meio aos arredores uspianos e ao próprio prédio da antiga reitoria - um tanto quanto, digamos...saudoso da última pintura? -, cujo primeiro andar a livraria ocupa. Entre o estacionamento da praça dos bancos, a praça do relógio e o CTR (departamento de televisão, rádio e cinema da ECA), a nova instalação abrigará ainda um café - sem previção de inauguração.

Picture
A livraria João Alexandre Barbosa, inaugurada pela Edusp no último dia 8, leva o nome do professor aposentado da FFLCH, de origem pernambucana, falecido no dia 3 de agosto de 2006, que ocupou a presidência da Edusp. 

O espaço foi todo reformado para abrigar a  loja com um acervo de mais de oito mil e quinhentos títulos da área de humanas. Esses títulos, de acordo com uma funcionária, privilegiam publicações de docentes da universidade e editoras pequenas, sem excluir as maiores, entretanto. Edições de outras áreas, como ciências exatas, por exemplo, serão adicionados futuramente.
Picture
A área externa ganhou uma nova praça, com agradáveis bancos e jardim, que servirá para exposições. Já está prevista, de acordo com o professor Plínio Martins Filho, presidente da Edusp, uma mostra sobre os “Fundadores da USP” com imagens e biografia dos professores fundadores da universidade e dos primeiros alunos formados.

A livraria ocupava anteriormente o centro de vivência, junto com a farmácia, em frente à reitoria. Esse espaço, hoje fechado, também tem previsão de reforma para voltar a funcionar e agregar-se às outras quatro lojas na cidade universitária (Biomédicas, Educação, Geografia/História e Politécnica). Todas elas, porém, são de tamanho menor se comparadas à João Alexandre Barbosa e classificadas como pontos de venda pelo presidente da editora. 

A Edusp conta também com uma livraria no centro (no espaço Maria Antônia), com três mil títulos, e outras cinco distribuídas pelos outros campi da USP, cada uma delas com um acervo em torno de mil títulos.

 
 
por Lívia Furtado
Picture
Entre os símbolos que representam o conto 'O espelho', estão os de infinito e sublimação (primeiro e último).
Guimarães Rosa era leitor de Plotino. Essa foi apenas uma das descobertas que o estudante da Poli, Henrique Primon, fez ao frequentar pela primeira vez a roda de leitura no IEB da qual ouvira falar através de uma amiga. Ele não sabia muito bem o que esperar, e foi sem muito jeito que chegou ao saguão do Instituto, onde encontrou um aglomerado de pessoas e decidiu que devia estar no lugar certo.

O acaso pode ter muita influência no curso de uma matéria. Essa foi apenas uma das descobertas que a jornalista Lívia Furtado fez ao escrever sobre a roda de leitura no IEB da qual ouvira falar através de um amigo. Entrei na história muito assim por acaso - Henrique comentou sobre as leituras comigo porque não havia visto na agenda da Escarlate.

Literatura? Guimarães? Vou com você. Mas não poderia, de fato, ter sido de outro modo - não há história do autor de Sagarana que não envolva um mínimo de mítico, tendo o destino grande papel em suas obras.
Picture
Tema da vez na roda.
Não sabíamos muito bem o que esperar, mas logo ficamos à vontade - é impossível ficar retraído quando alguém lhe oferece doce e cachaça, lá de Minas, vamos, experimentem. É toda terça à noite, das 18 às 20 horas, que as reuniões acontecem em uma sala do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, explica Rosa Haruco Tane, a “rosiana” quem organiza as discussões. O espaço foi conseguido graças ao ex vice-diretor do IEB, Dieter Heidemann, o qual participa do grupo, mas Rosa deixa claro desde o início que “a gente não tem nenhum intuito acadêmico. É só um encontro de amigos apaixonados por Guimarães,” e que, infelizmente, não é toda semana que tem tanta comida assim não (algumas mulheres entram na sala trazendo salgados e doces, que serão devorados mais tarde). A história começou há cinco anos, como forma de manter contato entre um grupo de amigos, e continua até hoje, “faça chuva ou faça sol.”

