Escarlate :: A sua revista virtual sobre arte na USP
 
por Alexandre Dall'Ara


Você, que fazia teatro na escola, apresentava singelas peças para o papai e a mamãe e também para aquela tia coruja – sempre pronta para elogiar sua brilhante performance como árvore – acha que a faculdade vai acabar com esses dias de diversão na cochia? Estudante de ensino superior não tem tempo para isso? Nada mais errado!
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Mesmo não sendo um sortudo aluno de artes cênicas ou da conceituada EAD, você pode fazer e assistir muito teatro na USP.

A universidade possui uma variada e intensa programação de teatro. Na cidade universitária, o teatro laboratório da ECA (aquele prédio onde os bixos ecanos fazem a matrícula) costuma ter peças em cartaz a partir de maio e, para você que não pode desperdiçar o dinheiro do bandejão, boa notícia: elas são gratuitas! No final do ano passado, por exemplo, a programação incluía uma peça infantil ("O gato malhado e a andorinha sinhá") e outra adulta ("O diabo de Tetas").

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Mas não é só isso, a USP também dispõe do famoso TUSP, localizado no espaço Maria Antônia, no centro. Sim, aquele perto do Mackenzie. As peças do TUSP, apesar de ter ingresso cobrado são sempre baratinhas (de R$10 a R$15 reais para estudante) e são apresentadas por grupos teatrais que se inscrevem nos editais abertos pelo teatro para a ocupação de suas salas. (Falando nisso, o edital para a temporada de maio a junho acaba nessa segunda, dia 22!) O espaço ainda possui outros atrativos como cursos variados e mostras de arte (ver o guia de museus na editoria de artes plásticas)

Nessa semana o TUSP está com a peça “Meninas, Corram!” em cartaz. Aliás, se você não quer perdê-la é melhor correr mesmo! A peça fica lá até domingo, dia 28. Já na próxima semana, quarta-feira (03 de março) entra em cartaz “Escuro”.

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Caso toda a programação não supra sua atração pelos deuses do teatro, ainda é possível participar de grupos de teatro formado por alunos da faculdade. Um grande exemplo é o Grupo de Teatro da Poli (GTP), famoso dentro e fora da universidade. O grupo tem mais de cinquenta e cinco anos de história e divide-se em seis núcleos. A partir do começo das aulas já é possível ir até a sala preta, sede do GTP, lá no prédio do biênio e manifestar seu interesse em participar.

O núcleo amarelo terminou o ano passado apresentando a peça “Terror e miséria do Terceiro Reich”, de Brecht. A montagem, mesmo com poucas adaptações conseguia dialogar com a atualidade e a realidade brasileira. Espalhando-se por vários espaços da POLI, os espectadores eram levados de lugar a lugar pelos atores (aos gritos!) de modo a reproduzir o temor imposto pelos nazistas e caracterizado pelo texto de Bertolt Brecht.

Diante de todas essas opções não há como sentir saudades dos teatrinhos do primário! Bixos, bixetes, veteranos e veteranas, (enfim: uspianos) o teatro vos espera!

 
 
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Por Alexandre Dall'Ara

Não espere ação dramática. Os conflitos não aparecerão e as falas não se constituem em diálogos. As senhoras no palco, entretanto, proporcionam um espetáculo diferente, surpreendente. Impossível não se sentir na casa da vó, mais precisamente na varanda daquelas casas de interior onde as senhoras se encontram pela tarde para conversar, tricotar...

Mas esse tempo é distante, assim como o interior também o é para muitos. Para outros, as avós é que não são mais presentes. E aí parece residir a sutileza da peça. Ela nos traz um tempo que não nos pertence, talvez nunca nos tenha pertencido, mas do qual, mesmo assim, temos saudades. Ela preenche tão bem o imaginário dos finais de semana de nossa infância, quando ficávamos (ou não, pouco importa se essa lembrança é real ou inventada, sonhada, induzida) na casa da vovó e tudo era diferente. O sorvete antes da refeição podia, bagunça podia, sujar-se podia.

A montagem se mostra, ao contrário do que se esperaria de uma peça com elenco de senhoras atrizes amadoras, inovadora. Isso porque ao invés do tradicional drama vemos em cena seqüências performáticas em que as atrizes representam não um discurso, mas um estado de espírito, uma noção muito mais complexa sobre o significado de ser velha, das experiências que brotam de seus olhares através dos movimentos com as cadeiras, através da coreografia.

Entretanto, a cena, lá pelo fim do espetáculo, em que elas de fato contam divertidas histórias vem acalmar o desconforto - saudável e prazeroso para alguns, incômodo demais para outros, talvez – causado pela forma não-convencional. Cena que envolve a platéia e assim mostra-se mais acessível, mais comunicativa, mesmo que não necessariamente mais rica do que as outras. 
 