Rosa dá voz ao palestrante do dia, André Cordeiro. Simpático, o doutor em literatura, que fez sua tese baseada na comparação das obras do pintor paraense Ismael Nery com o poeta Murilo Mendes, nos traz “Narciso refletido: sobre um conto de Guimarães Rosa e um desenho de Ismael Nery, análise de “O espelho” com base nas pinturas de Nery e na obra do filósofo Plotino. Este, neoplatônico, trata do Uno – que equivale, no cristianismo, a Deus -, relacionado ao “mundo das ideias” de Platão.

Picture
'Croqui...': obra que deu título à análise
“O espelho” narra, justamente, a história de um homem que um dia vê em seu reflexo um monstro e, assustado, começa a se procurar em todo espelho pelo qual passa. Ele analisa sua própria imagem e vai desfazendo suas “máscaras” uma a uma, a procura de seu verdadeiro “eu”. Até que, um dia, não vê mais nada, nem seus olhos. Mais tarde, aparece “o tênue começo de um quanto como uma luz, que se nublava” (p. 120). Como se o homem da caverna de Platão de repente visse a ideia de homem, a “homidade”, como se a personagem atingisse o Uno.

As imagens de nós mesmos são tema central também das obras de Nery. Em “Croqui para o retrato da Sra. Adalgisa Nery”, a mulher do pintor se olha no espelho e vê ali a imagem do marido. Os auto-retratos de Nery, reflexos de um narcisismo exacerbado, mostram o pintor sob óticas diferentes, como máscaras distintas sob as quais ele poderia ser visto.
Picture
Auto-retratos do pintor, entre eles o Místico e o Satânico (1 e 3, em cima).
Sentados lado a lado, todos podiam falar e cada um via nas obras algo próprio. Os quadros de Nery, por exemplo: nós vemos em nós os outros, nos vemos nos outros? A mulher vê sua relação com o marido como parte mais importante dela – teria “Croqui” um lado machista? Qual seria o pintor de fato – o anjo, o demônio, a mulher, o homem? Nenhum – ou todos? A personagem, o pintor, os homens, todos com diversas facetas e podendo ser representados de inúmeras maneiras. O mais interessante da roda é ver, justamente, as interpretações que cada participante faz das obras analisadas – começam a ser percebidas novas relações, como com Fernando Pessoa e seus diversos heterônimos.

Poesia, prosa, artes plásticas. A comparação de diferentes tipos de manifestações artísticas mostra que anseios parecidos podem ser demonstrados de maneiras diferentes. O poder da arte, entretanto, é justamente fazer esse algo tão íntimo, “meu”, ressonar nos outros e comunicar-se com eles, em um processo contínuo de construção de significados. As obras não têm um sentido fixo, fechado - a cada leitor, a cada um que as vê, esse sentido se refaz, se reconstrói, se modifica. Nos modifica – ninguém sai igual depois da roda de leitura. A arte é um espelho no qual nos procuramos e acabamos perturbados com o que encontramos. O conto de Guimarães termina com uma pergunta, fica em aberto, esperando nossas próprias respostas. Perturbe-se – vale a pena.

As imagens das obras de Ismael Nery foram retiradas do catálogo da exposição: Ismael Nery 100 anos: a poética de um mito. São Paulo / Rio de Janeiro, 2000.
 
 
Por Lívia Furtado
Nesse canto da casa bate um sol delícia a essa hora da manhã... (Fadas e copos num canto da casa - Mariana Salomão Carrara)

Você chega, sem saber muito bem onde está. A fachada vitoriana rosa envelhecido, a escada larga, a varanda, o jardim incrivelmente calmo – tudo te lembra um filme de época. Você entra, se perde pelos cômodos errados (sem querer, invade a Sala de Restauro), pede informações, e de repente encontra o que estava procurando – muito mais do que imaginava estar procurando. Você foi até ali para ver uma exposição de literatura, mas encontrou fragmentos de si mesmo.