Monólogo a dois 11/11/2009
 
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por Alexandre Dall'Ara
Apresentada no anfiteatro professor Dr. João Yunes da Faculdade de Saúde Pública, visivelmente não preparado para apresentações de teatro, a peça não prometia muito. O público de nove pessoas (incluindo este que escreve) desfazia qualquer idéia de grande evento. Um cenário de caixas de madeira, um pequeno tatame e uma atriz no palco. Era tudo.

A simplicidade da montagem, entretanto, contrasta com a qualidade técnica logo na primeira cena e tudo começa a se transformar!



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Belos movimentos inspirados pelo Aikido (arte marcial japonesa) fazem o corpo da atriz (Renata Mazzei) dançar no palco. A rotina ordinária de uma mulher que se veste, maquia, perfuma ganha ares ritualísticos e, a partir dessa abertura, o cenário se multiplica, ganhando novas formas e significados, a precariedade do anfiteatro desaparece, a platéia vazia só faz aproximar-nos da cena e identificarmo-nos intimamente com a personagem.

Mais impressionante, porém, é como um monólogo consegue apresentar dois personagens. A mulher abandonada pelo marido o traz ao palco por meio de suas lembranças de modo impressionantemente vívido e ainda mais longe, a coreografia da personagem consegue dividir seu corpo em dois (como no título: Separação de corpos), ou melhor, representar, em um só corpo, o casal em separação.


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O único acessório usado para o efeito é um pano branco, que por vezes envolve a mulher como os braços do amado e, em uma cena interessante, leva-a ao orgasmo. Não se faz necessário o típico e cansativo uso de duas entonações diferentes (a do homem e a da mulher). Tudo cabe apenas no corpo dela, na sua voz, nos seus olhos e no silêncio que se segue às falas do diálogo sem resposta.

A ausência física do homem, ou de qualquer imitação simplista, é ainda mais rica se percebida como um recurso formal que nos arrasta para o papel da protagonista. Somos capazes de sentir a presença dele, mas, mais importante, a falta, a lacuna, a saudade deixada pelo personagem ausente.

O silêncio dele também impele a dor de quem discute sozinho, como nas conversas de fim de relacionamento em que a conexão já se rompeu e não há mais comunicação. Sentimos a angústia daquela que foi abandonada e se frustra a cada nova tentativa de restabelecer um diálogo com o outro. A protagonista se vê, por fim, sozinha no palco. Assim como nós, sozinhos na platéia.


 


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Um tema comum, uma visão subjetiva de um relacionamento amoroso, e um monólogo com poucos recursos se tornam interessantes e deixam o sabor de ter visto algo diferente acontecer no palco. Os nove presentes na platéia deixam de ser poucos e tornam-se cúmplices na descoberta de algo único, particular.

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por Denise Eloy
"As águas estavam cobertas de manchas negras, que deslizavam lentamente... lentamente", já dizia o Capitão Charles Melville Scammon. A bordo do navio Léonore, no dia 10 de janeiro de 1856, o capitão e sua tripulação descobrem um tesouro escondido no Golfo da Califórnia: o santuário das baleias cinzentas, em que essas se reproduzem e tornam para morrer.

É essa a história da peça Pawana, adaptação da obra de Le Clézio - Prêmio Nobel de Literatura em 2008. Dirigida por Georges Lavaudant, foi exibida nos dias 16 e 17 de outubro no TUSP. O espetáculo faz parte da programação especial do Ano da França no Brasil. A título de curiosidade, “Awaité Pawana" é o grito proferido por um índio quando vê as baleias sob o mar.
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Jean-Marie Gustave Le Clézio nasceu em Nice, França, em 1940. Estudou na Universidade de Bristol e no Institut d’Études Litteraires, em que concluiu seu curso de literatura francesa. Sua fama iniciou-se aos 23 anos, quando seu primeiro romance, Le Procès-verbal, ganhou o prêmio Renaudot.

Além de romances, contos e ensaios, escreveu o seu único texto para teatro, Pawana. No Brasil, O Africano e A Quarentena são alguns dos seus livros publicados. Sua escolha para vencedor do Prêmio Nobel de Literatura é justificada pela academia sueca: “escritor de ruptura, da aventura poética e do êxtase sensual. É um explorador da humanidade além e por baixo da civilização reinante”.

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Georges Lavaudant nasceu em Grenoble em 1947. Renomado diretor francês de teatro, já codirigiu o Centro Dramático Nacional dos Alpes e a Casa de Cultura de Grenoble.

De 1997 a 2007, foi diretor do Odeon Théâtre de l’Europe. Trabalhou com textos clássicos e contemporâneos e dirigiu espetáculos em vários lugares do mundo.

Minha aventura começou cedo. Ao chegar ao teatro, para minha surpresa, este estava lotado. Uma fila se formava para adentrar nos subterrâneos do complexo. Pessoas de várias idades, todas com um panfletinho teatral na mão. Quando me dirigi a bilheteria, logo avistei tristemente: 

"Ingressos para o espetáculo Pawana esgotados". 

Decepção
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Como eu não tinha imaginado que ia lotar, já que era gratuito? Logo escutei uma funcionária do TUSP que dizia que eles haviam orientado os convidados a chegarem cedo, devido à alta procura pelo espetáculo. Surpresa de novo. A única solução que se mostrou a mim foi sentar e esperar. Logo as cadeiras vazias de dentro do teatro ofereciam uma nova oportunidade para as pessoas que aguardavam ansiosamente lá fora. Assim, com um dos últimos ingressos, eu entrei. O TUSP havia disponibilizado uns lugares a mais, num improvisado banquinho, a frente da primeira fileira e de cara com o palco. Aquilo, para mim, foi melhor do que ter um lugar reservado.

O cenário era simples. O fundo e o chão pretos. Uma tablado de madeira, numa espécie de passarela, se alongava na nossa frente e uma pequena brecha se mostrava com um tecido branco lá atrás. Quando a peça começou, uma luz azul a pintou. Nada mais apropriado. 

Eis que entra pelo ancoradouro, com uma roupa simples (calça, blusa, gorro e pés descalços), o marinheiro do porto de Nuntucket, John. Ele conta, com os olhos brilhando de um sentimento desconhecido, como sua paixão pelo mar e por seus mistérios começou. Fala de quando era jovem e sonhava em navegar. Sofre com seu amor pela índia Araceli, seu encanto em terras desconhecidas. Brilhante, Otávio Martins o interpreta.
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Otávio Martins é ator, diretor e dramaturgo. Nasceu em Campinas, em 1970. Em 1993, estreou seu primeiro espetáculo, a comédia After Magritte, de Tom Stoppard.

Dentre os vários trabalhos, ele já atuou em A Máscara do Imperador, de Samir Yazbek; Os Jogadores, de Nikolai Gogol; Vestir o Pai, de Mário Viana; Santa Joana dos Matadouros e Ensaio Sobre o Latão, ambas de Bertolt Brecht.

“Como alguém pode matar aquilo que ama?”
“Como alguém ousa amar aquilo que matou?”

É com sua voz marcante que o Capitão Scammon aparece a nós. Celso Frateschi é esplêndido no papel. Com sua roupa típica de um grande navegador, conta aquele dia em que viu manchas negras sob a água. Explicita, nos mínimos detalhes, como se dava a matança. Transmite o vigor e a excitação daqueles homens com a descoberta. Dessa forma, reconstrói o dia decisivo e passa, com a maior das aptidões, as imagens verdadeiras e sangrentas ao público. Vai além: sente que tudo aquilo foi um erro.
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Celso é ator, diretor e dramaturgo. Estreou em 1970 no Teatro de Arena de São Paulo. Foi premiado por vários trabalhos e é, atualmente, Secretário da Cultura de São Bernardo do Campo e Professor de Interpretação na EAD/ECA-USP. Sua carreira é regida por uma opção de priorizar trabalhos de forte conteúdo crítico.

Para completar a beleza do espetáculo, o Coral Juvenil da Escola Municipal de Música nos encanta de uma maneira extraordinária. Regido por Mara Campos, Suíte do Pescador arrepia a plateia. 

Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer

Meus
companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer

Adeus
, adeus
Pescador não se esqueça de mim
Vou rezar pra ter bom tempo, meu bem
Pra não ter tempo ruim
Vou fazer sua caminha macia
Perfumada com alecrim
 
Ainda anestesiada com aquelas duas horas em que passei sentadinha no banco, subi as escadas, ao término do espetáculo, e escutei uma mulher, que conversava com um amigo: “Você visualiza aquela matança!” Sem hesitar, concordei. Ela estava absolutamente certa.
 
 
por Alexandre Dall'Ara
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A inteligência do texto passa pelo som das palavras? Perguntou o escritor Daniel Pennac pela voz agradável de Deise A. Pacheco, orientadora de arte dramática do TUSP logo no começo do encontro iniciado pontualmente às quatro horas da tarde de uma quinta-feira. Outras perguntas seriam feitas e o público habitual e participativo não pouparia respostas. As pouco mais de quinze pessoas, em sua maioria idosos – o evento também integra a agenda do programa Universidade aberta à terceira idade -, não negavam a força da voz e seu apreço por ela. Lembravam-se do tempo em que se lia alto na escola, revelavam que ouvir a voz, a própria e a dos outros, enriquece o texto e a compreensão.