Os painéis suspensos de vidro são iluminados pela luz fraca do sol, a qual se infiltra no corredor através das janelas e da porta aberta que leva ao solário da casa. Atrás dos vidros, letras. Crônicas, poemas, histórias. Reflexos de protagonistas reais em protagonistas imaginários.

Os trabalhos fazem parte da 17ª Nascente – aquela mesma, cujo cartaz você via todo dia ao entrar na USP pela Portaria 1, no primeiro semestre. O concurso, realizado pela USP todo ano, reúne trabalhos artísticos de várias categorias feitos por alunos da universidade e se divide na Mostra Nascente (que abrange as apresentações de Música Popular, Erudita e as peças de Artes Cênicas) e na Visualidade Nascente (Artes Visuais, Audiovisual, Texto e Design). As exposições de cada área ocorrem em locais diferentes ligados à academia - esse ano (assim como na última edição) as de design e texto foram acolhidas pelo Centro de Preservação Cultural (CPC) da USP, mais conhecido como Casa de Dona Yayá.

Quando morre o que você ama / só cabe morrer junto / pra colher o riso dos manicômios / e ver como ainda caminham / os resto, as sobras / dessa marionete insistente (O Eu-Cão que aprumo - Ivan Martucce Fornerón)

Placas distribuídas pela propriedade contam um pouco de sua história. Dona Yayá era Sebastiana de Mello Freire. De família rica, única herdeira de propriedades, foi diagnosticada como doente mental aos 32 anos, em 1919, e levada para a casa da Rua Major Diogo (desce na Brigadeiro, no ponto logo depois de cruzar a Major, informa gentilmente uma senhora no ponto de ônibus), à época uma chácara afastada da cidade.
Picture
No topo da escada, à esquerda, a porta de entrada da casa.
A atual sede do CPC sofreu pelo menos três reformas desde que foi construída no século XIX - originalmente, um chalé de tijolos -, e atualmente passa por restaurações. Os azulejos do rodapé e as pinturas murais; os cantos arredondados das paredes; o piso não mais de madeira - elementos de uma narrativa que se constrói escondida por detrás dos murais e das obras. A história, que remete a clausura e políticas de "saneamento", ganha um pouco de leveza com o grande jardim e com o solário, construído em 1950.

Esta cidade / diagonal / me atravessa o tempo / como um piano que se fingisse manco / eu me rendo, querida, / entre a necessidade / suas imagens / latendo sob outras paisagens / e o tédio e o tédio e coisas que acaso / brilham / nos desvãos a espera de mais dias / mesmos / na contraluz olhares trocados / a esmo e explode como em fruta açúcares e álacres prenúncios de morte em meio ao trânsito (laetitia, SP - Gabriel Pedrosa Pedro)

Nos terrenos de trás, casas mais modernas. Rap que sai pelas janelas. Carros buzinando nas ruas. Presa no tempo, a antiga residência de Yayá convive com elementos do presente, numa mistura vezes conflituosa, vezes pacífica do antigo e do novo.

A queda original não passou de um pretexto, a primeira grande cilada em que Deus meteu o homem p'ra eximir-se da culpa de ter criado também o mal - a necessidade de comer o outro. (A Condessa de Picaçurova - Júlio Cesar Pereira)

Dentro da casa, passado e presente também se misturam. Desde agosto, ela abriga projetos de identidade visual, modelagens e histórias em quadrinho: a sala, o Quarto Verde e o Quarto Rosa dão espaço para os trabalhos de design. No corredor que une os quartos por fora, fica a literatura. Placas de vidro recobrem os fragmentos textuais pendurados ao teto por finas cordas de metal.
Picture
Crônicas, ficções e poemas alinhados no corredor.

São 9, ao todo, as obras de texto - escolhidas por uma comissão de especialistas dentre os 97 trabalhos inscritos, informa Sandra Lara, diretora técnica de ação cultural da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão. Percebem-se nelas temas correlacionados: vida, morte, tempo, relacionamentos. Seja em forma de poesia, crônica ou ficção, são todas “respostas humanas diante do caos”. Segundo a jornalista Cremilda Medina, as narrativas são uma forma encontrada pelo homem de transformar o caos em que vive em um cosmos. Os fragmentos expostos exemplificam esse conceito apresentado no livro “A Arte de Tecer o Presente,” pois tentam organizar questões desse universo confuso.

Santos rebate: “Se alguém rasgou algo, foi Safo que rasgou-se.” (Os Telégrafos - Eraldo Souza dos Santos)

As palavras vão tentando colocar em ordem uma confusão interna, é o que parece. A sensação, ao ler algumas das obras, é de que se está invadindo um universo muito particular, espectador curioso e não convidado. Mas os problemas são também nossos: refletem-se ali, naquela obra tão particular do artista, as inquietações de cada indivíduo do público. É o casal e a família, as reflexões aleatórias, a dor da perda, a humanidade, o tédio, o tempo.

a palavra está gasta    todos os sentidos dizem / somos os homens ocos na terra desolada (Sem título - Josoaldo Lima Rego)


Numa primeira leitura, feita em silêncio, muito do que ali está parece sem sentido. Parte porque não são as obras completas (na estréia da exposição, houve um sarau no qual os autores discutiram seus textos, mas agora encontramos apenas os fragmentos). Parte vem do fato de que tudo parece abstrato demais. Entretanto, uma leitura (ou releitura) mais atenciosa, mais humana, leva à compreensão. Uma compreensão própria, subjetiva e um tanto quanto reveladora.

A iluminação começa a revelar vários buracos no teto. (Zurique - Roberta Carbone)

Talvez as pessoas visitando a Mostra achassem estranho ver uma mulher parada à frente dos painéis lendo em voz alta, com emoção na voz, as narrativas. Como nos dois dias de visita não havia ninguém, exceto os funcionários do lugar, não foi preciso se preocupar com isso. A voz encontrou apenas o silêncio – entrecortado pelos jatos de água com que Dona Delza, faxineira, limpava o chão de pedra do solário. Aparentemente, sexta-feira é dia de faxina.

Uma conversa com o guarda Francisco Batista Rocha revelou que a maioria das visitas ocorre no fim de semana. “Trabalho aqui há 10 anos. A maioria é estudante ou professor, e vem nos domingos, porque de sábado aqui fica fechado.” Está explicado. Além disso, é provável que a maioria das pessoas tenha ido nos primeiros dias – a exposição acaba já agora no dia 23, quarta feira.

Os presságios estão onde as pessoas se lavam. (...) Escuta a respiração da manhã nascendo, mais um dia que nasce, com ele a antiga ciência de virar a página do calendário.(Wonderland - Tadeu de Melo Sarmento)

No domingo, vozes. Estão visitando a mostra? “Não, a gente está ensaiando.” Teatro? “Somos do grupo História do Brasil em Cena, estamos apresentando o ‘Olhares sobre Dona Yayá’. Nossa, se você tivesse chegado meia hora antes, tinha um grupo de umas dez pessoas por aqui visitando.”

É uma pena, mas no fundo a solidão faz bem. Às vezes a nossa subjetividade precisa de um pouco de paz.

Na imaginação, um grupo de pessoas lendo em voz alta seu próprio caos organizado.

Desgraçada seja a literatura, que não salva ninguém. (Bela literatura de província - Tiago Guilherme Pinheiro)

  ___________________________________________________________
Perdeu a exposição? Veja aqui fotos e todos os textos expostos na Nascente.

Na próxima terça, 29, ocorre a premiação da 17ª Nascente. Confira mais informações aqui.

A peça “Olhares sobre Dona Yayá” é apresentada na Casa todo último final de semana do mês, até outubro. As próximas apresentações serão no dia 26 (às 15 horas) e 27 de setembro (às 11 horas). A entrada é franca.