‘‘O texto lido por um nunca é o mesmo na voz de outra pessoa’’

Ainda mais essencial é a voz quando se fala de teatro. A linha que divide o teatro da literatura é tênue e essa distinção passa pela fala. Os outros elementos teatrais também constroem o teatro como espetáculo e não apenas texto, mas a leitura de uma peça já nos dá a idéia das inúmeras possibilidades e nuances do texto dramático fora do papel.

No terceiro encontro do II Ciclo do programa TUSP de leituras públicas, os três personagens de O pedido de casamento, de Tchekhov, foram lidos, em conjunto, por doze pessoas. Em meio às falas e ao áspero ruído do virar de páginas, senhoras, jovens e atores profissionais se revezavam em busca de um lugar nos sofás, destinado aos que fossem ler. A senha eram falas destacadas a marca-texto amarelo. Ao se deparar com o colorido no papel devia-se levantar e ocupar o espaço no sofá.

Sentado, então, o personagem tomava forma. E revelava-se a magia do teatro. O encanto que apagava as rugas das senhoras octogenárias e transforma-as em um homem de trinta e cinco anos em busca de uma pretendente; que nos fazia aceitar, e com deleite, as palavras desesperadas da solteirona Natascha vindas de uma boca masculina e barbada; que tornava crível um Tchouboukov canastrão mesmo pela por uma fala tímida. E ainda assim, o teatro nos envolvia a ponto de a senhora ao meu lado suspirar: ‘‘Coitada da Natascha’’.

O caráter farsesco da peça em um ato de Tchekhov e os poucos personagens tipificados garantiam a não confusão deles principalmente pela repetição de falas características. Ouvia-se inúmeras vezes o ‘‘e coisa e tal’’, bordão de Tchouboukov (pai de Natascha), a cada momento com uma voz diferente, uma entonação particular, um tom feminino, masculino...Mas o riso da platéia-leitora nunca faltava.

A sala experimental, no subsolo do Maria Antônia, mesmo ocupada apenas por cadeiras, sofás e uma simpática mesa com café e três tipos de chá, tornava-se o cenário para a peça em questão. Ela não foi encenada em um palco, porém. Pairava sobre nossas cabeças, na atmosfera única, que só a imaginação pode criar. Nesse espaço invisível que conecta um grupo tão variado de pessoas em torno de um texto ambientado na distante Rússia camponesa do século XIX. Conectava-nos e nos fazia rir juntos. Juntos, mas de olho no texto. Entreolhando-nos apenas através desse cenário imaterial.

O II Ciclo do programa TUSP de leituras públicas ocorre sempre às quintas-feiras às 16hrs. Até dia 29/10.


Para ver a programação completa do TUSP, clique aqui.
 
 
Por Alexandre Dall'Ara
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Assisti a uma peça fantástica. As cadeiras solitárias, de um preto sóbrio, miravam quietas o espaço vazio, mas algo estava presente na sala . A ânsia do olhar. Um espaço feito para servir como espelho de nós mesmos, da sociedade, falava em silêncio. A disposição observadora da platéia, o palco nu e escancarado falavam de uma necessidade de representar para viver o impossível. A arquitetura do teatro simboliza o sentido da arte, ou um dos muitos. Servir como espaço de experimentação da vida. Um exercício catártico ou não, mas principalmente de transporte para uma outra realidade, de superação da simples existência.

Mas o teatro também é entretenimento e produto. Não que isso corrompa sua qualidade, certamente, porém, o afasta duma função mais ideal, ritual, original. Seja isso bom ou ruim. O mérito da sua realização na universidade talvez seja justamente esse: permitir-se, experimentar. As regras podem ser flexibilizadas, e as mais diversas intenções podem (ou deveriam poder) ganhar espaço.

Aqui, ele é político, promovido por órgãos como o DCE, que recentemente apresentou o Breja&Brecht, é experimental como os eventos da vasta programação da 14ª semana de Arte e Cultura, é vestido de um aparato formal, como as peças em cartaz no TUSP, com apresentações semanais, ingressos pagos, etc.
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Assim, a universidade dá espaço a um retorno do teatro às suas origens, sejam as mais remotas e clássicas, mais modernas e brechtianas, pós-moderna e performática. E nesse ambiente, o teatro, livre, pode transformar-se. Pode surpreender as cadeiras e seu couro asséptico, pode chocá-las, envolvê-las, removê-las.

E só nesse espaço, um discurso - como este - silencioso, imprevisível e pessoal pode ser visto no intervalo de uma aula e outra. Não é necessário ingresso. A entrada não é gratuita, é livre. A única exigência é que se desliguem os celulares, calem as vozes e atentem à madeira, ao couro, ao carpete. Não há desculpa, a exibição é permanente, até que os pilares de concreto cedam ou o segurança feche a porta aberta de praxe.
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